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Para que cada um esteja no ‘todos’


Por JÚLIA PESSÔA

26/04/2013 às 07h00

Nunca nascerá um ser humano igual ao outro, somos, em essência, diferentes uns dos outros. Por isso, a palavra ‘diferente’ não deve designar um ou outro grupo de pessoas. É com estas palavras que a Cláudia Werneck explica a ideia que o espetáculo Um amigo diferente?, baseado em um livro da escritora, procura passar.

Desde 1992, quando se interessou pela questão, Cláudia publicou 14 livros sobre direitos humanos e fundou a organização Escola de Gente, voltada para políticas de inclusão e acessibilidade. Segundo a autora, Um amigo diferente?, assistida por mais de três mil pessoas em 2011, no Rio de Janeiro, só é levada a teatros acessíveis. A peça não só fala sobre inclusão e acessibilidade, mas também as pratica. É comum vermos trabalhos que tratam destas questões, muitas vezes até encenados por pessoas com deficiência, mas em locais completamente inacessíveis. Trabalhamos em prol de uma coerência entre discursos e ações.

No espetáculo, há intérprete de Libras (sinais para a comunicação de pessoas surdas) desde a fila e durante toda a apresentação, e os cegos podem visitar o cenário meia hora antes do início. Para as crianças, programas em linguagem mais simples são distribuídos, e tanto neles quanto nos dos adultos, há versões em braile e letra ampliada, além de audiodescrição e legenda da peça. Pessoas com deficiência têm atendimento prioritário, e, primordialmente, o espaço deve ter acessibilidade física, o que acontece com o Teatro Pró-Música, onde a montagem será apresentada em Juiz de Fora.

Com suporte para que todos compreendam a mensagem, a peça narra a história de Lucas, um garoto considerado estranho e que vai tendo cada vez menos amigos em suas festas de aniversário com o passar dos anos. Mas cada um dava um motivo para justificar a ‘estranheza’ dele. Após uma aposta feita com seu irmão, ele sai em busca de mais amigos para o próximo aniversário e entra em contato com diversos conceitos relacionados à inclusão e à acessibilidade. Tudo isso na companhia de seu gato Bandidão, que sabe tudo sobre estes temas, mas deixa que seu dono descubra por ele mesmo.

Com quatro estrelas pela crítica carioca especializada, a peça Um amigo diferente? é encenada pelo grupo Os Inclusos e os Sisos, projeto de arte e transformação social da Escola de Gente, criado em 2003 por estudantes de artes cênicas, entre eles a atriz e ex-VJ da MTV Tatá Werneck, filha de Cláudia. No espetáculo, adaptado do livro por Marcos Nauer, que também o dirige, os atores cantam composições da trupe musicadas pela cantora Maria Gadú. Ela generosamente concordou em fazer a melodia para palavras que refletem nossa metodologia e motivação de trabalho, que é garantir que todas as pessoas façam parte do ‘todos’ a que nos referimos cotidianamente, conta Cláudia.

Além das encenações da peça hoje e amanhã, às 15h e 16h, respectivamente, Marcos Nauer ministrará, no sábado, uma oficina de teatro acessível, das 10h às 13h. Para Cláudia, é mais uma chance para formar plateias e artistas de gerações futuras com mais consciência de um mundo inclusivo e acessível. Queremos chegar a um ponto em que as pessoas estranhem, na plateia e no palco, quando um espetáculo não oferece recursos de comunicação para todas as pessoas. A oficina nada mais é do que um espaço para mostrar como fazemos este teatro e o que aprendemos sobre estas questões.

UM AMIGO DIFERENTE?

Musical infantil, hoje, às 15h, e amanhã, às 16h

Oficina de teatro acessível com Marcos Nauer, amanhã, das 10h às 13h

Teatro Pró-Música

(Av. Barão do Rio Branco 2329 – Centro)