Entrevista/Gerson Guedes, pró-reitor de Cultura
Desde que recebeu o desafio de estar à frente da Pró-reitoria de Cultura da Universidade Federal de Juiz de Fora, Gerson Guedes não se cansa de afirmar que sua crença no poder transformador da cultura – ideal que permeia seu mandato – está enraizada em suas experiências pessoais. "Se não tivessem me levado até aquela obra de arte, ela não chegaria, sozinha, até mim", conta, recordando a primeira vez em que, ainda criança, numa excursão pelo Museu Mariano Procópio, se encantou com a visão da tela de "Tiradentes supliciado", assinada por Pedro Américo. "Já gostava demais de desenho, mas, naquele instante, algo diferente aconteceu. Logo pensei: será que um dia também conseguirei emocionar as pessoas, como aquele artista fez comigo? Sei que o clima, o espaço e o contexto histórico foram decisivos para que aquele espetáculo ocorresse."
Em visita à Tribuna na tarde de terça-feira, o professor e pintor falou sobre as inúmeras propostas que pretende desenvolver durante sua curta gestão, que termina em 2014. Assumindo-se um sonhador, já que não são poucas as iniciativas previstas, destaca, entre outras ações, os projetos "Juiz de Fora – verbo e cor" (mostra que reúne pintura, literatura e história da cidade), "A idade do serrote" (visita de alunos do ensino fundamental ao Museu de Arte Murilo Mendes), "Ponto futuro" (exposição dos trabalhos de estudantes nos pontos de ônibus do campus da UFJF), além do envolvimento com a Campanha de Popularização do Teatro e da Dança. Também como uma das novidades desse processo de mudança, anuncia, para a próxima segunda-feira, a posse da professora Nícia Helena Nogueira, na direção do Mamm. Neste sábado, iniciando a programação de 2013, o espaço vai abrigar, entre 13h30 e 17h30, o "Microlições de arte". Serão realizadas visitas dinâmicas às galerias de arte, workshop artístico-cultural e ações poéticas. As inscrições, gratuitas, podem ser feitas através do e-mail [email protected] ou pelo telefone 3229-7621.
Tribuna – Você assumiu com a proposta de estreitar o laço com a comunidade. Como você pretende fazer isso?
Gerson Guedes – Sou um homem que pensa, principalmente, em dar oportunidade às pessoas. Esse é o meu grande sonho. Todo mundo está recebendo muita coisa pronta, sem ter o direito de participar e intervir. Nós vivemos hoje uma conjuntura nacional de acessibilidade aos bens de consumo, mas a cultura não está acompanhando esse processo. Ela envolve muitas linguagens e acontece mesmo sem um gestor. A pessoa que vem de uma classe menos favorecida também precisa sonhar. É lógico que a memória é muito importante, mas temos que criar novas referências para as gerações futuras. Onde estão os novos artistas plásticos? Onde estão os meninos que estão escrevendo? O que eles escrevem? Se você perguntar qual a geração de pintores que veio depois de mim, muita gente não sabe. Mas ela existe, só não é mostrada. Por ter atuado como professor por mais de 30 anos em escolas, tenho uma visão didática. E é isso que pode mudar muito a condução dos trabalhos. Quero dar espaços aos alunos da UFJF, para que eles possam mostrar o que estão produzindo. Um exemplo de como isso vai ser feito é o projeto "Ponto futuro", em que serão expostos nos pontos de ônibus do campus os trabalhos dos estudantes. A universidade, como um centro de excelência, tem que estar envolvida, intimamente, nesse processo. Por isso, aceitei esse desafio. De forma alguma vou abrir mão da política social na cultura.
– Chegar à pró-reitoria com essa proposta não significa que até então havia uma elitização da cultura?
– Quero registrar o meu respeito e admiração pelo trabalho que sempre foi feito dentro da universidade. Porém, tenho um enfoque diferente da cultura e pretendo trabalhar dentro dessa linha. Não discuto o que foi feito antes. É um trabalho de qualidade, que tem um alcance diferente do meu, mas que deve ser discutido e avaliado pelas pessoas que estavam envolvidas no processo até aquele momento.
– Alguma iniciativa realizada pelo pró-reitor anterior, José Alberto Pinho Neves, terá continuidade?
– Não podemos descartar, por exemplo, projetos como o "Musica Mamm, o "Selo Mamm" e o "Diálogos abertos." Este último é um registro histórico. Imagine se não tivessem colhido o depoimento de Arthur Arcuri? Foi uma de suas últimas declarações. A ideia é que uma ou duas pessoas que participaram da ação visitem as escolas para conversar com as crianças. É uma fonte riquíssima de pesquisa. A recuperação de arquivos, como está sendo feita com o acervo do Domervilly, também é de extrema importância. Temos ainda que continuar a trazer exposições de qualidade. Em 2011, Juiz de Fora foi a única cidade do interior a abrigar uma parte da Bienal de São Paulo, e a previsão é que isso se repita este ano. Minha intenção é fazer com que os projetos sejam atrativos para o público escolar.
– O projeto "Juiz de Fora – Verbo e cor", previsto para ser lançado no mês de maio, faz um diálogo entre pintura, literatura e história. Isso é o que você sempre buscou como artista plástico?
– Realmente, é o que eu sempre coloquei na minha produção plástica. Por que essa preocupação? Uma questão simples. Se você perguntar para o público mais jovem a origem do nome de sua cidade, muita gente não sabe a resposta. E é preciso que o adolescente conheça isso, pois é um referencial, é a formação de uma identidade cultural. É lógico que hoje as novas mídias trazem informações do mundo inteiro, mas temos que continuar com nossos ‘trens’ na cabeça. Não podemos nos distanciar disso. Então, vamos tentar transmitir conhecimento, associando as três vertentes.
– Você tem muitas propostas para a sua gestão. Acha que consegue colocar em prática tudo isso em menos de dois anos?
– Não acho que dá tempo, mas se eu apontar caminhos, no futuro, uma outra pessoa, que achá-los válidos, pode continuar os trabalhos. O tempo que eu tenho é curto para tanto sonho, mas se eu não deixar registrado o que idealizo, não vai haver uma semente plantada. Não posso me comportar como um mero espectador. Topei o desafio, porque acredito no poder transformador da cultura, passando pela questão da educação. O próprio reitor se dispôs a me dar apoio para desenvolver os projetos.
– Você também tem projetos para a Campanha de Popularização do Teatro e da Dança. Como seria o envolvimento da universidade nesse evento?
– A universidade tem espaços físicos no campus interessantes e que estão lá praticamente ociosos. As apresentações poderiam ser levadas para lá. Às vezes, o aluno não frequenta a programação da Campanha porque não tem tempo, pois está envolvido com a rotina acadêmica. Ali também tem um público flutuante muito interessante, principalmente, nos finais de semana.
– Um dos problemas enfrentados pela classe artística da cidade é a falta de teatro para se apresentar. Existe alguma proposta nesta área, já que a universidade possui alguns espaços?
– Existe a intenção, mas temos que ver a questão de patrimônio. No Central, por exemplo, está prevista uma restauração interna e externa, que deve ser feita entre abril e junho, antes do Festival de Música Colonial. Por isso, não vejo a possibilidade do retorno do projeto "Sérgio Lessa" por enquanto. Lá não pode ter um boom de público, porque alguns problemas podem evoluir. Também acho que é necessário gerar recursos para que ele se auto-mantenha. Quanto às outras casas, como o Forum da Cultura e o Pró-Música, vamos começar a discutir agora com as pessoas que estão na direção, com o objetivo de reavaliarmos a questão de aproveitamento dos espaços.
– Quais são suas propostas para o Mamm?
– Tem muita gente que ainda acha que lá é o prédio da reitoria. Quero levar público para o Mamm. O Mamm precisa sair de dentro dele, ir às escolas e ao Calçadão. O calçadão também precisa ir ao Mamm. A universidade tem espaços que podem ser trabalhados em parceria, até mesmo, com a iniciativa privada. Temos que chacoalhar a formação de público, caso contrário a questão vai sempre se resumir naqueles que vão a exposições atrás, somente, de coquetéis.









