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Palavras entre lágrimas


Por MAURO MORAIS

25/03/2015 às 06h00- Atualizada 25/03/2015 às 17h33

darlan
Darlan reúne poesia e prosa poética, recuperando um trajeto que se inicia no fundo do poço e ganha ares de página virada

Um adeus, e tudo ruiu. Ao acordar e não ver mais o mesmo rosto ao seu lado, na cama, ele deixou de se reconhecer. Inesperadamente, o escritor Darlan Lula conheceu seu lado mais sombrio, conviveu com lágrimas ininterruptas e com o desejo de ir embora. Após uma tentativa frustrada de romper com a vida, ele foi internado em uma clínica psiquiátrica, onde começou a escrever “Casa de Madeira” (Funalfa, 71 páginas), que lança nesta sexta (27), no Museu de Arte Murilo Mendes. Pronta, a obra serve como um ponto final. Agora, já escreve outra história. “Esse livro é muito importante para minha vida pessoal, porque estabelece um rito de passagem. Agora sinto ter superado um momento muito difícil e uma doença que, às vezes, é invisível”, comenta.

Financiado com recursos da Lei Murilo Mendes, com ilustrações do artista plástico Gerson Guedes, o título reúne poesia e prosa poética, recuperando um trajeto que se inicia no fundo do poço e ganha ares de página virada. “Só quem sabe do abandono/ cria raízes da razão na alma”, escreve em um dos primeiros textos, redigido ainda no ambiente de isolamento. “Boa parte do livro foi escrita dentro da clínica. Aproveitei a oportunidade de ócio para escrever. Convivi com muitas pessoas com problemas de dependência química, que exigiam outros cuidados que não os meus, psíquicos. Eles tinham tarefas à noite, e eu não tinha nada. Para não ficar disperso, me reunia com eles, escrevendo junto de todos. Quando percebi, tinha um livro nas minhas mãos”, conta.

Já no título mora a referência direta ao lugar no qual permaneceu por pouco mais de um mês, em 2013. Casa de Madeira era o nome dado àquele lugar, onde descobriu-se em sua mais íntima fragilidade, que agora decide tornar pública, como uma bandeira de “abaixo o silêncio”. “Pensava em não ter relação com o eu-lírico, mas vi que não tinha como fugir. Estou em tudo. Escrever era uma espécie de catarse. Usava o papel como se conversasse comigo mesmo. A escrita me fortaleceu”, diz. “É preciso jogar luzes sobre esse assunto. Mostrar que a superação é, também, fazer um pacto com a sociedade, mostrando que é possível viver de forma diferente”, brada.

Triste histórico

Ainda que não seja a primeira, muito menos a última obra a retratar o tema, “Casa de Madeira” contribui para expor a carga dramática que a literatura consegue captar, sendo um dos escapes da depressão na arte. “A depressão acompanha a humanidade, mas a cada época é vista de uma maneira. Ela é presente em vários momentos da literatura e da arte. Antigamente, era vista, sob o aspecto religioso-cristão, como falta de fé e obsessão. Depois, a sociedade passou a observar o depressivo em valores morais, como sendo o vagabundo, o preguiçoso, o sem zelo. Hoje, já é reconhecida como doença, mas, ainda assim, é debatido se essa doença é adquirida, resultado da relação com o meio, ou uma disfunção orgânica”, analisa a professora do departamento de história da UFJF Vanda Arantes do Vale.

Segundo a historiadora, que profere palestra no dia do lançamento do livro, dois artistas bastante conhecidos representam essa relação entre arte e depressão: “Edward Munch é reconhecidamente um deprimido, com internação por várias vezes. O tormento mental dele é bastante famoso. Os expressionistas, propositadamente, buscam se aprofundar na alma humana, seguindo pelo lado escuro da mente. Até 1920, ele vive o clima da depressão alemã, de um país derrotado pela guerra franco-prussiana. O Munch é um atormentado vivendo em uma sociedade em crise.” O outro exemplo é de um conterrâneo. “Pedro Nava é um deprimido vivendo em uma sociedade em transformações. Ele era um depressivo que já pensava em suicídio desde quando era menino”, pontua.

Autor de “O demônio do meio-dia”, considerado mundialmente como um tratado sobre a depressão, o norte-americano Andrew Solomon chocou a imprensa nacional, em 2014, ao afirmar que convive, há quase duas décadas, com a doença. “Doença mental e criatividade não são categorias mutuamente excludentes; ao contrário, frequentemente estão associadas. Afinal, criar significa escapar de padrões habituais, inovar, surpreender. Ora, essas características podem muito bem ser aplicadas à doença mental, a tal ponto que, para alguns artistas, são inseparáveis”, discutiu, em 2008, o escritor Moacyr Scliar, em artigo publicado pela revista “Mente Cérebro”.

A história literária, mesmo, é recheada de autores depressivos. Alguns chegaram a extremos, como a poetisa carioca Ana Cristina César, que pulou do oitavo andar aos 31 anos, em 1983, deixando obras referenciais do movimento marginal. De escrita igualmente angustiada, a inglesa Virginia Woolf, aos 59 anos, em 1941, encheu os bolsos com pedras e adentrou um rio perto de sua casa. Amarga ou saborosamente edificante – essa sequência de fissuras, como ressalta o escritor Darlan Lula -, a literatura nada mais é que o reflexo da vida, esse emaranhado de nuances.

“CASA DE MADEIRA”

Lançamento nesta sexta, às 19h30

Museu de Arte Murilo Mendes

(Rua Benjamin Constant 790)