BaianaSystem faz show em Juiz de Fora no Festival da Mata
Beto Barreto, guitarrista e fundador do BaianaSystem, conversa com a Tribuna sobre show que a banda fará no dia 25 de junho

É como uma onda mesmo. Até onde não tem praia, no lugar onde a “máquina de louco” estaciona, pode saber: vai ter tsunami. Ele, na verdade, vai ser causado mais pela plateia que pela banda – essa, claro, influencia no andamento, mas é no chão que a “quebradeira” se inicia. O efeito, dizem, é impulsionado pela guitarra baiana – aquela criada por Dodô e Osmar, os mesmos do trio elétrico -, responsável pelo efeito de um cavaquinho eletrônico. Mas tem, também, o sound system, que é o que dá o tom do ritmo, com pitadas de reggae e outras misturadas, já que seu surgimento se deu na Jamaica na década de 1940. Além do nome, é isso que forma o som do BaianaSystem: banda idealizada por Beto Barreto em 2009, na Bahia, com a principal proposta de ter a guitarra como voz do projeto. Neste sábado (25), eles estacionam a máquina de louco no Festival da Mata, que vai acontecer no Cultural Bar, com a turnê “Sulamericano show – versão Brasiliana”. Marina Sena, Armandinho, Onze:20, Soul Rueiro com RT Mallone, Roça Nova e Mauloa completam o line up do festival, que começa às 15h.
“BaianaSystem”, primeiro disco lançado pela banda, já trazia muito do que ela é hoje: essa experimentação de ritmos, instrumentos e combinações. Já na voz de Russo Passapusso, as letras mostravam que o interesse estava também no poder da palavra e na junção do timbre da voz com o da guitarra baiana. Lá em 2009, ainda, o BaianaSystem percebeu que era a troca com o público que orientaria a montagem dos shows – sendo assim até hoje. “Tem muito da coisa ao vivo, que é muito forte com o Baiana: essa troca com o público e como o público reage, como as músicas vão se transformando a partir dali. Às vezes uma letra e uma guitarra que estão sendo feitas em uma música não funcionam ao vivo. E a gente acaba colocando ela dentro de uma outra coisa, e aquilo vai se transformando. Essa ideia do show é como se fosse um conceito e um tema maior que nos ajuda a desenvolver as coisas que a gente consegue falar ali com o público”, explica Beto, guitarrista e idealizador da banda.
Isso foi importante até para entender a forma como os outros discos que viriam a seguir seriam pensados e lançados. Depois de alguns singles e EP, surge “Duas cidades”, o disco que projetou o BaianaSystem para o Brasil e para o mundo. De acordo com Beto, ele foi pensado a partir da vivência da banda nas ruas, no carnaval e no Pelourinho, em uma busca de pensar em uma sonoridade nova, mas com referências bem definidas. “É esse equilíbrio que fica sempre ali na condução da criação e na execução das coisas. A gente busca entender como se dá esse diálogo”, diz. E pensar no show desse disco foi outra história. Já no dia de lançamento, as músicas estavam diferentes. Como um quebra-cabeça, quem dá as peças é o público.
Para um portal de pessoas
Veio, então, em 2019, “O futuro não demora”. Para Beto, o disco foi, na verdade, um mergulho de pesquisa, sobretudo na Ilha de Itaparica, a maior ilha marítima do Brasil, e que fica na Bahia. “A gente fez uma pesquisa histórica mesmo, para entender nossa própria formação, e até conseguindo, agora, olhar Salvador um pouco de fora.” Nesse disco tem “Sulamericano”: a música foi tema de abertura da novela “Amor de mãe”, da TV Globo. “A música fala sobre justiça. É uma coisa muito atual e as pessoas se identificam tanto com a sonoridade quanto com o que está sendo dito ali. Aquilo marca e chega, realmente, a lugares que esse outro circuito que a gente está fazendo não chega.” Em 2018 eles já tinham sido tema de novela, na “Segundo sol”, com a música de Nando Reis gravada por Cássia Eller. “No caso, foi interpretação, mas a gente conseguiu colocar coisas falando do poder da palavra, algo que a gente sempre fez. Quando acontece isso é muito legal, porque faz com que se abra um portal de pessoas que consigam chegar naquilo, tanto na mensagem quanto no som de uma outra maneira”, completa.
Em atos, como a pandemia
Sem fazer nenhuma live na pandemia, já que, para eles, não faz sentido se apresentar sem público, BaianaSystem apostou nos lançamentos de singles e no show com Gilberto Gil, o “Gil Baiana ao vivo em Salvador”. Depois de trocas de referências, encontraram jeito de pensar em um disco novo, que foi lançado em 2021 em formato de atos, depois unificado como “OXEAXEEXU”. Beto diz que os três atos conversam, cada um deles, com os momentos da pandemia. O primeiro, “Navio pirata”, é ainda um resquício do que eles viveram no carnaval de 2020. “Recital instrumental” é, para Beto, o mais denso dos três, enquanto “América do Sol”, além de trazer esperança, realiza uma conexão mais aprofundada com a América Latina.
Ao transformar os três em “OXEAXEEXU”, além de ganhar uma música inédita, a ordem das canções foi alterada. “Ao olhar com mais distanciamento, a gente viu que precisava contar uma outra história.” Além de imprimir brasilidade nas melodias, o disco, assim como algumas músicas de outros, traz como se fosse uma reza nas letras e introduções, mas sem estar ligado diretamente a alguma religião específica. “A coisa dessa ligação com o mistério, com as conexões que acontecem, também fazem parte dessa busca artística e dessa busca do entendimento do que essa mensagem passa. A gente entende a música e a arte também como uma conexão com isso de alguma forma: através disso que vem e chega. Porque eu acho que o culto e as crenças se misturam muito, mas eu acho que essa força principal de conexão sempre está ali voltando para nos alimentar da própria criação.”
Estacionando a nave
O show, para Beto, é também uma celebração com o mistério. E ele acredita que é por isso que a máquina de louco mexe tanto com o público, como uma vibração que sai da guitarra, toca e retorna. O “Sulamericana show – verão Brasiliana”, além de trazer um entendimento do que é a América Latina, com questões políticas fortes, coloca na prática uma ideia de caravana que o BaianaSystem tem vivido com o retorno dos shows e, principalmente, dos festivais.









