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Velho conhecido


Por RENATA DELAGE

25/07/2013 às 07h00

O violão está indissociavelmente ligado às raízes populares, e nossa identidade musical é impensável sem a sua presença. "Isso é uma baita ponte para levar ao público nosso repertório, nem sempre ligado às composições populares", diz Fabio Ramazzina. O violonista compõe, ao lado de Chrystian Dozza, Thiago Abdalla e Sidney Molina, o Quaternaglia Guitar Quartet, atração desta noite do 24º Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga, promovido pelo Pró-Música/UFJF.

O quarteto de violões de São Paulo, pela segunda vez no festival, tem sido aclamado como um dos mais importantes da atualidade, tanto pelo alto nível de seu trabalho camerístico quanto por sua importante contribuição para a ampliação do repertório da formação. Sua atuação começou a despertar o interesse da crítica internacional após a obtenção do Ensemble Prize, no Concurso Internacional de Violão de Havana, em Cuba, e da participação em importantes séries de violão e música de câmara dos Estados Unidos. Segundo o jornal "Los Angeles Times", "uma aura de pureza penetrou o concerto do quarteto de violões Quaternaglia, que preencheu todos os requisitos com serenidade e inteligência em sua estreia na Califórnia".

"Esse violão clássico ou erudito tem grande tradição em vários países, com motivações diferentes. Na Espanha, por exemplo, o violão está fortemente ligado a uma vertente de música popular, o flamenco", explica Ramazzina, lembrando que, contudo, o violão com formato conhecido nos dias de hoje é relativamente novo, não passando de 150 anos. Um jovem instrumento, se comparado aos que vemos – e ouvimos – passar pelos palcos e igrejas durante o festival, como flautas e violinos.

"Na medida em que vai havendo uma formação musical completa, passamos a ver o instrumento com outros olhos, não só como coadjuvante. O violão pode, sozinho, compor melodias, solos, acompanhar a si mesmo, fazer todas as funções musicais." Os músicos do Quaternaglia utilizam três violões de seis cordas e um de sete cordas – que confere ao conjunto notas mais graves -, especialmente construídos pelo luthier carioca Sérgio Abreu.

Em seus 20 anos de atuação, o grupo vem estabelecendo um cânone de obras originais e arranjos audaciosos, o que inclui a colaboração com compositores brasileiros de diversas gerações, tais como Egberto Gismonti, Almeida Prado, Paulo Bellinati, Sérgio Molina e Marco Pereira. Em 2012, como parte das celebrações de seu 20º aniversário, o quarteto lançou o CD "Jequibau", com música de compositores brasileiros dedicada ao grupo. "Jequibau é um ritmo, uma bossa nova paulistana, ligado a um dos compositores que tem nos acompanhado desde o início, Paulo Bellinati."

O histórico musical do quarteto, segundo Ramazzina, tem se apoiado em três pilares – tocar peças de repertórios já escritos, elaborar arranjos e versões para tais peças e, por fim, encomendar obras exclusivas a compositores. "Esta é a vertente que mais tem crescido em nosso trabalho. No primeiro CD, tocamos apenas uma peça escrita para nós, enquanto, no último, quase todas estão nesse formato", constata. Com repertório fortemente brasileiro, o grupo vem aumentando seu repertório e seu legado para o mundo. "Temos sorte de contar com belas obras de excelentes compositores amigos. Quais dessas composições se tornarão clássicos, só o tempo dirá."

No programa do concerto, está um apanhado de interpretações de várias épocas do Quaternaglia. Integram o repertório peças de Egberto Gismonti, (em versão de Leo Brouwer – cubano que é uma das grandes referências do trabalho do quarteto e de tantos outros violonistas), Heitor Villa-Lobos (com a sempre reproduzida "A lenda do caboclo" e versão inédita de "Bachianas brasileiras n.9"), João Luiz (ex-integrante do quarteto, radicado em Nova York), Marco Pereira, Paulo Bellinati, além da homenagem ao também antigo conhecido do grupo, Almeida Prado, falecido em 2010.

 

QUATERNAGLIA