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A ordem é ‘causar’


Por MARISA LOURES

24/05/2013 às 07h00

As leis da vida são as mesmas leis da dança, não temos como fugir disso. A inconsciência é que gera a mediocridade. O bailarino tem os mesmos problemas de um sapateiro. Ao ser indagada sobre como definir a proposta do Festival de Dança Causa, que será realizado, de hoje a domingo, no Diversão & Arte, a professora Letícia Sabino imediatamente recorreu à frase acima, dita pelo coreógrafo e bailarino mineiro Klauss Vianna. O evento integra as atividades do Corredor Cultural, que começa nesta sexta, levando para vários pontos da cidade mais de 80 atrações, entre teatro, feiras artesanais, shows, mostras, e performances.

Queremos tirar o foco do artista, que muitas vezes é idealizado como o gênio, aquele que tem o dom, que é especial, e focar no trabalho. Trazer o glamour para o ato é trazer a importância para o fazer, e entender o fazer e todos os seus processos como o próprio produto artístico, a própria obra, explica a professora, chamando atenção para os objetivos do projeto. O Causa se interessa por tudo aquilo que causa, que reverbera. Pelo acontecimento que pulveriza, multiplica e aglutina.

Apresentações de dança, residência artística, oficina. Diferentemente de outros eventos do gênero, o festival se estende até novembro, abrigando uma programação que tem como meta enxergar a dança como um processo de pesquisa e descoberta. De acordo com Letícia, o formato atende a uma demanda do município. Aqui na cidade inexistem ações na área de dança que se seguem, que permanecem. A maioria acontece num formato eventual, pontual, dificultando um movimento, uma cena. Faltam cursos de formação para os profissionais e falta formação de público, justifica.

Arte para todos?

Segundo a docente, para assistir às oficinas, é necessário se inscrever previamente através do site causaacoesartisticas.wix.com. O público alvo são profissionais, estudantes ou qualquer pessoa interessada no assunto. (Letícia faz questão de enfatizar que não é preciso ser um iniciado na arte para participar). Queremos tirar a dança de um gueto, de um contexto de especialistas e colocá-la dentro de um discurso comum. Fazer com que ela cause efeito no mundo, no público, nos artistas, na própria arte, destaca ela, ciente de que as performances contemporâneas estão cada vez mais herméticas, o que em muitos casos não toca a plateia.

Passamos por um momento em que a dança parece estar fugindo do corpo dos bailarinos. Os trabalhos cênicos se tornaram tão preocupados com os conceitos filosóficos ou políticos sobre os quais se debruçam que a pesquisa e a investigação do movimento no corpo tem ficado em último plano, afirma, para logo completar: Como resultado, vemos, nas salas de encenação de todo o país, com raras exceções, trabalhos muito bem embasados filosoficamente, que mostram corpos esvaziados, sem vida e, por isso mesmo, impossibilitados de afetar o outro, que vai para casa insatisfeito e repetindo a fala: ‘não entendi, não senti nada’. Isso acontece porque quem vai assistir a uma apresentação artística vai em busca de ter uma experiência estética.

Querendo dar conta dessas inquietações, Letícia e Juliana França, também curadora do evento, procuraram criar um modelo de trabalho que suscitassem questionamentos a partir das propostas que serão encenadas. Além de acompanhar uma conversa com os artistas selecionados, por meio de uma plataforma interativa (causaacoesartisticas.wix.com), o público terá a chance de participar de uma discussão após cada apresentação, no momento chamado Tá crítico.

Nesta sexta, às 20h30, o bailarino Bernardo Stumpf apresenta o solo Escavações. O ingresso será vendido no local, a R$ 5. Na noite de sábado, também às 20h30, Milene Pimentel abre o processo de criação do trabalho Me avise quando começar a levar as coisas mais a sério. Stumpf volta à casa, no sábado e domingo, para comandar a oficina Construção ritual (máscaras, bestas e outras coisas), entre 14h e 19h. A maratona do Causa continua em junho.

Caldeirão cultural

Participar do primeiro dia de atividades do Corredor Cultural significa ter fôlego para entrar neste caldeirão, que mistura bloco de carnaval, contação de histórias, show de rock, cinema, música gospel e até esporte. Abrindo a programação, o Parangolé Valvulado esquenta os tamborins, às 18h, no Parque Halfeld. No mesmo horário, o grupo Mobilicidade JF sai em pedalada da Praça Jarbas de Lery Santos, em São Mateus, chamando atenção para a divisão das ruas entre bicicletas e motorizados. Quem anima o encontro de ciclistas e foliões, na Praça Antônio Carlos, às 19h30, é a bateria milagrosa do Bloco Come Quieto. Em seguida, sobem ao palco Nascimento e Banda.

Sucesso entre a garotada, a Caça ao Saci desta edição tem como alvo os mais velhos. Hoje e amanhã, às 19h, os adultos terão a oportunidade de se render aos encantos do moleque perneta, no Museu Mariano Procópio. Se você não tem estômago para histórias de terror, pule fora dessa, pois, conforme Margareth Marinho, responsável pelos projetos de leitura da Biblioteca Municipal Murilo Mendes, o repertório está ainda mais assombroso. Por isso, não podemos aceitar a participação de crianças, avisa Margareth, informando que as inscrições estão encerradas.

Como o corredor não é restrito à região central, a partir das 20h, os componentes do Vitrô Blues levam seu rock para o trevo do Bom Pastor. A plateia vai conferir, em primeira mão, o som de Nas terras do coronel Foguete, mais recente trabalho da banda, gravado no ano passado com apoio da Lei Mendes, além de clássicos de Mutantes, Beatles, Cazuza, Flávio Venturini e Luiz Melodia. ‘Vamos de muito rock’n’roll, blues e jazz, conta o baixista Carreira.

Também às 20h, os juiz-foranos poderão rever o documentário Ibitipoca, droba pra lá, no CineArte Palace. Dirigida pela prata da casa Felipe Scaldini, a produção retrata o cenário atual das pequenas comunidades do entorno da vila, que integra o município de Lima Duarte. O ingresso deve ser trocado, no local, com uma hora de antecedência. O show Viver de verdade, do grupo gospel Vinho Novo é a atração do Pró-Música, às 20h. Pela primeira vez no Corredor Cultural, os músicos farão o lançamento do sétimo CD e segundo DVD, apoiados pela Lei Murilo Mendes.