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A arte pulsa


Por MAURO MORAIS

25/06/2013 às 07h00

Aproximadamente R$ 4,4 milhões é o valor mais alto pago por uma obra de arte brasileira. Em novembro de 2012, a carioca Beatriz Milhazes se tornou a artista mais cara do país com a pintura intitulada "Meu limão", arrematada por US$ 2,1 mi em leilão da tradicional casa Sotheby’s, de Nova York. Anteriormente, o título pertencia à também carioca Adriana Varejão e sua "Parede com incisões à La Fontana II", arrematada por R$ 2,72 milhões (US$ 1,7 mi) em leilão da Christie’s de Londres, em 2011. Os valores astronômicos são a ponta de um mercado, mas revelam o vigor dos artistas brasileiros no cenário internacional e a consolidação da paisagem nacional. Em "Sociologia das artes visuais no Brasil", que ganha lançamento na cidade hoje, às 18h, no Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm), 15 ensaios contribuem para a compreensão do complexo sistema da arte brasileira. Sob o tema "Mercado e coleções de artes visuais no Brasil", uma mesa-redonda, simultânea ao lançamento, reúne as pesquisadoras Ana Letícia Fialho, Maria Izabel Branco Ribeiro e Tarcila Formiga, todas participantes do livro, e a socióloga Daniela Stocco.

Organizadora da obra, constituída por pesquisas oriundas de vários cantos do país, a professora do Instituto de Artes e Design da UFJF Maria Lucia Bueno destaca o dinamismo do cenário artístico nacional, que, visto sob a ótica do social, ganha contornos compreensíveis. "O mercado de arte no Brasil apareceu nos anos 1950, quando já havia crítica de arte nos jornais e museus", explica, apontando que, três décadas depois, o panorama começou a mudar: "A partir dos anos 1980, os artistas não estavam mais preocupados em estabelecer rupturas. Todas já haviam sido feitas. Já tínhamos um campo consolidado".

Segundo Maria Lucia, o mercado de artes não funciona como um outro qualquer e apresenta mecanismos singulares. "Ele nasce num ambiente cultural, quando já existe a crítica, os colecionadores e outros sujeitos. Antes do valor econômico, há um valor simbólico, um valor cultural", afirma, destacando que, para tal surgimento, é necessário que algumas questões sociais sejam superadas e exista um capital excedente. Por isso, a economia de um país cria impacto em suas expressões e na forma como são fruídas. Apesar de formado no campo das artes, entre pares, esse mercado não serve como indicador qualitativo.

Do cenário globalizado, com conteúdos circulando por todos os cantos e de muitas formas, ampliam-se as referências. E o que antes era reconhecível dentro de parâmetros torna-se múltiplo. "Nós não temos mais uma unidade. Cada um tem uma referência, e a própria forma como cada um trabalha também é bem diversa", aponta a pesquisadora. Sendo assim, é compreensível a abstração de Adriana Varejão "disputar" o topo da milionária lista dos mais caros artistas brasileiros com a figurativa Beatriz Milhazes, artista facilmente identificada por suas formas e cores constantes desde o início da década de 1990.

 

Olhos de fora

Inaugurado no último dia 13, o misto de galeria e ateliê Estemp (neologismo que faz referência à extemporary, improvisado, em inglês) confirma os bons olhos com os quais a arte internacional percebe o mercado brasileiro. Idealizado pela artista alemã Ellen Slegers e localizado em Pinheiros, bairro nobre de São Paulo, o espaço pretende divulgar nomes que ainda não foram "adotados" pelos grandes marchands do mundo. À espreita, mas ainda em estágio de negociações, as gigantes nova-iorquinas do mercado mundial de arte, Gagosian, com 11 filiais espalhadas pelo globo, e Pace, com sete, já mostraram interesse em se instalar no país.

Em ensaio intitulado "O Brasil está no mapa?", a pesquisadora Ana Letícia Fialho lança mão de tabelas para confirmar a boa fase que a arte brasileira vem desfrutando aos olhos do mundo. Tanto a participação do país em feiras importantes mundialmente quanto a valorização das obras nacionais e a adesão de instituições estrangeiras em nosso cenário são confirmadas pelo texto otimista da estudiosa. "O fortalecimento do mercado brasileiro e de seus agentes num contexto de crise internacional pode representar uma boa oportunidade para o sistema das artes brasileiras se reposicionar no cenário internacional como um ‘player’ importante, e não mais como um simples reservatório de mercadorias artísticas de qualidade e preços baixos", analisa Ana Letícia no livro.

Além de maior visibilidade, segundo a pesquisadora, o país também desfruta de potencial de compra, tendo em vista a crise que se estendeu pela Europa. As coleções nacionais, particulares ou não, integram o sistema e também confirmam a solidez das artes visuais brasileiras. "Compradores, incentivadores ou empregadores agem baseados em critérios que vão além do gosto e são o espelho de sua época: apostam em nomes que podem se tornar as joias da coroa ou se perder nas sombras do esquecimento", constata a diretora do Museu de Arte Brasileira da Faap, em São Paulo, Maria Izabel Branco Ribeiro, que em seu texto dedicou-se aos estudos das coleções de dona Olívia Guedes Penteado e de Theon Spanudis.

Espalhadas pelo país, em grandes e pequenos centros, em espaços fechados ou abertos, como o gigantesco Inhotim, em Brumadinho, as coleções por si só desenham um novo percurso da arte brasileira. As obras de Bernardo Paz, instaladas num ambiente cercado por árvores, apontam para um outro formato de colecionismo. Segundo Maria Lucia Bueno, o sistema de nossa arte nacional amadureceu. "O mundo da arte brasileira está consolidado, com precariedades, mas está", analisa, visualizando um futuro otimista.