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Se correr o streaming pega; se ficar, a pirataria come


Por Tribuna

24/12/2014 às 07h00- Atualizada 30/12/2014 às 14h56

U2 distribuiu

U2 distribuiu “Songs of innocence” gratuitamente para meio bilhão de pessoas no iTunes, mas muita gente reclamou da “invasão”

Vivenci trabalhou no esquema independente para lançar o primeiro EP autoral

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Mistura sonora do Sambavesso foi lançado em CD financiado pela Lei Murilo Mendes

Mistura sonora do Sambavesso foi lançado em CD financiado pela Lei Murilo Mendes

Distante é o tempo em que o Natal, comemorado nesta quinta-feira, era considerado uma das datas a serem celebradas pela indústria fonográfica, que via o disquinho prateado sendo o presente preferido de muitos no 25 de dezembro e nas festas de amigo oculto que sempre acontecem no final do ano. Do então onipresente Roberto Carlos aos sucessos da vez, eram centenas de milhares ou milhões de discos de um único artista que saíam aos montes das lojas especializadas ou de departamentos. A realidade, hoje, é outra, com CDs e DVDs sendo preteridos pelo fã, que prefere curtir os serviços gratuitos ou pagos de streaming, comprar músicas avulsas no mercado digital da internet ou, desde o advento do Napster, em 1999, apelar para o chamado download ilegal (pirataria?) de canções e álbuns – questão que ainda divide muita gente. Mesmo assim, ao contrário dos mais pessimistas, a música não morreu, e o volume de lançamentos (pagos ou gratuitos) mostra que a galera está tentando entender esse novo mundo digital – na verdade, nem tão novo assim.

Até mesmo o vinil, a forma analógica de ouvir música que muitos decretaram ser coisa de museu, mantém sua fatia em vários mercados, ganhando em glamour o que perde em quantidade. Nos Estados Unidos, por exemplo, os bolachões pretos representam 2% das vendas no país, com aumento de 49% na comercialização em relação a 2013, chegando a quase oito milhões de cópias vendidas. “Lazaretto”, de Jack White, teve 75.700 unidades vendidas, o melhor desempenho analógico desde “Vitalogy”, do Pearl Jam, em 1994, superando as vendas de CDs de inúmeros artistas norte-americanos. No Reino Unido, onde a venda de CDs apresentou queda de 13% em 2013, os discos de 33 rotações venderam 780 mil unidades no ano passado – 0,8% do mercado. No Brasil, onde um disco novo pode custar R$ 100, foram prensados quase 59 mil LPs – 63% a mais que em 2012 (23 mil).

Para recuperar receitas

O “x” da questão, entretanto, ainda é tentar conquistar o internauta maravilhado com os milhões de músicas à mão nos downloads tachados de ilegais, além do consumidor que não entende muito bem essa coisa de “música na internet” e aceita gastar seu dinheiro comprando canções e álbuns em serviços como iTunes, Amazon etc., ou o pagamento de assinatura nos serviços de streaming, que também podem ser gratuitos desde que com publicidade. No Reino Unido, por exemplo, 7,4 bilhões de músicas foram emitidas dessa forma no ano passado (o dobro de 2012), e serviços como o Spotify e Deezer vêm conquistando o público. Até mesmo o Google entrou na jogada, com o Google Play Música. Outro motivo que faz a indústria fonográfica quebrar a cabeça e repensar o modelo de negócios é uma pesquisa do Gartner Research, apontando que 36% de todos os arquivos pessoais (incluindo a música) estarão na nuvem em 2016. Ou seja: nada de CDs na prateleira ou no porta-luvas do carro, basta conectar o smartphone ao som do possante.

Alternativas para sobrevivência continuam a ser testadas. Thom Yorke, do Radiohead, lançou “Tomorrow’s modern boxes”, seu segundo álbum solo, via torrent, cobrando US$ 6 pelo download. Já o U2, com a megalomania que passou a ser costumeira no grupo, disponibilizou “Songs of innocence” de forma gratuita para todos os clientes do iTunes. Se chamou a atenção por entregar de graça seu disco a meio bilhão de pessoas, também teve que ouvir reclamações de muita gente, insatisfeita com a tática agressiva do quarteto irlandês em conjunto com a Apple.

Crise à parte, 2014 foi pródigo em lançamentos, com o Foo Fighters entregando o ambicioso “Sonic higways”, o já citado U2 retornando após cinco anos de ausência e os Pixies aparecendo com o primeiro álbum de estúdio em 23 anos. Até o Pink Floyd resolveu voltar “dos mortos” para contemplar os fãs com “The endless river”. No Brasil, com as gravadoras arriscando muito pouco – ou até mesmo nada -, um dos destaques do ano foi “Não pare pra pensar”, dos mineiros do Pato Fu.

Para 2015, a expectativa é que Bob Dylan, Iron Maiden, Radiohead, Muse, Rihanna, Adele e Matanza, entre outros, apareçam com novas bolachas prontinhas para a degustação sonora do público. Enquanto isso, todos os envolvidos na ciranda, cirandinha musical continuam a pensar sobre o futuro da indústria fonográfica, que precisa lidar com um mundo que aprendeu a ouvir música de graça – e gostou muito disso.

Soluções caseiras

As mudanças não poderiam deixar de afetar o cenário local. Com o mercado retraído, a possibilidade de se conseguir uma grande gravadora fica mais difícil, então a solução é partir para a independência total ou ser agraciado com o financiamento de produção pela Lei Murilo Mendes, resultando no lançamento de oito CDs em 2014, de veteranos como Flavinho da Juventude e Estêvão Teixeira a novas apostas, caso do grupo Aguardela e de Thiago Miranda. Na seara da independência total, Luizinho Lopes (que lançou CD e DVD ao vivo), duplodeck e Vivenci são três dos nomes que mantiveram a produção local em atividade. “Muita coisa boa aconteceu este ano, mas a principal delas foi o lançamento do nosso EP. Agora, queremos tocar mais ainda em 2015, divulgar nossa trabalho também em cidades diferentes”, diz Victor Polato, baixista e vocalista do Vivenci. O projeto 4zero4, de música eletrônica experimental, se aproveita do Soundcloud para divulgar suas experimentações sonoras no mundo virtual.

Edson Leão, do Sambavesso, comemora o lançamento do primeiro álbum do grupo ao mesmo tempo que também já pensa no ano que está para começar, em que o quinteto pretende levar o som do grupo para além de Juiz de Fora – sem que Edson se esqueça, entretanto, do retorno do Eminência Parda. “Fomos forçados a sair de cena aguardando o processo de recuperação de um dos integrantes, que interrompeu o início das gravações de um repertório autoral inédito. Para 2015, a meta é retomar a banda e o projeto autoral”, conta o artista, que acredita na estreia fonográfica para o mesmo ano do projeto “Ou Sim”, de música e poesia.

Em busca de espaço – literalmente

Para 2015, a Lei Murilo Mendes vai financiar a produção de vários álbuns, entre eles “A dança das palavras” (Luisinho Lopes) e “Samba fino” (Alessandra Crispim), junto a nomes como La Macchina, DuolhoD’água Caetano Brasil e Danniel Goulart. No total, 20 álbuns foram aprovados no edital. Gravar, porém, não é o fim da estrada, é preciso ter onde mostrar o trabalho. Do clássico ao heavy metal, foram inúmeras as opções para artistas e público este ano, com a expectativa de manter o ritmo em 2015. Além das apresentações esporádicas, locais como o Teatro Pró-Música, Cine-Theatro Central, CCBM, UFJF e até mesmo igrejas, entre outros, abriram seus espaços para festivais de música clássica, antiga, rock, jazz e blues, entre outros estilos.

Edson Leão, entretanto, ainda vê ressalvas nessa questão. “Na minha percepção, em relação a espaços para a produção musical autoral, 2014 foi um misto de retração e de uma possível tomada de fôlego e impulso para novos avanços. Retração, porque sofremos de uma escassez de espaços alternativos frente ao predomínio de uma lógica mercadológica pautada pela ideia da música apenas como entretenimento. Tomada de fôlego, na medida em que veio se esboçando uma renovação no cenário musical (novos grupos e artistas, lançamentos de CDs), o que pode ser sentido em projetos como o Encontro de Compositores, que vem retomando seu vigor, e o Mutirão Digestivo Autoral. Para que um novo período de expansão se consolide precisamos de ampliação de espaço para a criação, e é bom alertar que isso em geral não vem gratuitamente e pode depender de uma melhor articulação dos artistas, seja em projetos individuais, coletivos, ou de articulação política e reivindicação.”