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Muito açúcar e muito afeto


Por MAURO MORAIS

26/04/2013 às 07h00

"A música é a melhor e mais eficiente comunhão que existe no mundo. Fazer música é eliminar o ruído entre a alma e o corpo", brada Tibério Azul, para logo cantar "Quem te viu, quem te vê", no CD e DVD "Tem mais samba", gravado na mítica casa Estrela da Lapa, no Rio de Janeiro. Não fosse a percepção de que a genialidade do compositor Chico Buarque é passível de atualizações e introduz-se facilmente em outros contextos, as interpretações da pernambucana banda Seu Chico não passariam de releituras. Mas, como evoca Azul, música é víscera, e não bastam o sotaque nordestino, as batidas de maracatu, o compasso do frevo, o ritmo do afoxé, entre outras misturas, para garantir a contemporaneidade. É preciso estabelecer diálogos, simplificando sem ser simplista, inserindo Radiohead e sua "Paranoid android", além de Bach, revelando novas nuances do que já parecia compreendido. De volta à cidade, a banda, formada pelo vocalista Tibério Azul, pelos percussionistas Bruno Cupim, Negro Grilo e Amendoim, pelos violonistas Rodrigo Samico e Vinícius Sarmento e pelo pianista Vitor Araújo, se apresenta hoje, às 23h, no Cultural Bar.

Tudo feito sem compromisso, "quando pára o samba/bate(m) palma e pede(m) bis". "Minha sensação é de que a Seu Chico é uma banda muito fluida, e aí o show acaba se tornando uma grande catarse", comenta Azul, afirmando que todo o caminho do grupo, já reconhecido nacionalmente, foi natural. Formado em 2006, com integrantes da banda Mula Manca e a Fabulosa Figura (da formação original, restam apenas Azul e Cupim), o projeto se assemelha a um coletivo, já que todos consolidaram-se, também, na carreira solo. "A banda ensaiou muito pouco. A gente não tem o pudor de estar no palco. Tudo foi muito natural e aleatório. Os arranjos foram ficando com a cara de cada músico", aponta Cupim. "A gente não pensou sobre nada, acabamos nos impressionando como o público", confirma Azul.

Até mesmo o resultado comentado pelo próprio Chico Buarque, que diz ter sentido uma renovação de seu repertório no espetáculo, é tratado sem nenhuma pretensão. "Não pensamos em modernizar Chico, queríamos apenas tocar de uma forma divertida", explica o vocalista, para logo acrescentar: "Acho que modernizar é um pouco demais para nós. Chico não se moderniza, ele é moderno". "A banda é de improviso", dispara Cupim, concluindo a reflexão e justificando a boa mistura no palco: "Do mesmo jeito que a gente é fã de Chico, a gente é fã de Luiz Gonzaga e Radiohead".

Para o percussionista, o mais interessante é a reação do público, sempre heterogêneo, com diversas gerações. Segundo ele, os contemporâneos de Chico Buarque exaltam a mudança nas canções; os mais novos, na faixa dos 40 anos, ressaltam a animação do show; já os mais novos ainda, na faixa dos 20, destacam a sonoridade diferente. "Quando começamos, tinham pessoas nos shows que realmente não conheciam o Chico", comenta Cupim, indicando um resgate do cantor e compositor, que já não está tão inserido nos contextos musicais da recente geração.

 

Hoje é o dia da graça

Expoentes de uma geração profícua do Nordeste brasileiro, os integrantes da Seu Chico confirmam a boa fase da cena que também conta com o grupo Mombojó, os cantores China e Siba, entre muitos outros exemplares que resgatam a década de 1990, áurea com o movimento Mangue Beat, liderado pelo mítico Chico Science. "Tem muita gente fazendo coisa muito boa. Acho que a criatividade e a verdade do que está sendo feito resulta nesse trabalho de não repetir fórmulas", analisa Bruno Cupim. "Agora volta uma nova cena da forma que já foi. E essa nova turma é muito amiga, muito unida e mais profissional", completa Tibério Azul.

Segundo o vocalista, o formato da Seu Chico não é raro para as bandas de Recife. "Uma banda cooperativa é um pouco característica de lá. É um movimento natural nosso", diz, pontuando que as constantes trocas e discussões facilitam a própria sustentação da cena. "Quando você está na carreira solo, existe um projeto que mais prende do que liberta. Nossa intenção é estar no palco e tocar sem compromisso. Usamos as músicas de Chico como nossa única âncora. Fazemos grandes improvisos no palco", afirma, justificando a grande festa que Juiz de Fora viu pela primeira vez durante o Corredor Cultural de 2012, quando a Praça Antônio Carlos se incendiou com a levada alto astral de uma política "Caçada", já censurada durante a ditadura militar.

Virtuose do piano contemporâneo brasileiro, Vitor Araújo é um dos destaques da banda. Unindo o erudito ao popular, o garoto de 23 anos não se rende aos formalismo do instrumento clássico. Camisa de malha e tênis All Star corroboram a ideia de que a música prescinde de revoluções. Para isso, Araújo também não se furta a atitudes mais radicais, como subir em cima do piano, ato registrado logo na capa de seu álbum de estreia. "Vitor é de um talento absurdo. Ele tem bom gosto e uma sensibilidade incrível. A maturidade artística dele é uma coisa assustadora", comenta o amigo Tibério Azul, responsável pelo convite para integrar a Seu Chico.

Apontado como um dos principais responsáveis pela enxurrada de referências externas à obra de Chico Buarque, como a introdução de trecho de "Comptine d’un autre ete l’apr", da trilha do filme cult "O fabuloso destino de Amélie Poulain", na música "João e Maria", o pianista já tem dois CD’s gravados. "Ele é uma pessoa extremamente musical, rápida e criativa. Um cara muito dedicado que vem quebrando barreiras. Acredito que daqui uns anos ele vai estar entre os tops", elogia Bruno Cupim. "Ele amplia a cena pernambucana de uma forma muito bonita e de muita qualidade. Considero que na Seu Chico somos dois vocalistas, ora eu canto, ora canta o piano dele", derrete-se Azul. "Desse jeito, leve, torna-se fácil fazer música", conclui Cupim. Desse jeito, leve, com açúcar, afeto e descontração, torna-se mais fácil ainda consumir essa música.

 

Seu Chico

 Hoje, às 23h

 Cultural Bar

(Av. Deusdedith Salgado 3955 – Salvaterra)