Tempo de ir à luta
Década de 1930. Governo Vargas. Os intelectuais discutiam e implementavam um novo país. Em meio ao turbilhão de mudanças que atingia política, arte e educação, as mulheres tomaram para si novos papéis. Nessa época, inúmeras figuras deixaram marcas na história da cidade. Como observa a doutora em ciência e cultura Vanda Arantes do Vale, educadoras e escritoras despontaram no cenário urbano local, dispostas a ocupar outros espaços. Eram posições permitidas pelos homens, mas tratava-se de ampliação de direitos, complementa a acadêmica, salientando que o feminismo só viria nos anos 1960.
Para encerrar o mês da mulher, a Tribuna pesquisou a trajetória de algumas das muitas moradoras que ajudaram a construir a narrativa cultural de Juiz de Fora. Foram selecionados cinco exemplos, com características semelhantes. Todas nasceram no início do século XX, são formadas e de setores médios urbanos, analisa Vanda. Elas também ‘trabalhavam fora’, como se dizia antigamente. São importantes pois dão visibilidade àquela geração. Segundo a professora, uma fatia elevada da população era analfabeta no período. Sobre o reconhecimento do trabalho deixado pelas desbravadoras, Vanda adverte que não existe memória única na cidade. Cada comunidade possui e preserva seu passado. Elas se destacam entre os grupos ligados à cultura e às atividades intelectuais.
1918 – 1973
Na primeira metade do século XX, ousada era a mulher que se dedicava à escrita. Em um futuro próximo, o cenário se transformaria, mas foi preciso que muitas pioneiras insistissem em grafar pensamentos e ideias. Nascida em 1918, Cosette de Alencar se deparou com um segundo desafio literário. Seu Pai, Gilberto de Alencar, era escritor respeitado. Foi duplamente difícil para Cosette despontar nas letras, explica a professora e doutora Moema Rodrigues Brandão Mendes, pesquisadora do acervo da família Alencar. De acordo com ela, a autora de Giroflê, giroflá se destaca na história cultural local, tendo escrito uma única obra. Suas crônicas, entretanto, são inúmeras e, segundo Moema, apresentam considerável riqueza intelectual. Deve-se levar em conta que essa qualidade enfrentava adversidades do dia a dia, pois Cosette trabalhava para o ‘Diário Mercantil’. Ou seja, o texto tinha que sair. Em 1967, foi considerada a melhor cronista de Minas, com publicações na imprensa de Belo Horizonte, São João del Rei e Rio de Janeiro.
Moema ressalta ainda as correspondências trocadas pela autora juiz-forana com outros literatos, como Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meirelles. Entre os assuntos, chamam a atenção comentários sobre a produção dos interlocutores. Com a morte de Gilberto, a filha, ex-diretora da Escola Normal, assumiu a biblioteca do pai, constituída de três mil volumes, manuscritos de obras publicadas e de duas inéditas. Ela não tinha intenção de se projetar no futuro. Mas, como todo escritor, guardava papel e, com isso, a memória, diz a pesquisadora. Fernando de Alencar, irmão de Cosette, e a esposa Dóris Marlene Rocha de Alencar foram os responsáveis pela organização do acervo, que hoje se encontra no Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm). Cosette dá nome à escola municipal do Bairro Santa Catarina. Uma homenagem que se refere à educadora. Quanto ao seu valor literário, faltam reconhecimentos por aqui, observa Moema.
Cleonice Rainho escrevia o tempo todo. Sempre sentiu-se atraída pela página em branco. Wanderley Luiz de Oliveira, autor da biografia Cleonice Rainho, a busca e o encontro, comenta que a escritora, nascida em Além Paraíba, não costumava frequentar festas e jantares. Preferia o incessante trabalho. Por conta dele, viajou pelo Brasil e por vários países, tendo estudado na Universidade de Lisboa, em Portugal. Sua ligação com a pátria colonizadora, aliás, concretizou-se na fundação, em 1955, da Associação de Cultura Luso-Brasileira, dirigida por ela até 1980. Fiel às origens, Cleonice se preocupou em resgatar as tradições portuguesas, salienta Oliveira.
Autora de cerca de 30 obras, herdou do pai, Antônio Gonçalves Rainho, o pendor para a poesia. Ao longo da carreira, a escritora – que passou a vida ao lado do marido, Jacy Thomaz Ribeiro, já falecido – atuou ativamente na imprensa e nos movimentos culturais regionais, teve trabalhos traduzidos para mais de dez idiomas e recebeu inúmeros prêmios. Ela não está na mídia, mas faz parte do imaginário local e é respeitada nacionalmente e no exterior, observa o biógrafo. Professora emérita da UFJF e Cidadã Honorária de Juiz de Fora, Cleonice parou de escrever há uma década. No último dia 15, completou 97 anos. Trata-se de uma vida de dedicação. Ela produziu muito, em verso e prosa. Foi professora severa, mas com coração de ouro, elogia Oliveira, sinalizando que a autora só não se envolveu com a dramaturgia pois faltou tempo.
Coordenadora da Sociedade Filarmônica de Juiz de Fora, Maria do Carmo Volpi de Freitas agia com firmeza. Atrás da postura enérgica, entretanto, escondiam-se afabilidades oferecidas aos músicos. Raro era o ensaio no qual ela não trazia lanche para um, roupa para o outro, lembra o maestro Ciro Tabet, que conviveu com Dona Carminha, como era conhecida por aqui. Formada em direito, atuou também como professora e escritora, fazendo parte das Academias de Letras de Juiz de Fora e Mineira, em Belo Horizonte. Trabalhou nos colégios São José (atual Vianna Jr.) e Granbery. De acordo com Ciro, a Filarmônica mantinha agenda considerável de apresentações sob o comando da advogada, casada com o presidente da instituição, José de Freitas e Silva. Dona Carminha movimentava as promoções musicais. Dos quadros da entidade, saíram elementos que fundaram escolas e grupos.
Natural de São João Nepomuceno, ela foi também uma das fundadoras da primeira faculdade de direito da cidade. Tornou-se bastante conhecida entre artistas, alunos e advogados. Ela marcou o cenário local na época, assegura Tabet, ressaltando as dificuldades superadas pela eterna parceira. Como a Filarmônica sempre teve ações gratuitas, muitos recursos saíam do bolso da coordenadora. Na opinião de Vanda Arantes do Vale, o exemplo de Dona Carminha abre as portas para uma necessária pesquisa acerca da música em Juiz de Fora. Vanda destaca ainda a posição da advogada na sociedade: casada com um homem intelectualizado, ela buscou mais espaço para a atuação feminina.
Maria do Céu
1902 – 2002
Destemor e acolhimento. Em tempos de ditadura militar, Maria do Céu Corrêa Mendes lidava com armas responsáveis por transformá-la em uma figura icônica de Juiz de Fora. Como menciona a cientista social Shirley Lucindo Torres, que conviveu com a educadora, ela acreditava firmemente na liberdade de expressão. E isso antes de modismos do politicamente correto. Segundo Shirley, um momento marcante se deu em meados dos anos 1960, na antiga Faculdade de Filosofia e Letras de Juiz de Fora (Fafile), onde Maria do Céu atuou desde os primeiros anos. Uma professora de antropologia foi censurada por citar, em sala de aula, a teoria da evolução. Dona Maria do Céu manteve um posicionamento firme a favor da acadêmica. Aquilo me marcou profundamente.
Já na década de 1970, a educadora – que frequentou a Universidade Livre do Porto, em Portugal – participou da criação da revista Hora, do curso de Letras da UFJF. A publicação estava equiparada ao que havia de melhor no Brasil, comenta Shirley, enfatizando que o projeto nasceu em um cenário árido. Aliás, qualquer proposta que chegasse à professora encontrava meios de germinar. Ela abriu as portas da própria casa para discussões e atividades culturais. Assim surgiu o Centro de Ação Cultural (CAC). Dona Maria do Céu se expressava através do acolhimento de ideias e da generosidade, atesta Shirley. De acordo com ela, a educadora, que morreu aos 100 anos em 2002, também marcou a história da cidade ao defender a preservação do patrimônio público e lutar pela anistia de presos políticos. A presença dela nos julgamentos tinha significado, por conta de seu prestígio. Embora tenha sido reconhecido em vida, segundo Shirley, a figura merece ser estudada. Falta uma biografia, apregoa. A professora Vanda Arantes do Vale completa: o CAC também carece de pesquisas aprofundadas.
Em seu gabinete no Museu Mariano Procópio, Geralda Ferreira Armond Marques seguia noite adentro. Muitas vezes, foi preciso mandar buscá-la, menciona o atual diretor da instituição, Douglas Fasolato. De acordo com ele, são inegáveis os esforços de Geralda, no cargo entre 1944 e 1980. Entre suas ações, está a organização de impressos e manuscritos, possibilitando a abertura da biblioteca e do arquivo do museu ao público. Ela nos deixou importantes instrumentos de pesquisa. Fez tudo o que era possível na época, atesta Douglas, informando que a fundação vem reeditando internamente um guia histórico desenvolvido pela ex-diretora.
Também poeta e conferencista, Geralda assumiu o comando do museu após a morte de Alfredo Lage, seu primo. Antes disso, era colaboradora assídua. Ela, porém, não é uma unanimidade. Alguns criticam seu posicionamento político. De qualquer forma, é preciso recuperar sua memória e reconhecer sua dedicação, sinaliza Fasolato. Na gestão de Geralda, o prédio Mariano Procópio foi ampliado, e a Villa Ferreira Lage, reorganizada. Rangel Coelho, no livro Meu barro municipal, de 1977, aponta a falta de dinamismo da instituição no período, mas defende a ex-diretora. Durante o III Encontro Luso-Brasileiro de Museus-Casas, da Fundação Casa de Rui Barbosa, a museóloga Lygia Martins Costa também enfatizou o devotamento de Geralda: quantas lutas, compenetrada de sua missão, teve pela frente.









