Ideias que ouvi


Subi e desci morros, entrei em vielas, conheci bairros que nem sequer sabia existirem. Ganhei a rua. Gargalhei junto, compartilhei lágrimas e tomei muito café (dos mais fortes aos mais fracos). Assustei-me na mesma medida em que me indignei e me entusiasmei. Conheci uma porção da cidade que só outros olhos seriam capazes de me mostrar. Para contar o que não é notícia, ouvi o outro na certeza de que é urgente encontrá-lo.
Em um ano, apresentei-me e fui apresentado a 49 pessoas, entre anônimos e figuras mais conhecidas de nosso cotidiano. Personagens reais que compõem a terra onde entrego meus pés. Partilhei minutos e horas para escutar o que nenhuma narrativa oficial dá conta de expressar. Passados esses 12 meses, certifico-me de que só a partir dos indivíduos alcançamos a história coletiva em suas muitas arestas.
A cada semana, liguei o gravador e me dispus a ouvir, muito mais que a falar. Nas mais de 30 horas de gravações, está registrada a “felicidade completa” conquistada por Marlene Valverde, a discreta senhora à frente do agitado Forró da Marlene. Lá está a trajetória de trabalho intenso da Família Furtado, com sua Pastelaria Mexicana, o food-truck de quando o termo nem era sabido. Também está o entusiasmo do cobrador de ônibus Magela e da Preta, da Via São Pedro. O aparelho não deu conta de gravar as lágrimas de Carlos Guedes ao falar do irmão Júlio, mas, como tantas outras dores, tentei transmiti-las nas palavras.
Para os personagens folclóricos e para os escondidos nos silêncios da barulhenta cidade, perguntei sobre a vida, me confrontando com a subjetividade muitas vezes recusada pela linguagem jornalística. Diante do ser humano, a única técnica que vale é ser humano. Assim, apurar é, também, se deixar levar. E o que seria desse ofício praticado nas redações, senão o de registrar passado e presente para a construção de outro, e melhor, futuro? Como falar de notícias, se quem as faz são as gentes, as vidas? Como contar histórias sem se sensibilizar com elas? Palavras não são números.
De todos os 52 encontros publicados na Tribuna – três deles foram escritos pelos colegas Guilherme Arêas, Júlio Black e Marisa Loures -, resta uma paisagem familiar de Juiz de Fora. De todos os textos, um pouco do entrevistado e um pouco de mim. Um pouco da minha avó, que, entre linhas, agulhas e panos, fez sua história na cidade que escolheu reconstruir a própria vida, ao lado dos três filhos pequenos. Um pouco de minha mãe, de meu pai, de meus tios e tias e de minha filha.
A coluna é, portanto, um entre muitos possíveis retratos do que vemos pela janela de nossas casas. Um perfil. E perfis nunca são inteiros, só existem quando uma face está de lado, são contornos. São ideias, outras, que, vistas em conjunto, formam uma cena. Das ideias que ouvi, nenhuma me saiu da cabeça, do corpo e da mente. Das histórias que ouvi e ainda ouvirei, todas me fizeram e me farão outro. Melhor.








