Entrevista com Felipe Moratori, ator, dramaturgo e diretor

Felipe Moratori lança “Duas peças”pela Giostri (Olavo Prazeres)
Os escritos do ator, diretor e dramaturgo Felipe Moratori ganharam as páginas de um livro no início de 2015. “Cordas cor de ais”, publicação escrita em forma de conto, caiu nas mãos do leitor com o apoio da Lei Murilo Mendes. Poucos meses depois de sua estreia editorial, o jovem juiz-forano agora vê sua obra teatral deixar as fronteiras da cidade em que ela nasceu. Dia 20 de agosto, na Leitura, Felipe autografa “Duas peças” (100 páginas), com selo da paulista Giostri. “Foi tudo muito rápido, o Alex Giostri recebeu muito bem o meu trabalho”, conta o dramaturgo, que apresentou seu texto à editora por sugestão da também escritora juiz-forana Juliana James.
As duas peças às quais o título do livro se refere são “Estranho farol dos cacos” e “Não vão além: Como enraizar o amor”. “Elas têm uma natureza diferente, mas compõem uma identidade minha que se constrói na cidade”, afirma o autor. Na primeira, Felipe traz o suicídio de Cecília, filha do faroleiro. A personagem deixa Santiago, um menino cego, sozinho, em uma ilha, e a trama toda se desenrola com ele e com uma personagem que foi construída pelos dois na areia. Já “Não vão além” apresenta um casal de jovens artistas que se separam. Os dois criam um espaço imaginário para pensar esse amor que acaba, iniciando uma jornada de reflexão sobre o amor e a vida.
Felipe sabe que, a partir de agora, suas criações deixam o restrito público juiz-forano para alcançar outras plateias. Ele ainda não consegue mensurar qual é a dimensão dessa nova possibilidade que surge, mas tem a certeza de que quer “ir além”. “Dá muita vontade de ver a coisa acontecendo. Ao mesmo tempo, agora, não tem mais controle, o retorno vai acontecendo à medida que as portas forem se abrindo.” Nossa conversa vai ao ar no “Sala de leitura” deste sábado, às 10h30, na rádio CBN Juiz de Fora (AM, frequência 1010), com reprise na segunda, às 14h30.
Tribuna – O que seus textos dizem sobre você?
Felipe Moratori – Os textos têm muito da gente, têm muito do nosso discurso. Eu me encanto muito por esse espaço do imaginário, que está contido nos dois trabalhos. E dentro desse imaginário disfarço questões que são muito densas, muito profundas, em relação à própria vida. As inquietações, os desejos. Está tudo um pouco misturado dentro desse universo teatralizado.
– Você tem um trabalho muito forte com o teatro contemporâneo. De que forma esse trabalho com o corpo é refletido na sua escrita?
– Sou muito agradecido a Renata Rodrigues, que foi minha diretora no “Estranho farol dos cacos”, porque ela me trouxe essa perspectiva da escrita em processo a partir da dramaturgia do corpo. Hoje em dia, eu não dissocio a palavra que escrevo do corpo. E tem muito a ver também com uma imersão minha dentro de um trabalho de psicanálise e terapia. Também me aproximo da Janine Huguenin, minha psicóloga, que traz a análise bioenergética. Era o meu discurso associado ao que o meu corpo dizia: as minhas questões sendo desdobradas num processo terapêutico, separado, pois cada um tem o seu lugar, e como eu trazia essas questões que vinham à tona para o teatro, para o texto. Minha escrita vai para a via do sensorial, o que a Renata soube explorar muito bem quando me conduziu como ator e quando propôs, no terceiro ano no curso do CCBM, um trabalho de escrita em processo que resultou no “Os aplanadores do assoalho”.
– Seus personagens nascem primeiro em cena ou no texto?
– Costumam nascer em cena, brinco que é fazer fazendo. Primeiro descubro nos atores as relações. Essas relações vão por impulso do próprio corpo mesmo. Eu os coloco no trabalho, em jogo, e esse jogo vai criando uma trama. Depois eu só dou nome a essa trama. Aí os meninos passam a trabalhar com isso. “Ah tá, então aqui a gente é isso.” “Aqui a gente é aquilo.” Mas esse isso e aquilo cerebrais vêm depois dessa relação que é construída entre eles. Então os personagens, de alguma forma, vêm antes do texto.
– Sua primeira experiência dramatúrgica foi com “Os aplanadores de assoalho”, depois vem “Estranho farol dos cacos” e “Não vão além: como enraizar o amor.” Você percebe uma mudança na sua escrita?
– Sim. Especialmente porque o retorno que tive do “Farol dos cacos” moldou muito o meu pensar a escrita. As críticas sempre vieram no sentido de “ah essa palavra é muito poética para o teatro, falta uma ação dramática no seu texto”. São críticas muito construtivas. Em “Não vão além”, inclusive, como eu estava num processo pedagógico, e os meninos precisavam entender claramente o que estavam fazendo, o texto ficou mais “degustável”. O público recebe muito melhor esse texto montado do que o “Farol”, que é um pouco mais denso, havia um distanciamento maior. Nesse sentido foi uma busca minha por essa clareza, sem perder algo que surgiu do estilo, que era uma poesia, uma palavra trabalhada.
– Ao mesmo tempo em que a dimensão da sua obra se amplia ao ser publicada pela Giostri, você escreve teatro, que não conta com tantos leitores como o romance, por exemplo. Como é escrever teatro hoje sabendo disso?
– Vem muito da conexão com meu próprio desejo. Sou licenciado em Letras, e meu desejo foi acabar me afastando um pouco desse território da literatura, no seu lugar mais clássico, e caminhar para o teatro. Foi uma escolha de vida. Depois dela, as coisas começaram a acontecer e agora estão ressoando. O teatro sempre me deu força. Escrever teatro, para mim, é mais forte do que tentar outro tipo de escrita, embora “Cordas cor de ais” seja um conto. Acaba sendo um flerte, uma gratidão a Letras publicar o “Cordas” em conto. Mas eu sou do teatro.
– Você se formou ator no curso do CCBM, fez alguns cursos pela Funalfa e depois fez dois cursos livres no Lume Teatro, de Campinas. Acha que Juiz de Fora sabe formar atores?
– Acredito que a gente tem muitos caminhos e vontades, muitos centros que fazem essa vontade convergir. A gente precisa pensar numa política pública, uma política para a cultura que legitime esses espaços que estão querendo ganhar forma. O curso do CCBM, por exemplo, existiu por seis anos consecutivos, com iniciativa e pessoas muito interessantes conduzindo-o durante todo esse tempo. Mas esse ano, por conta da crise que nos assombra, não aconteceu. Se fosse instituído um trabalho com mais continuidade, se esse curso pudesse virar um curso técnico, por exemplo, talvez essa crise não o faria ser tão efêmero assim. Nessa circunstância, existe, em outra, pode não existir. Acho que a gente precisa consolidar essas iniciativas, e falta a gente brigar, por exemplo, pela abertura de uma graduação na UFJF. Tanto foi falado sobre isso, a dança começou a engatinhar alguns passos. A gente tem que entrar nessa briga. Força a gente tem; pessoas na cena para fazer, também; demanda de alunos, tem muita. Agora falta isso tudo estar organizado e sustentado por uma força do estado.
DUAS PEÇAS
20 de agosto, às 18h
Livraria Leitura
(Av. Rio Branco 2.161 Centro)








