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Escrita insone


Por MAURO MORAIS

25/07/2013 às 07h00

Não há grandes pretensões no que Otávio Campos escreveu e decidiu reunir em Distância (Aquela Editora, 48 páginas). Prova disso é um dos poemas da segunda seção, intitulada Cocteil Molotov: a verdade / só serve para estragar / uma boa história. A modéstia da escrita do jovem de 21 anos, nascido em Leopoldina e graduando em Letras pela UFJF, é o truque do livro de estreia. Dividida em três partes diferentes, a obra trabalha no conceito sugerido pelo título observando três vieses: o sofrimento de adolescer e se estreitar com o mundo; a ironia do dia a dia feita numa reunião de vozes; e a singularidade da noite. Convidado para se apresentar no prestigiado CEP 20.000, criado pelo poeta performático Chacal, Campos lança seu livro hoje, no Teatro Sérgio Porto, no Rio de Janeiro, ao lado de nomes como Marcelo Yuka, Tavinho Paes, Alice Sant’Anna, Domingos Guimaraens e Tereza Seiblitz.

É um livro de oficina, bem fragmentado, com três jeitos distintos de escrever, comenta o poeta, que diz ter percebido uma maturidade maior na seleção dos textos e na tentativa de estabelecer um fio condutor para a obra. Hoje em dia trabalho mais, lapido mais cada texto, diz ele, que já tem um novo livro escrito. A pouca idade, no caso, é apenas sinônimo do fôlego, que não se pretende restrito às gavetas. Ter alguma coisa publicada, registrada, com um alcance mais amplo, gera um certo peso. O poema ganha mais seriedade nas páginas de um livro, analisa.

Tão longe e tão perto

Peso, sintetiza a primeira seção, Bella, altamente intimista: não me compare / a seus cacos / no espelho // nem me tente / fazer maior // porque dor / não se pesa. É uma persona que está sofrendo muito, falando sobre o contato com o mundo. São pessoas bem adolescentes, aponta. Esses poemas falam muito do eu, mas é a parte que tem menos de mim, completa. Já a segunda parte, Cocteil Molotov, reúne poemas diminutos, como curtas falas, de acordo com o autor, ouvidas em seu cotidiano. O trecho final de Peso se transforma em poema inteiro: dor / não / se pesa. Em Quando a cidade dorme, terceira porção do livro, apresenta uma voz mais madura, com resultados mais densos. O mote é a noite, como se ela fosse um mundo próprio, responsável por iluminar a cidade, explica.

Nada óbvia, mas estritamente sensível, a linha contínua que perpassa o conjunto de poemas além de já provar o refinamento de Otávio Campos, indica seu estreito diálogo com a nova geração da poesia brasileira. Francisco Alvim é epígrafe e dedicatória. Ana Martins Marques e Alice Sant’Anna, apesar de não identificáveis na totalidade do livro, aparecem no fim da obra. Atualmente, as duas são as preferidas do poeta. Dialogo com essa geração porque estou produzindo agora e publicando agora. Vejo esses poemas contemporâneos com o estilo ‘modo de usar’, comenta, referindo-se à revista Modo de usar & co, que funciona tanto no impresso quanto no digital e é editada pelos poetas Angélica Freitas, Fabiano Calixto, Marília Garcia e Ricardo Domeneck.

Segundo Otávio Campos, a produção atual já apresenta características bem definidas. É poesia do cotidiano. Hoje em dia, os versos falam da casa, das paredes, das camas, brinca, pontuando que há, apenas, uma sutileza e altas doses de abstração no tratamento desse dia a dia. O verso livre não é nada livre. Ele começou sendo o abandono da forma, mas, hoje, ele tem uma forma bem definida, aponta, para logo concluir: E isso caracteriza a identidade de cada poeta. De acordo com Campos, o fenômeno Leminski é apenas um reflexo do crescente interesse pelos versos. A poesia está voltando, saindo da academia e retomando seu lugar de origem, aponta, certo de que mesmo os saraus já têm seus dias contados, haja vista a ampliação de publicações que não se permitem faladas, mas apenas lidas em silêncio.

Um dos editores da revista Um conto, surgida nas esquinas da Faculdade de Letras da UFJF, o poeta é um dos expoentes da jovem cena literária da cidade, que em muito se assemelha à geração de 1970, com suas revistas D’Lira e Abre alas e seus varais de poesia na pracinha do Bairro São Mateus. A gente não pensa muito no futuro, deixa acontecer, sorri Campos, que, no próximo dia 10, lança o livro na Quarup – Livraria Antiquária (Rua Padre Café 484 – São Mateus) e, no dia 16, no Onze Bar (Rua Pedro Botti 11 – Alto dos Passos), além de integrar, ainda no segundo semestre desse ano, o projeto Leituras internacionais, na Casa da América Latina, em Lisboa, Portugal.