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Referência sólida


Por MAURO MORAIS

24/02/2013 às 07h00

Quando Pedro Américo de Figueiredo e Mello iniciou a série de estudos em óleo sobre papel que retratava a Conjuração Mineira, logo percebeu a força dramática e histórica da última tela da sequência. Iniciado em dezembro de 1892 e finalizado em janeiro do ano seguinte, Tiradentes supliciado foi o único trabalho transposto para grande formato – são impressionantes 2,7 metros de altura por 1,65 metros de largura. Pretensamente uma leitura crítica do fato que marcou a derrocada do ouro nas Minas Gerais, o quadro, um dos mais importantes do acervo do Museu Mariano Procópio, completa 120 anos desfrutando de crescente prestígio, tanto do meio acadêmico, quanto do universo artístico.

Então deputado constitucional pelo Estado da Paraíba – cargo alcançado em 1890, após ser aposentado da Academia Imperial de Belas Artes, no Rio de Janeiro, com o advento da Proclamação da República -, Pedro Américo este ano faria 170 anos. Já um artista respeitado internacionalmente, o pintor teve sua leitura de Tiradentes renegada pela crítica brasileira, que, apesar de divulgar notas sobre as exposições da obra – feita primeiro nas dependências de um jornal carioca e logo em seguida na galeria Glace Elegante -, não lançou mão de reproduzi-la nas publicações, como era costume da época. Segundo a professora de história da arte do Departamento de História da UFJF, Maraliz Christo, um periódico fluminense chegou a dar espaço para o debate acerca da tela, no qual um professor de estética exaltava a arbitrariedade do retrato histórico, e um escritor defendia a necessidade de um olhar realista sobre os fatos.

Produzido de forma espontânea e independente, o quadro não foi vendido no Rio de Janeiro, mas no mesmo ano de sua conclusão foi comprado pela Câmara Municipal de Juiz de Fora e fixado na sala de reuniões da instituição. Então legislador, Alfredo Ferreira Lage provavelmente foi um dos que incentivaram a posse do trabalho, doado para o museu do qual é fundador em 1922. Com certeza essa é uma das telas mais emblemáticas de nosso acervo. É uma obra-prima que confere muita visibilidade ao museu, comenta o superintendente do Mariano Procópio, Douglas Fasolato, que destaca o grande interesse despertado pela pintura.

Preservada no canto da Sala Tiradentes e exposta em destaque quando o museu estava aberto a visitações, a pintura não recebe qualquer tipo de incidência luminosa indesejada e não está submetida a um controle térmico artificial, o que, de acordo com a museóloga da instituição, Thainá Castro, poderia ser desgastante para a obra, visto os quase cem anos de adaptação ao ambiente. O estado de conservação está perfeito, afirma a profissional, que em 2011 teve suas palavras confirmadas pela organização da 23ª edição da Europália, maior festival cultural da Bélgica, que fez sobressair o Tiradentes de Pedro Américo na exposição Brazil Brasil.

Inicialmente chocante, o corpo fragmentado de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, retratado pela arte, toma outras nuances quando compreendida a sequência sobre a Inconfidência idealizada por seu autor. Essa série explica a tela. É uma narrativa trágica, aponta Maraliz Christo, que se debruçou sobre a pintura em sua tese de doutorado, período no qual estreitou laços com os familiares do artista, estabelecidos em Florença, na Itália, e com os quais conseguiu encontrar os estudos dos trabalhos.

Influenciado pelo livro História da Conjuração Mineira, de Joaquim Norberto de Souza e Silva, o artista projetou cinco obras: a primeira, retratando o poeta Tomás Antônio Gonzaga bordando, distante da faceta de líder; em seguida, a reunião dos conjurados, quando Tiradentes erra ao confiar em quem iria lhe trair; a morte de Cláudio Manuel da Costa, tratada com foco na fraqueza de um traidor; a prisão de Tiradentes; e, por fim, o esquartejamento. A estrutura da série mostra a fragilidade do movimento, denuncia o quanto o pintor desacreditava na Inconfidência, explica Maraliz.

Na análise da professora e pesquisadora, é importante destacar na pintura pontos que definem o personagem como um mártir cristão: a cabeça está posicionada no centro de uma estrutura semelhante a uma cruz; o tronco está em um altar; o braço pende como o de Jesus na Pietà de Michelangelo; o crucifixo, ao lado da cabeça, direciona o olhar de Cristo à cabeça de Tiradentes. O Pedro Américo trabalhou com um esquema muito sofisticado, analisa a estudiosa, apontando como referências para o pintor os quadros Marat assassinado, de Jacques-Louis Davi e A jangada da Medusa, de Theodore Gericault, ambos anteriores ao artista paraibano.

Conforme Maraliz, a tela que impactou ao mostrar um herói aos pedaços justamente no momento em que ele ganhava mais força enquanto mártir da história, vem ganhando cada vez mais atenção da academia e do meio artístico. Esquecida até 1969, quando chegou às páginas da coleção Grandes personagens da nossa história, o quadro tem sido, permanentemente, convidado para exposições dentro e fora do Brasil, além de ilustrar livros didáticos, contribuindo para a formação do imaginário coletivo acerca da Inconfidência Mineira. O interesse por essa pintura é prova da importância dela no cenário das artes no Brasil, defende Douglas Fasolato.

O corpo contemporâneo

Inspiração para os artistas Wesley Duke Lee e Arlindo Daibert, Tiradentes supliciado ganhou leituras à luz da ditadura, com foco na tortura e no poder evidenciados pela tela do século XIX. Em Açougue Brasil, de 1978, Daibert reproduz em crayon sobre papel animais mutilados, relacionando-os ao açougue do avô, na defesa de que as amputações que retratava e a que Américo pintou simbolizam um universo muito mais amplo de violência. Já em Mantenha a liberdade quae sera tamen, produzida em 1979 por Duke Lee, a representação da obra de 1893 é feita em terceira dimensão, numa espécie de instalação que recria a estrutura de madeira e a forca, dando relevo ao formato do corpo de Tiradentes numa tela desenhada com lápis.

Retomando a pintura do herói desconstruído, Adriana Varejão, artista brasileira mais cara da atualidade, produziu em 1998 a instalação Reflexos de sonhos no sonho de outro espelho, na qual pinta, como num jogo de imagens, partes do corpo esquartejado de Tiradentes. Professora de história da arte no curso de comunicação digital da Universidade Paulista (Unip), Regilene Sarzi investigou a relação entre as duas obras para sua dissertação de mestrado, na qual discute a representação da figura humana fragmentada. Para Regilene, o trabalho de Adriana confere um novo sentido à imagem de Américo, atualizando e ressignificando a imagem por meio das linguagens artísticas contemporâneas, no caso, uma instalação.

A pesquisadora também destaca a contemporaneidade do pintor paraibano, que retratou o fato marcante com senso aguçado de crítica contra a sociedade da época. De certa forma rebelde, ao mostrar de maneira pouco convencional o corpo humano, Pedro Américo permanece nos dias de hoje como cúmplice de uma geração que deseja levar aos quadros o corpo com a crueza da realidade. Expoentes dessa contemporaneidade, que revisita o gênero retrato questionando a forma humana, o berlinense Lucian Freud e a inglesa Jenny Saville recusaram o belo, ambicionando um trabalho inquietante. Eles trazem em suas pinturas a herança moderna dos questionamentos sobre o tratamento dos corpos, mostrando uma outra realidade dos mesmos, mais visceral, carnal, como presenças degradadas pelo tempo ou idealizações. Da mesma forma, poderíamos pensar o ‘Tiradentes’ de Pedro Américo, reflete Regilene. Para Maraliz Christo, as leituras de Tiradentes supliciado não se esgotam. A obra tem tantas inquietações que não nos deixa esquecer, conclui.