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Cerezo será lembrado em mostra no museu


Por RAPHAELA RAMOS

24/04/2012 às 06h00

Zico estava em Juiz de Fora para um momento histórico. No Estádio Municipal, ele faria sua derradeira partida pelo Flamengo, no dia 2 de dezembro de 1989. Após o gol de falta, quando o atacante correu e ergueu o braço direito, Antonio Olavo Cerezo, fotógrafo da Tribuna por cerca de 20 anos, não teve dúvidas. Aquela cena daria uma bela foto. "Eu estava ao lado dele e também fiz um registro, mas não com a mesma paixão. Não consegui algo parecido", comenta o editor fotográfico da Tribuna, Roberto Fulgêncio. A imagem do Galinho é uma das mais famosas de Cerezo, que faleceu há um ano. "Ela reúne três paixões: futebol, Flamengo e fotografia. É a cara dele", acrescenta Fernando Priamo, também da equipe do jornal.

Atento ao patrimônio local, Cerezo mantinha relação forte com o Museu Mariano Procópio. Segundo o diretor da instituição, Douglas Fasolato, o fotógrafo deixou pronta a boneca de um livro com registros do parque. A intenção, como adianta Douglas, é publicar o trabalho. "Isso foi tratado com ele em vida. Nós reconhecemos esse excelente projeto e queremos dar continuidade a ele. Estamos iniciando a busca por recursos." Uma exposição com as imagens também está nos planos do museu, cujo acervo fotográfico, de acordo com Fasolato, é um dos principais do país, com 35 mil itens. "A mostra deve acontecer em setembro, integrando a programação da Primavera dos Museus." Conforme acrescenta o diretor, Cerezo foi o vencedor de um safári fotográfico promovido pela instituição em 2009.

Lua e praia

Roberto Fulgêncio relembra outra iniciativa de valorização da cidade. Ainda no tempo das câmeras analógicas, ele, Cerezo e Priamo saíram juntos, durante meses, para registrar ângulos diversos dos principais pontos locais. Dessa aventura, vieram postais editados pela Tribuna e, segundo Fulgêncio, uma das mais belas imagens de Lua feitas por Cerezo. Aliás, esse era outro tema recorrente para o fotojornalista. "Ele dizia que não era possível conseguir o mesmo resultado do satélite com máquinas digitais." Mesmo sem negar os avanços tecnológicos, o fotógrafo mantinha em sua casa um laboratório para revelações em preto e branco. "Havia nele um lado nostálgico, embora aceitasse e usasse bem as novidades", observa Roberto.

Em um seminário sobre implantação da fotografia digital, Cerezo protagonizou um dos episódios que mais o caracterizam. É o que afirma Fernando Priamo: "eu fiquei responsável por comprar as passagens para o Rio, local do seminário, e optei por horários próximos ao evento. Ele ficou muito bravo comigo, pois não teria tempo para sair, tomar uma cerveja na praia e conversar sobre fotografia e futebol". Para Priamo, o amigo era um fotojornalista nato, preocupado com as questões sociais. O fotógrafo Humberto Nicolini concorda. "Ele estava sempre preocupado com as questões éticas, mas sem colocar de lado a alegria. Nunca o vi fazendo lamentações."

 

Olhar intrigante

Padrinho de Cerezo, Monsenhor Miguel Falabella, da Paróquia São Geraldo, menciona que o afilhado sempre cativou as pessoas pela simpatia e simplicidade. "Quando menino, era estudioso, comportado e muito apegado à mãe." Segundo Falabella, será celebrada uma missa em homenagem ao fotógrafo hoje, às 19h, na Igreja São Geraldo, Bairro Teixeiras. De acordo com Magdalena Ribeiro Matos, mulher de Cerezo, seus registros transmitem sensibilidade em relação à vida e aos fatos cotidianos: natureza, ruas, prédios. "Ele enxergava além do que a maioria consegue, convidando os leitores da Tribuna para ‘viajar’ com as imagens."

Mesmo longe do trabalho, porém, Cerezo mantinha olhar intrigante. "Ele era fotógrafo o tempo todo", resume Magdalena, que ainda não planejou a preservação da obra do marido. "Não me sinto emocionalmente capaz." Roberto Fulgêncio destaca a necessidade de valorização das imagens deixadas pelo amigo. "Nós que trabalhamos com ele e sabemos o quanto era companheiro e talentoso não podemos permitir que caia no esquecimento. Afinal, ele está vivo em sua fotografia."