Um papel fundamental
O que está escrito e assinado, no papel, tem (mais) valor. Assim se fez a história, com pilhas e pilhas de papéis registrando o que nem sequer imaginaríamos. Alvos de frequentes e inconclusivas polêmicas, o papel, que ainda não foi substituído pelas mídias eletrônicas, nunca irá acabar. Ao menos, os que já foram feitos, tamanhos os avanços tecnológicos da área de conservação e restauração. Restaurador de papel do Museu Mariano Procópio por 12 anos, e do Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm) desde 1996, Aloísio Arnaldo Nunes de Castro lança nesta quarta, às 20h, A trajetória histórica da conservação-restauração de acervos em papel no Brasil, retratando a caminhada de profissionalização dos agentes e das instituições nacionais. O lançamento integra o seminário que traz à cidade nomes de peso na área, como o professor Howard Besser na Universidade de Nova York. Com vagas esgotadas, o conjunto de conferências e mesas-redondas receberá até sexta estudiosos e profissionais das principais capitais do país.
A preservação é uma medida política e administrativa, a conservação reúne as medidas capazes de colocar o bem cultural em condições ideais para que tenha sobrevida, e a restauração é um trabalho de intervenção daquilo que não escapou à deterioração, resume Castro, que lida diariamente com a coleção de arte de Murilo Mendes, sendo 90% dela constituída por trabalhos em papel, e também da biblioteca de obras raras do poeta, muitas delas com dedicatórias e marginálias.
A preocupação preservacionista sempre existiu. Num exemplo remoto, os egípcios colocavam óleo em papiros para afastar os insetos, conta, apontando que as capas dos livros surgiram como forma de resguardar o conteúdo das obras – quanto mais sagrado o texto, maior seria o número de pedras preciosas cravejadas na capa. Sem quaisquer metodologias, o empirismo tomava conta das atividades que previam a integridade dos papéis na Antiguidade.
A Revolução Francesa quebrou esse paradigma. Aquilo que era dos deuses passou a ter um pertencimento público. O objeto passou a ser valorado pela sua dimensão histórica, explica, situando os fatos ocorridos nos anos finais do século XVII como um dos principais marcos na área que rumava, então, para o trato científico. Com o desenvolvimento da física, da química e da biologia a restauração se ampliou na seriedade de propostas mais teóricas. O restaurador já não trabalhava para o clero e nem empiricamente. Surgiram os tratados de ética, com pressupostos estéticos e intervencionistas, comenta.
Nascido em Juiz de Fora, em 1910, o principal responsável pela introdução da ciência da restauração no Brasil, Edson Motta, iniciou-se nas artes ainda na cidade, com o tio César Turatti e logo ganhou mundo. Em 1944, ele foi estudar na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, aproximando-se de renomados profissionais da química e da física, além de experientes restauradores e respeitados intelectuais. Ele se preocupou muito em adaptar as técnicas de restauração para um país terceiro-mundista de clima tropical, além de ter inaugurado a disciplina na Escola de Belas Artes, da UFRJ, afirma Castro.
Universo complexo
Ampliação da dissertação de mestrado de Aloisio de Castro, o livro, publicado com recursos da Lei Murilo Mendes em parceria com a Editora da UFJF, reflete também o percurso cultural brasileiro. Da criação do Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), atual Iphan, à solidificação de cursos de graduação e pós-graduação em conservação e restauração no país, Castro traça um panorama do pensamento artístico brasileiro. Enquanto na primeira metade do século XX prevaleciam as políticas públicas que se voltavam para um conceito iluminista de cultura, na segunda metade desenvolveu-se a compreensão de bens culturais, o que possibilitou a valorização de bibliotecas, arquivos e laboratórios.
Se antes os restauradores ficavam limitados aos porões de museus – não havia a linha limítrofe entre o artista e o restaurador, eles eram sempre os dois, pontua Castro -, hoje eles estão em espaços privilegiados, como o que o pesquisador ocupa no Mamm. Em uma grande sala do museu, Castro trabalha cercado por equipamentos que vão desde uma estranha câmara de hidratação de papel até uma colorida caixa de lápis aquarela, passando por inusitadas bancadas com torneiras para banhos com soluções apropriadas para o restauro de obras em papel. Construído de maneira exemplar, o laboratório de conservação e restauração de papel do Mamm foi baseado num modelo espanhol que Castro conheceu durante seus estudos no país, um dos mais avançados do mundo.
Atualmente, quando se reclama a ciência da conservação, o restaurador é um indivíduo com uma visão ampla, voltado para aspectos gerenciais e políticos, muitos mais que curativos, defende Castro, que iniciou sua formação na Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, onde tomou contato com a ciência; no Museu Nacional de Belas Artes, também na capital fluminense, em que estudou obras raras; e no Museu de Arte Contemporânea da USP, em São Paulo, quando se aperfeiçoou no contato com obras contemporâneas.
Em seu contato com as mais diversificadas práticas de conservação, o pesquisador já deparou com técnicas extremamente modernas, como os recentes estudos acerca da Intensidade Raman, que se utilizam de um raio laser para identificar a composição de papéis, ajudando em uma rápida intervenção. Hoje os espaços estão muito mais equipados para conservar e ao mesmo tempo as tecnologias de restauração caminham a passos largos, analisa, destacando uma das problemáticas atuais: As pessoas imaginam, erroneamente, que ao migrar do suporte físico em papel para o meio eletrônico estão preservando. É possível ler um papiro egípcio, mas já é muito mais difícil ler um disquete de dez anos atrás.
Segundo a coordenadora e professora do curso de Conservação-restauração de bens culturais móveis da UFMG Yacy-Ara Froner, a trajetória resgatada por Castro propõe uma discussão acerca das questões relativas à memória, tão em alta nos dias de hoje. Se acervos artísticos sobre papel ainda podem ser abalizados por questões como autenticidade e originalidade, acervos documentais ficam à mercê dos desígnios políticos, dos recursos disponíveis e da compreensão, destacadamente, sobre o sentido da sua preservação física, comenta no prefácio da obra.
Tomando o argumento do pesquisador belga Paul Philippot, que diz que a restauração possibilita um diálogo com as obras do passado, Castro defende sua atividade e sua pesquisa, que agora toma novos rumos diante do doutorado na área, acreditando que a sociedade precisa da restauração para que o passado não se dissolva em ruínas, modificando os valores do que já foi feito. Os papéis, segundo ele, são essenciais.









