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O artesão de memórias


Por Guilherme Arêas

25/01/2015 às 07h00- Atualizada 26/01/2015 às 15h27

Bruno Truiti (à direita) durante uma das entrevistas que mais tarde se materializaram em livro
Bruno Truiti (à direita) durante uma das entrevistas que mais tarde se materializaram em livro

Sua vida daria um livro? Um paranaense de 29 anos acredita que toda história merece ser contada e que nem só pessoas famosas sustentam uma boa biografia literária. Engenheiro florestal de formação, Bruno Truiti abriu mão da engenharia e de seu emprego como professor de inglês para se dedicar a contar a história de desconhecidos. E fez disso sua profissão, chamada de historiador pessoal. Na prática, Bruno acredita ser um artesão de memórias, termo que acabou dando nome à empresa que se tornou seu projeto de vida. Uma família de Juiz de Fora, interessada em preservar as lembranças de seu patriarca e de sua matriarca, conheceu e abraçou o projeto, cujo resultado foi um livro de quase 500 páginas.

A ideia do artesão de memórias é simples: o grupo familiar interessado em eternizar sua trajetória contata Bruno, que grava entrevistas em vídeo e transforma todo o material coletado em um livro, com narrativa em primeira pessoa. O contratante escolhe a tiragem, e os exemplares impressos são entregues em uma pequena cerimônia com a presença do protagonista e seus entes. Mas o processo é bem mais complexo e envolve, além das conversas, muita pesquisa, numa jornada que dura meses. “Uma hora de entrevistas rende, mais ou menos, 20 horas de trabalho”, explica Bruno. A variedade de possibilidades torna cada projeto único, e o preço varia de acordo com a grandeza do trabalho.

Uma das peculiaridades desse tipo de literatura é manter as características da fala do entrevistado, o que exige sensibilidade extra do autor. Por isso, não há a preocupação em transcrever os relatos em um português polido. “Quando necessário, faço uma observação ou uma nota de rodapé (explicando o significado de alguma palavra, expressão ou termo usado pelo entrevistado). O objetivo é que o leitor, enquanto lê, ‘ouça’ a pessoa falando. O jeito de se expressar é cuidadosamente mantido. É um trabalho muito artesanal e requer uma coerência muito grande para, ao mesmo tempo, não se tornar caricatural.”

A primeira experiência em coletar histórias aconteceu durante um período em que Bruno morou na Europa e trabalhou em um mercadinho de bairro na Irlanda. Nas férias, passou dez dias em Portugal em busca da casa onde havia nascido o avô paterno, morto bastante jovem em um acidente de mergulho. Enquanto esteve no país, coletou, por meio de uma câmera caseira, depoimentos de primas que viviam no campo de forma ainda muito rústica. “Foi o primeiro ‘clique’ que tive de tentar gravar um modo de vida e capturar informações que daqui a pouco não estariam mais disponíveis.”

De volta ao Brasil, concluiu a faculdade e continuou a registrar relatos de seus próprios familiares e dos parentes de amigos próximos. A ideia de transformar o novo passatempo em negócio veio após conversar com um senhor que havia lutado na Segunda Guerra Mundial. De lá para cá, foram horas e horas de um peculiar trabalho de mais ouvir do que falar.

Entrega dos livros aos familiares costuma ser feita em uma pequena cerimônia
Entrega dos livros aos familiares costuma ser feita em uma pequena cerimônia

As histórias de seu Waltinho e dona Lurdinha

No ano passado, Bruno veio a Juiz de Fora a pedido da família de José Walter Loures Valle, de 80 anos, e Maria de Lourdes Lopes Loures, 74, ou, como são conhecidos, seu Waltinho e dona Lurdinha. O casal vive em uma tradicional fazenda em Piau, onde Bruno passou uma semana colhendo depoimentos. “De início, seu Waltinho parecia um tanto desconfiado daquilo tudo.” Mas, aos poucos, a quietude mineira foi cedendo espaço aos causos, às histórias alegres e outras nem tanto. E a prosa de uma semana se materializou em “José e Maria – uma vida de esperança”, livro cujas 472 páginas são consideradas de valor inestimável pela família.

“Meus filhos ainda estão convivendo com os avós. Mas meus netos, provavelmente, não vão conviver. Então, com o livro, as gerações futuras vão saber a história da família. O gancho foi meus pais, mas, com isso, foi contada também a história dos antepassados”, diz Walter José Lopes Loures, um dos filhos de seu Waltinho e dona Lurdinha.

Família de Juiz de Fora abraçou a ideia de ver em livro (no detalhe, acima) a história de seu Waltinho e dona Lurdinha (no detalhe, abaixo), que moram em fazenda em Piau
Família de Juiz de Fora abraçou a ideia de ver em livro (no detalhe, acima) a história de seu Waltinho e dona Lurdinha (no detalhe, abaixo), que moram em fazenda em Piau

Apaixonado pelas histórias simples e, ao mesmo tempo, encantadoras, Bruno Truiti acredita na serventia social de seu trabalho ao comparar o modo de vida de ontem com o de hoje. “Sempre fui fascinado pelo passado, conversar com pessoas, saber como era a vida delas e tentar meditar o quão mais fácil é a nossa vida hoje e, de alguma forma, o quão a vida já foi mais simples.”

A líder do grupo de pesquisa Comunicação, Cidade, Memória e Cultura da Faculdade de Comunicação Social da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Christina Musse, explica que a preocupação em registrar relatos de experiências individuais surgiu, principalmente, a partir da revolução de costumes, em meados dos anos 1960, e tende a se fortalecer cada vez mais. “Talvez pelo medo de perdermos nossas raízes devido à aceleração do tempo, vivemos, em contrapartida, um desejo de preservar nossas histórias pessoais.”

Para ela, por meio desses registros, é possível ajudar a contar mais do que a história de uma família, mas de uma comunidade e de uma região. “São pessoas comuns e relatos de cenas do cotidiano que contam eventos que normalmente não seriam registrados pelos grandes veículos de comunicação, muito menos pelos grandes livros da história. É uma maneira de contar a história de forma mais plural, com diversidade, na visão não só do opressor, mas também do oprimido.”

Pouco conhecida por aqui, a função de historiador pessoal é mais comum na Europa e nos Estados Unidos. No país americano, desde 1995, existe uma associação que reúne mais de 650 membros. A forma de trabalho varia: há os que auxiliam pessoas a escrever suas memórias e os que fazem as publicações com base nos relatos dos personagens.

No Brasil, São Paulo abriga há 20 anos o Museu da Pessoa, que tem o objetivo democratizar a construção da memória social por meio da valorização de histórias de vida de toda e qualquer pessoa da sociedade. O material coletado é organizado e disseminado através de produtos culturais como livros, exposições, documentários e sites, e utilizado, posteriormente, em projetos socioculturais. O Museu da Pessoa inspirou a criação de três outros museus, em Portugal, Canadá e Estados Unidos. A instituição hoje mantém um acervo com mais de 15 mil depoimentos de histórias de vida e 72 mil documentos e imagens que contam a história de entidades, cidades e de grupos sociais diversos.