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‘Atores de verdade não se preocupam com a fama’


Por RENATA DELAGE

25/04/2012 às 06h00

A busca sem precedentes pelo ingresso no cobiçado mundo das celebridades é uma visão distorcida e sem valor da arte, na opinião de Tônio Carvalho. Há mais de 20 anos à frente da Oficina de Atores da TV Globo – principal porta de entrada de jovens atores na teledramaturgia brasileira -, Tônio lapidou nomes de sucesso como Rodrigo Santoro, Eduardo Moscovis, Carolina Dieckmann, Camila Pintanga e Deborah Secco. Ser artista é uma necessidade vital que você tem de dizer alguma coisa, a que veio ao mundo. É sua forma de ver as relações humanas, diz. Se quer ser ator, estude.

Diretor, roteirista, dramaturgo, cenógrafo, escritor. Além de dirigir a oficina, Tônio se dedica a diversas vertentes da arte. No teatro, ele assina o drama Norma , ao lado de Dora Castellar, além de Levada à cena, com os atores Ana Lúcia Torre e Eduardo Moscovis. Com o correr do tempo, a pessoa pode ir se identificando mais com uma determinada coisa e ’emburacar’ naquele caminho. Mas ‘se identifica mais’ depois de experimentar muitas coisas e não fechar as portas do seu coração e da sua mente para outras possibilidades.

Outra possibilidade que encantou o diretor é a literatura infantojuvenil. Tônio é autor de publicações como Esta é a história de uma janela, Carmelita, a tartaruga e, a mais recente, Coleção do avesso, de 2009. Existe muita gente fazendo coisas novas e criativas no campo da literatura, e que, muitas vezes, não têm a divulgação que precisariam – e deveriam – ter. Elas são sufocadas por aqueles que têm acesso à mídia. O posicionamento crítico do dramaturgo não se resume ao mercado editorial brasileiro, mas se estende ainda à programação veiculada na TV e à falta de incentivo à leitura. A grande massa não lê. Para corrigir isso, precisamos de um programa muito sério por parte do Governo federal e dos estaduais e municipais, defende o autor, em entrevista cedida à Tribuna.

Na última semana, Tônio esteve na cidade e participou no projeto Leituras temáticas, no Museu de Arte Murilo Mendes, em parceria com o Programa Tim ArtEducAção. Tônio falou a artistas, professores e arte-educadores de Juiz de Fora sobre suas experiências em teatro, TV, educação e em outros tantos campos da cultura.

Tribuna – Nos 20 anos à frente da concorrida Oficina de Atores da TV Globo, você lapidou a interpretação de muitos atores de sucesso hoje. É possível aprender a interpretar ou apenas a aprimorar a técnica?

Tônio Carvalho – O trabalho do ator é um trabalho como outra profissão qualquer: demanda estudo. É importante fazer um curso de formação de atores, se qualificar para desenvolver o trabalho. O médico precisa de anos de formação, assim como o engenheiro, o advogado. O ator também. Não se lapida ninguém de uma hora para outra. Para ser ator e atriz – não para ser celebridade – o buraco é mais embaixo.

– O grande objetivo de muitos atores é estar na Globo. Você avalia que existe uma visão distorcida, uma ilusão em relação à fama? Como lidar com isso e trabalhar essa ideia com os participantes da oficina?

– As pessoas não têm que objetivar a fama, e sim o seu trabalho. Devem valorizar o fato de estar usando uma determinada expressão, no caso, a interpretação, para falar da sua visão de mundo, dos seus sentimentos, das suas emoções. A fama e a ideia de celebridade vêm de uma visão distorcida de pessoas que simplesmente acham que aparecer em um programa de televisão, ou ter a carinha em alguma revista, significa algo. Mas isso é muito transitório, não tem valor em termos de evolução humana.

– Que dica básica daria aos que estão dando os primeiros passos na vida artística?

– Estude. Estude muito, e até o final da vida. A gente precisa corrigir essa distorção de que as pessoas se formam e estão formadas para todo o sempre. Claro que a formação lhe dará uma base sólida. Mas se você não continua se preparando, vai ficando para trás.

– No que se diferencia a forma de fazer artístico do teatro e da TV na atualidade, se comparada à de quando assumiu a oficina?

– A questão básica é a educação formal. Há 25, 30 anos, a preocupação com a educação era outra. Ela foi deixando de ter um significado tão importante e outras coisas foram tomando o lugar da educação, da cultura e da arte. Se as pessoas tiveram uma boa formação básica, se aprenderam a ler bem, a escrever bem, se são pessoas que estão sintonizadas com o mundo, elas vão conduzindo bem a sua vida artística. Mas parece que a educação brasileira mergulhou num poço sem fundo. Existe um porão no fundo desse poço de onde é muito difícil a gente sair.

– A literatura também tem papel importante em sua carreira, tendo publicado obras para crianças e jovens. Quais são as demandas atuais desse público?

– É uma demanda que poderia ser muito maior – e melhor – se houvesse mais preocupação dos órgãos públicos e de cultura no sentido de divulgarem e se preocuparem em fornecer às escolas livros para que as crianças se afastassem um pouco da atitude passiva de ficar na frente da televisão. Os professores não estão preparados para dar aulas. Como é que você não sendo leitor vai falar com alguém que é preciso ler? Existe um boom na edição de livros. As livrarias no Rio estão cheias de gente, livros, novidades, mas parece que é um percentual muito pequeno que desfruta disso.

– O que acha da programação veiculada na TV aberta brasileira?

– Eu acho que a TV é um veículo de massa importante e que talvez pudesse ser melhor trabalhado. Não falo que a televisão seja a única responsável pela transformação do pensamento e do comportamento do brasileiro, mas também a família, a escola. É um conjunto de setores que deveria estar muito preocupados com o que a gente quer desse país e das futuras gerações. Se queremos pessoas completamente idiotizadas e massificadas, ou criativas, inventivas, que venham a fazer alguma coisa importante pela sociedade, pelo Brasil, pelo planeta. E a televisão poderia ter uma responsabilidade maior de levar a refletir. Pensar é um grande barato.

– Lidar com cultura hoje é ter a capacidade de ser um multiprofissional?

– Se você se forma como artista, pode ser ator em determinado momento, cenógrafo em outro, escritor, iluminador. Você não precisa restringir sua capacidade criadora e inventiva a um determinado seguimento de tudo que pode fazer.

– Atores amadores e profissionais dividem a cena nos palcos de Juiz de Fora, mas o teatro da cidade tem uma identidade, sobretudo, amadora. O que sugere para o crescimento do teatro que se afirma como amador?

– Fazer teatro não é uma meta pré-estabelecida, de que você vai se tornar, necessariamente, um artista do palco. O teatro é um forma de expressão bastante necessária até um determinado momento da vida, como desenhar, escrever, gostar de música, balé. Quando as crianças brincam de casinha, estão fazendo teatro. É algo espontâneo. Se a gente tiver essa consciência de que para se relacionar com a arte basta deixar que ela exista, ela vai se desenvolver. O teatro amador é essa consequência natural, talvez mais espontânea e mais lúdica dessa prática. O profissionalismo pode ser consequência ou não. Prêmio você ganha um dia, e, no dia seguinte, todo mundo esquece. O importante é você se dedicar àquilo que faz, que lhe dá prazer.

– Como foi a troca de experiências com artistas, professores e arte-educadores no encontro realizado no Mamm?

– Eu gosto muito de olhar as pessoas que estão ali me assistindo. É muito interessante ver com que olhos elas absorvem aquilo que você está dizendo. Muitas vezes, as pessoas escutam, mas não ouvem. O que eu pude perceber é que, nesse encontro, estavam muito atentos, com o olhar brilhando, querendo saber mais. Foi – e é – sempre muito bacana poder conversar com as pessoas, trocar ideias e levar um pouco de esperança, de que as coisas podem melhorar dentro da nossa casa, da nossa escola, do nosso teatro, artística e culturalmente. Venho trabalhando há 20 anos um binômio muito importante: o processo de autoconhecimento ao lado do processo constante de desenvolvimento expressivo. Você, à medida que se conhece mais, passa a não ter medo de você. Passa a ter coragem de mergulhar fundo nas suas questões humanas, nas suas investigações. E, com isso, melhor profissional você será.