Novas cores e liberdade
Foi a partir de 13 de fevereiro de 1922 que a arte brasileira se permitiu abandonar de vez os resquícios do século XIX e incorporar novas dinâmicas e referências. Em homenagem ao movimento que mudou os conceitos de arte no país e seus criadores, será inaugurada hoje, no Museu de Arte Murilo Mendes, a exposição Semana de Arte Moderna: 90 anos. O Espaço Lugar de Honra receberá obras de pintura, literatura, tapeçaria, escultura, música e artes gráficas, que reverenciam grandes nomes do modernismo brasileiro, como Mario e Oswald de Andrade, Heitor Villa-Lobos, Anita Malfatti e Victor Brecheret.
O próprio Murilo Mendes mostrou sua simpatia pela irreverência do movimento, em publicação na sétima edição da Revista de Antropofagia, de novembro de 1928. Deodoro todo nos trinques/ bate na porta de Dão Pedro 2º/ Seu Imperado, dê o fóra/ que nós queremos tomar conta desta bugiganga, dizem os versos irônicos de Murilo Mendes sobre a passagem da Proclamação da República.
A reprodução fotográfica da partitura original de Bachianas brasileiras, de Villa-Lobos, dividirá a galeria com reproduções de capas de livros publicados na época, como O homem e a morte, de Menotti Del Picchia, ilustrado por Anita Malfatti; Pau Brasil, de Oswald de Andrade, ilustrado por Tarsila do Amaral; e Pauliceia desvairada, de Mario de Andrade, que conta com ilustração de Di Cavalcanti. Somam-se a esses a consagrada fotografia que reúne o grupo da Semana de 22, no Theatro Municipal de São Paulo, e a capa do programa e do catálogo do evento. A mostra traz ainda – além de reproduções de obras de Anita Malfatti, Victor Brecheret e John Graz – a reprodução da capa da primeira edição do livro História do Brasil, de Murilo Mendes, ilustrada por Di Cavalcanti.
Na Galeria Poliedro, a exposição Réquiem 22, assinada pela artista plástica e professora do Instituto de Artes e Design da UFJF (IAD), Valéria Faria – com colaboração de Daniela Brito e Gleice Lisboa -, também se apresenta como uma oração de homenagem aos 90 anos da semana que revolucionou a arte no Brasil. Uma série de 12 retratos alegóricos foi concebida pelo viés da mimese, em que uma personagem incorpora telas de Anita Malfatti e Di Cavalcanti em livres interpretações. A concepção destas imagens não se pautou apenas na construção formal das pinturas retratadas, mas, sobretudo, no conteúdo provocativo das imagens, buscando explorar o espírito libertário destes artistas, diz Valéria. Entre tecidos e maquiagens, as artistas criaram combinações de cores e texturas com a intenção de causar impacto visual.
Eu tinha 13 anos, e sofria porque não sabia que rumo tomar na vida. Um dia saí de casa, amarrei fortemente as minhas tranças de menina, deitei-me debaixo dos dormentes e esperei o trem passar por cima de mim. E eu via cores, cores e cores riscando o espaço, cores que eu desejaria fixar para sempre na retina assombrada. Assim descreveu a artista plástica Anita Malfatti ao jornalista e crítico de arte Luis Martins, em 1939, sobre o acontecimento que a fez escolher a pintura como profissão. Dona de uma arte pulsante, Anita deixou perplexa a sociedade da época, que não estava apta para assimilar novos valores picturais, de acordo com Valéria. Suas obras vigorosas e emotivas se aderiam aos momentos de mudança das vanguardas artísticas européias. Ao expor uma arte genuinamente expressionista, Anita se mostrou uma artista inquieta e inovadora, avalia.
Di Cavalcanti foi um dos idealizadores e principal organizador da semana histórica, e criou as peças promocionais do evento, como capa do programa e catálogo da exposição. A estética de suas obras abordava a sensualidade tropical do Brasil, enfatizando o universo boêmio e diversos tipos femininos. Sua pintura valorizava os temas de caráter realista voltados à construção da identidade nacional, explica Valéria.
Entre as imagens homenageadas estão O homem de sete cores e A mulher do cabelo verde, de Anita Malfatti, e Arlequim e As mulatas, de Di Cavalcanti.
O Mamm também exibe, a partir de hoje, Territórios imaginários, de Rosana Ricalde, em cartaz na Galeria Retratos-Relâmpago. A mostra traz trabalhos marcantes da trajetória da artista carioca, que utiliza os mapas como recurso poético.
SEMANA DE ARTE MODERNA:
90 ANOS
Espaço Lugar de Honra
RÉQUIEM 22
Galeria Poliedro
TERRITÓRIOS IMAGINÁRIOS
Galeria Retratos-Relâmpago
Abertura hoje, às 20h. Terça a sexta, das 10h às 18h, sábados e domingos, das 13h às 18h. Até 1º de julho
Museu de Arte Murilo Mendes
(Rua Benjamin Constant 790 – Centro)









