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Dois atores e uma ideia na cabeça


Por BRUNO CALIXTO

25/08/2011 às 07h00

Um cara de boa aparência e péssimas intenções. É assim que Eriberto Leão define o bandido boa-pinta Mineiro, um dos protagonistas de Assalto ao Banco Central, em cartaz nos cinemas da cidade, e bem diferente de seu mocinho Pedro de Insensato coração. O filme vem agradando a crítica não só pela caracterização quase que fiel dos personagens, mas pela dobradinha ficção-realidade.

É precursor de um paradigma para o cinema brasileiro. Um gênero novo, ainda não realizado em nosso modo de filmar, definiu Eriberto Leão, em entrevista à Tribuna sobre o filme Assalto ao Banco Central. Quem concorda é o juiz-forano Creo Kellab, que integra o elenco da produção na pele do traficante Saulo.

Se o momento é otimista para a sétima arte nacional, Eriberto, que partiu de São José dos Campos (SP), e Creo, juiz-forano que cresceu no Bairro Santa Cecília, são testemunhas desse processo no Rio, onde buscam seu lugar ao sol. Muito diferente dos atores, os personagens querem a redenção social. A partir do momento em que a cultura da impunidade alicerça a corrupção, com certeza, faz-se necessário que a gente fale sobre isso através da arte, que tem seu poder revolucionário, de alguma forma, mesmo sendo entretenimento, opina Eriberto Leão, ressaltando o feito de outros cineastas. Somos assaltados diariamente, Glauber Rocha já falava sobre isso. Hoje, dá para dizer de outra forma mais simples, é tudo mais acessível, menos hermético, o que aliena, conclui.

Creo Kellab se baseia em Assalto ao Banco Central para equacionar o quanto uma obra, genuinamente, artística, precisa de outros elementos para chamar a atenção do grande público. O filme contou com um dos melhores preparadores de elenco (Fátima Toledo). Houve um trabalho psicológico com o ator, que, por meio de simulação, passou a se reconhecer mais, diz Creo.

Tribuna – Como se transformou em ator?

Eriberto – Quando descobri The Doors, me apaixonei pelo Jim Morrison, que era ator também. Passei a estudar música e fazer teatro com 18 anos.

– Creo, como você avalia as oportunidades para negros nas artes cênicas?

Creo – Sou de uma safra que chegou ao Rio no início dos anos 90, num momento em que nomes como Fernando Almeida, Norton Nascimento, Isabel Filardes e Thaís Araújo também davam os primeiros passos no ramo. Mas 80% dos papéis ainda são de pessoas claras. Ainda estamos longe de chegar a um equilíbrio.

– Ainda sofre preconceito?

Creo – O preconceito maior era com relação ao sotaque mineiro, que atrapalhava. Hoje, esse é mais bem recebido que no final dos anos 80. Com pesquisa e fonoaudiologia, consegui perder, o problema é fazer papel de mineiro agora (risos).

– Eriberto, você já disse em entrevistas que ficar nu não é o problema. Existe algum tabu em sua carreira?

Eriberto – Não faria nada que não fosse coerente com a obra na qual estivesse inserido.

– O que é mais difícil em ser famoso?

Eriberto – O mais difícil é estar sempre exposto, tanto para o bem quanto para o mal. Zero de privacidade.

Creo – Pode trazer muito desconforto não poder fazer certas coisas. Por outro lado, no Complexo do Alemão em julho (durante exibição de Assalto ao Banco Central), a receptividade foi ótima, entramos e tomamos café na casa das pessoas.

– Em que valores você pauta seu trabalho? Qual o mais marcante?

Creo – Perseverança e respeito. É preciso acreditar. Este foi meu quarto filme, o terceiro só esse ano. Na carreira, destaco minha interpretação (mordomo) na Gaiola das loucas ao lado de Jorge Dória, com direção de Jorge Fernando.

– Para você, Eriberto, que perdeu seu pai recentemente, como será continuar? Qual será a próxima atuação?

Eriberto – Meu próprio pai é minha força. Ensinamentos que coloco em prática com fé no meu filho João (de 6 meses) e na minha esposa Andreia. Tem um longa do diretor Caio Sóh, chamado Por trás do céu, previsto para ser rodado no sertão de Pernambuco. Uma estética que me atrai muito.