Laços familiares
A relação dos músicos Paulo e Ricardo Santoro com o Pró-Música é quase familiar. O Duo Santoro, formado pelo gêmeos violoncelistas cariocas, realiza o concerto de abertura do 15º Concurso Nacional de Cordas Paulo Bosísio, promovido pela instituição hoje, às 20h, sendo ainda a atração do mês da série Clássicos Pró-Música. Embora se apresentem pela segunda vez na cidade com esta formação, as participações nos festivais e demais eventos promovidos pelo espaço acontecem desde o início da carreira de 23 anos dos músicos. Integrávamos uma orquestra jovem, a Orquestra de Câmara da Casa do Estudante do Brasil, que era regida pelo maestro Nelson Nilo Hack. Desde então, temos um grande carinho por Juiz de Fora, conta Paulo, lamentando a morte do regente, que ocorreu em abril deste ano. Sempre admiramos a vitalidade do maestro, que passou a vida entre Rio e Minas.
Ricardo já foi um dos vencedores do concurso de cordas, conta o irmão gêmeo, lembrando que outro irmão, Sávio, violista que hoje atua em Pernambuco, também já foi ganhador de uma das edições. Além disso, nosso pai, Sandrino, já integrou bancas do concurso, ressalta Paulo, que fará parte da banca avaliadora deste ano, ao lado do violinista João Daltro de Almeida e do violista Carlos Aleixo.
Este ano, o concurso de cordas destina mais de R$ 18 mil em prêmios às melhores performances em violino, viola, violoncelo e contrabaixo, além do melhor pianista acompanhador. Os candidatos serão submetidos a duas provas, a partir de repertório preestabelecido. As provas públicas do concurso acontecem nos dias 26 e 27 de outubro, a partir das 8h, no Teatro Pró-Música/UFJF.
Para Paulo, não há dúvidas de que novos talentos, que em breve poderão brilhar em palcos do país e do exterior, surgirão no concurso. Apesar de falarmos em uma crise que a cultura esteja vivendo, hoje em dia, mais alunos estão estudando música, se formando em universidades, mais talentos estão nascendo. É cada vez mais difícil entrar em uma orquestra nacional, a concorrência é muito grande, entre os brasileiros e até estrangeiros. Mas os músicos brasileiros sempre se destacam pelo mundo.
Trabalho amadurecido
No programa da noite, estão peças de J. Barrière, L. Boccherini, Francisco Mignone, Ricardo Medeiros, Osvaldo Lacerda, João Guilherme Ripper, H. Villa-Lobos e do juiz-forano E. Villani-Côrtes. Algumas das composições do recital integram o recém-lançado CD Bem brasileiro, o primeiro da formação após tantos anos de carreira.
O CD é o primeiro executado por um duo de violoncelos com repertório exclusivamente clássico lançado no Brasil. Havia essa cobrança já há algum tempo, do público e da nossa própria família. Como somos irmãos, tocamos juntos há tantos anos, acho que havia um certo comodismo em sempre adiar a produção, revela Paulo, que, por outro lado, destaca o amadurecimento do trabalho. Esse tempo permitiu que fizéssemos um trabalho mais elaborado, com resultado muito satisfatório. Após 23 anos juntos, a coisa toda flui melhor, para qualquer grupo de câmara.
As 24 faixas do álbum são dedicadas a compositores brasileiros do século XX e contemporâneos, escritas pelo duo ou especialmente elaboradas para eles. O trabalho conta com direção artística do pai, o contrabaixista Sandrino Santoro, com quem os gêmeos iniciaram seus estudos ainda meninos, e produzido por Sérgio Roberto de Oliveira, indicado ao Grammy Latino em 2011 e 2012. O Duo Santoro é um dos grupos de câmara mais importantes do país na atualidade. Além de ótimos músicos, são ótimas pessoas. Essa parceria tem muito a ver com o meu trabalho, que passa por um momento de muita produção, acrescenta o produtor, que assina uma das composições do álbum.
Oliveira também assina o recém-lançado CD Cartas de amor, uma homenagem a Fernando Pessoa nos 125 anos de seu nascimento, produzido pelo próprio compositor, tendo como intérprete o Gnu, grupo carioca que está completando dez anos de formação e para o qual vem escrevendo e dedicando peças desde 2009. Assim que lançamos o CD, pensamos em ir a Minas, mas ainda não temos nada acertado, conta.
O Duo Santoro é o único duo de violoncelos em atividade permanente no Brasil. Uma das maneiras de explicar a raridade da formação, segundo Paulo, é lembrar que há pouco no repertório clássico tradicional escrito para duos do instrumento. Grandes compositores, como Bach e Beethoven, não escreveram para essa formação. Há peças nos períodos clássico e do romantismo, mas existe um hiato muito grande até chegarmos às composições modernas e contemporâneas. Essa escassez dificulta a manutenção desses duos, que se unem para apresentações esporádicas, normalmente.
A dificuldade abriu aos músicos outros caminhos, que além de se dedicarem a transcrever composições e compor arranjos específicos para a formação, contam com a colaboração de muitos compositores. Nos dá muito prazer encomendar novas peças ou aceitar as que querem nos dedicar. A maioria desses compositores nunca havia escrito para um duo de violoncelos e nos pede para que façamos as adaptações e sugestões que quisermos. Com isso, acabamos sendo também autores, o que é duplamente positivo, pois aumenta o nosso repertório e lança ainda novos compositores da formação no mercado, explica.
Tendo como principal linha a divulgação da música brasileira, o Duo Santoro inclui em seus recitais um leque eclético de estilos, que extrapolam o repertório erudito. O público da música clássica também sabe apreciar o popular, quando tem arranjos benfeitos, quando surpreende, diz. O duo já tocou ao lado de grandes nomes da MPB, como Maria Bethânia e Gilberto Gil, além de participações em discos de Guilherme Arantes, Simone, Almir Sater e Roberto Carlos, entre outros. Nos palcos teatrais, já dividiu a cena com atores como Carlos Vereza e Nathalia Timberg.
DUO SANTORO
Hoje, às 20h
Teatro
Pró-Música
(Av. Rio Branco 2.329)









