Humor de mesa de bar

Humoristas não escondem o desejo de aumentar o número de inscritos no portal
Parece lorota o fato de a casa que procurávamos ser a de número 171. Muitos juiz-foranos desconhecem, mas é lá, em uma das ruas do Bairro Bonfim, que está o principal set de filmagens – o quarto do humorista Marquinhos – do canal da internet “Parafuso solto” (https://canalparafusosolto.wordpress.com/tag/parafuso-solto/). “Ninguém gosta de ser chamado por aí de arruela frouxa, e todo mundo que não bate muito bem da cabeça tem um parafuso solto. Por isso escolhemos esse nome”, conta o ator, único com passagens por formações teatrais da cidade, orgulhoso das cerca de três milhões e 500 visualizações do portal e dos 35 mil inscritos em dois anos de estrada. A cada quinta e domingo (isso é sagrado), o internauta se depara com uma piada nova. No elenco principal também estão Kelly, Josy e Marcelo, moradores do Bonfim, Vandinho, de Benfica, e Alessandro, do Borboleta, porém algumas figuras costumam aderir ao projeto conforme a necessidade. O número de atores do dia vai depender da quantidade de personagens exigidas pela cena.
Nesta turma só de gente cômica não tem lugar para roteiristas. “Já tentamos criar alguma coisa, mas não fica tão engraçado”, confidencia Marquinhos, cuja intenção, desde o início, sempre foi gravar piadas prontas que são contadas no cotidiano das pessoas. “Não é que estamos imitando, essa é a nossa proposta”, afirma Kelly. Querendo divertir a família e os mais íntimos, despretensiosamente, eles alcançaram seguidores até em outras paragens, e o retorno vem, também, através da página oficial no Facebook. “Acho que nos diferenciamos pela simplicidade”, opina Kelly, provocando risos ao exibir a dentadura usada em várias de suas cenas.
Cenário fixo eles não têm. Se a história se passa em um açougue, pedem ajuda para o açougueiro da região. Caso a ambientação seja uma farmácia, o farmacêutico também sede o local com maior prazer. O figurino é tirado do próprio guarda-roupa. Embora utilizem somente equipamentos amadores, demonstram ter preocupação com o resultado das produções. De acordo com Marquinhos, a ideia nasceu dos encontros em bares, toda sexta-feira, após o batente, e foi tomando cada vez mais corpo. “Piada boa sai assim mesmo, depois de uma cervejinha. Começamos a perceber que o pessoal ria muito e ficava esperando na fila para contar. Então decidimos não deixar isso morrer para que nossos filhos e nossos netos vissem”, comenta Marquinhos, que teve o endosso do colega Kelly nesta questão. “Quero deixar bem claro que não somos alcoólatras. Estamos fazendo isso para nos divertir. Como fazemos em um momento de lazer, quando colocamos os erros de gravação, sempre tem uma gelada lá. Ela é para tirar o estresse do dia a dia. Tem gente que acha que ganhamos alguma coisa das marcas de cerveja, as empresas é que ganham com a gente.”
Por enquanto, sem visão comercial
Por falar em diversão, os dois amigos deixam claro que o “Parafuso solto”, por enquanto, não tem intenções mais audaciosas. Diferentemente de outros canais de humor que seguem na esteira do famoso “Porta dos fundos” (o maior fenômenos da internet brasileira dos últimos tempos), lucrando alto com a empreitada virtual, o grupo juiz-forano ainda não apostou em qualquer forma de ganhar dinheiro com o que fazem. Na verdade, eles ainda não descobriram os meios para isso. Alguns, faturam alto só com visualizações, outros, investem pesado em campanhas publicitárias.
Para viver, este sexteto das bandas de cá continuará contando, somente, com suas profissões. Kelly é músico, Marquinhos e Alessandro são designer gráfico, Vandinho é pintor, Josy é auxiliar de escritório e Marcelo é motoboy. “Quem sabe amanhã não chega alguém com essa visão mais comercial?”, indaga Kelly. Eles não escondem admiração pelo trabalho do coletivo de humor mais famoso do país, embora admitam ter ressalvas quanto ao que fazem. “Eles criticam coisas e situações que a gente não criticaria por motivos éticos”, observa Marquinhos.
Entre os que amam e odeiam
Todo mundo que ama (ou odeia) piada sabe que o grande problema de quem entra nesta área é perder o ritmo que a história precisa para arrancar risos, o que, por pouco, acontece com esta trupe, que precisa gravar várias vezes até chegar ao ponto pretendido. “Tem piada que a gente morria de rir quando contava para o outro. Passava um tempo e já não ria tanto. Dali a pouco, não ria era nada. Neste caso, a gente manda para alguns amigos avaliarem antes de postar na internet”, comenta Kelly, protagonista de vários quadros, entre eles “Mano doido” e “Mano doido 2”. Ele dá vida àquele chato que está sempre querendo tudo o que é do irmão. Este, por sua vez, é obrigado a agradá-lo a pedido da falecida mãe. Juntas, as duas filmagens foram assistidas por cerca de 120 mil pessoas. “No começo, ficamos um pouco frustrados porque as visualizações não chegavam a três mil. De repente, com o WhatsApp, vimos que o vídeo do açougue (‘Cliente top of Mind’ – 156 mil visualizações ), por exemplo, tinha estourado.”
Antes das despedidas, percebemos que eles estão adorando o estrelato na rede, motivo pelo qual tivemos que terminar a conversa com esta pergunta: E se, um belo dia, pintar uma oportunidade na TV? “Claro que aceitamos. Acredito que nossos vídeos possam ir para a telinha, porque alguns têm uma sequência. Daria para fazer um programa inteiro”, responde, em coro, a dupla de amigos.








