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O círculo íntimo da arte


Por LEONARDO TOLEDO

25/10/2011 às 08h00

Entre bromélias, rosas e arbustos de lavanda, o artista plástico Eduardo Borges cultiva seus caminhos interiores e sua linguagem visual. O jardim, que ocupa vários patamares de sua casa, no Bairro Aeroporto, constitui um espaço de introspecção, além de uma espécie de laboratório afetivo em que o artista recolhe espécimes para ilustrações científicas. O ponto de interseção entre esse cultivo íntimo e a plena liberdade criativa dá origem às criações que compõem as duas novas exposições do artista. A partir da próxima terça, dia 8, o trabalho de Borges poderá ser visto na coletiva "Múltiplos olhares", no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM), que traça um panorama da produção contemporânea em Juiz de Fora. Ainda em novembro, Borges abre a individual "Espaço edênico", na Hiato – Ambiente de Arte.

Esse mergulho em universo extremamente pessoal respalda a postura do artista em relação à produção contemporânea. Borges propõe a genuinidade de uma relação cultivada no quintal de casa como contraposição a um mercado de arte extremamente midiático, pautado por eventos e pela repercussão de nomes polêmicos na mídia. Nesse sentido, o artista aposta em uma produção que se mantém distanciada das tendências mercadológicas. "Nós, artistas do interior, somos a grande resistência da arte", opina.

O processo criativo de Eduardo Borges começa no cultivo dos espécimes e prossegue no ateliê, instalado próximo aos canteiros. Nesse espaço, conjugam-se outras influências do círculo íntimo do artista, incluindo livros, fotografias nas paredes e a seleção musical, que embala o trabalho durante manhãs e tardes. Surgem, assim, imagens que mesclam diferentes sugestões sem induzir o espectador a uma leitura obrigatória.

"Há múltiplas maneiras de se criar uma narrativa", esclarece Eduardo Borges diante do painel de grandes proporções (2m x 2m), em óleo sobre tela, criado para a mostra no CCBM. No quadro, animais, plantas e dorsos nus convivem em uma profusão de alusões que, segundo ele, não chegam a se fechar em citações diretas. "Vou de Chacrinha a Stravinsky. Meu trabalho é verborrágico, porque tenho interesse por tudo", diz.

O painel, ainda sem título, é uma das obras de Borges que integrarão a sala "Éden", da mostra "Múltiplos olhares", no CCBM. "Não é um Jardim do Éden com sentido religioso. A ideia se relaciona à natureza, aos elementos da flora, propriamente", explica. O espaço também contará com três colagens, uma mini-instalação e três objetos, apelidados de "Pans", em referência ao sátiro da mitologia grega. A partir de capas de livros antigas, o artista agrega outros elementos, incluindo os chifres que remetem ao personagem mitológico.

A literatura, aliás, sempre exerceu um papel provocador no trabalho de Eduardo Borges. Esse universo começou a ter especial influência depois da participação no projeto "O livro do artista", em Ouro Preto. A intenção era traduzir visualmente o texto de escritores de grande apelo imagético, que, muitas vezes, não eram totalmente esgotados no ato da leitura. Em uma imersão de 18 dias, o artista mergulhou no universo de autores como a portuguesa Maria Gabriela Llansol, que estabeleceria um diálogo perene com Borges desse momento em diante.

Eduardo Borges completa sua tríade de exposições com a mostra individual "Espaço edênico", que será aberta na Hiato – Ambiente de Arte. Serão apresentadas nove obras, que misturam diferentes processos criativos a ilustrações científicas, uma de suas especialidades. Aprimorada em mais de uma década de estudos – incluindo aulas no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro -, essa vertente passou a integrar a linguagem criativa do artista. "Nesse período, parei tudo e comecei a me organizar para ver de onde eu iria tirar meus códigos", conta.

Nos nove trabalhos que apresenta em "Espaço edênico", Borges parte de aquarelas que reproduzem espécimes vegetais com extremas precisão, em controle absoluto da técnica. Em seguida, seguem-se intervenções livres que modificam a configuração inicial das pinturas. "Praticamente fecho os olhos e vou criando. Assim, vou tentando conciliar o controle absoluto da técnica com o improviso."

Encerrada na última semana, na Aliança Francesa, a mostra "Jardim edênico" inaugurou a "tríade" de Borges. Segundo o artista, as colagens apresentadas nessa exposição privilegiaram um lado mais confessional de sua arte. "O espaço pedia isso", comenta. O ambiente da exibição também propiciou referências às paisagens francesas, a começar pelos turísticos jardins de Versailles, Tuileries e Luxemburgo. "Tinha meu jardim, mas também procurei o dos outros", comenta.