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Dramas e gargalhadas em 2015


Por MARISA LOURES

23/12/2014 às 07h00

Já apresentado no Rio,

Já apresentado no Rio, “Cartas de amor ao próximo”, de Breno Motta, é aguardado para março

Adryana Ryal e Ana Paula Ozório em

Adryana Ryal e Ana Paula Ozório em “Casulo de memórias resignadas”

Caso as projeções se concretizem, Juiz de Fora produzirá, pelo menos, 15 espetáculos inéditos no ano que se inicia. Em alguns grupos, a meta tem sido a busca por um teatro profissional, embora a arte de alguns seja “amadora”, no sentido de quem ama o que faz. Vários dizem investir pesado em pesquisa e formação de atores, o que pode ser um indício de que a cidade caminha para a formação de uma cena local. As companhias apontam que um dos grandes problemas continua sendo a captação de recursos para as montagens, motivo pelo qual, não raro, os trabalhos são postos de pé com dinheiro do bolso do próprio artista. A principal fonte de financiamento no município – a Lei Murilo Mendes – ainda é privilégio de poucos, consequência da pouca verba direcionada para a cultura neste país. Nesta edição, a Tribuna traz algumas das atrações que vêm por aí. Prepare-se, pois as cortinas se abrem já em janeiro com a Campanha de Popularização do Teatro e da Dança.

Da imersão teatral com foco na composição de personagens, comandada por Hussan Fadel, Vinícius Cristóvão e Nane do Bem, sai do papel o projeto “Transformação”. Segundo Vinícius, para quem a base do trabalho são as técnicas do russo Michael Chekhov aliadas à antroposofia, as oficinas culminarão com uma montagem em setembro. Vinícius também se debruça sobre a mistura de música e teatro de “Bach e o divino.” Há chances de o espetáculo ter a participação da renomada pianista Maria Alice de Mendonça. Veterana da trupe de José Luiz Ribeiro, Márcia Falabella lança, em março, o livro “Grupo Divulgação e Théâtre du Soleil: A aventura teatral possível”. Outro a se enveredar pela escrita é Felipe Moratori, que recebeu apoio da lei municipal. “Cordas cor de ais” trará uma pesquisa artística entre teatro e literatura.

Diálogo entre passado e presente

Com “Canção de Ninar (ou Faça o que tem que fazer)”, de autoria da jornalista e atriz Táscia Souza, o grupo T.O.C prepara para maio uma reflexão acerca da Ditadura Militar. “De inspiração brechtiana, o texto é profundamente político, mas no sentido lato do termo, referindo-se à relação do homem com a sociedade”, dispara a autora.

Também pegando carona nas discussões políticas da atualidade, Marcus Amaral e Carú Rezende estrelam “Armário”. Na história, uma escritora de livros infantis vive em um período de recessão. “Tirei essa peça, escrita em 1994, do baú no início deste ano e percebi que o texto é muito pertinente, não está datado”, afirma o autor e ator, que pretende lançar o espetáculo em comemoração aos seus 30 anos de carreira. Ele finaliza suas projeções com a montagem “Cidade dos fantasmas”, de Antonio Coutinho, e “Reticências”, de Tarcísio Dalpra Jr.

Resultado de estudos financiados pela Lei Murilo Mendes, até novembro, a Companhia Teatrando apresenta “O mito de Orfeu e Eurídice”, tendo a colaboração de especialistas nas áreas de literatura e mitologia. Já o cenário levará a assinatura de alunos do curso de arquitetura da UFJF. A diretora Adryana Ryal e Ana Paula Ozório apresentarão na cidade, em junho, o espetáculo “Casulo de memórias resignadas”. “A gente constrói e desconstrói os personagens todos utilizando somente meia-calça”, entrega a atriz, demonstrando posição crítica em relação à cena local. “Acho que, em função de uma ausência de comprometimento artístico, as pessoas, às vezes, tem um amor, tem a pretensão de fazer, mas, quando colocam em prática, esse comprometimento está fraco.”

A recém-fundada Cia Ribalta de Atores prepara o espetáculo “Areal dos ventos”. Morando no Rio de Janeiro, o juiz-forano Breno Motta é aguardado para março com “Cartas de amor ao próximo”. Tudo indica que Mauricio Ribeiro, um dos nomes da Record, também voltará aos palcos locais com “Santidade e perdição”, de autoria de Léo Mota. O projeto, aprovado na Lei Rouanet e em fase de captação, é uma parceria da juiz-forana CorreCotia e a carioca Mãe Joana.

Para a criançada, a aventura do “Diversão em cena”, promovido pela Arcelor Mittal, volta ao Teatro Solar em março. Sob o comando de Trajano Amaral, a Close Produção Artística entra o ano com o infantil “Casaco verde”. “Contos de malassombro” está agendado para outubro pelo grupo Contaê, comandado por Cintia Brugiolo. A temporada ainda inclui, em outubro, “É proibido miar”, adaptação de Nilza Bandeira James para livro homônimo de Pedro Bandeira.

O que já passou

O ano começou tímido por aqui, e as produções só engataram mesmo no segundo semestre. A classe preferiu aguardar o fim de um espetáculo de proporções muito maiores – a Copa do Mundo no Brasil – para acelerar com os trabalhos. Ainda não se pode falar que Juiz de Fora entrou na rota dos grandes espetáculos, embora nomes de peso tenham passado por aqui, como a dupla Cláudio Botelho e Charles Möeller, com “Milton Nascimento – Nada será como antes”, e Maitê Proença e Clarisse Derzié Luz, em “À beira do abismo me cresceram asas”. Foi nesse ano que a cidade viu surgir a Companhia INmundos e sua “Estação dos passageiros invisíveis”. O texto de Rafael Coutinho agradou o público com boas doses de ficção misturadas à realidade. No mesmo período, o monólogo do jovem Vinícius Cristóvão, “Casa dos espelhos”, impressionou em uma dobradinha, ao vivo, com o grupo 4zero4. Em meio aos mais experientes, os destaques são a Caravana Mezcla de Palhaços, em “Electra! Perdida num mundo de palhaços”, e o Grupo Divulgação, com “Cuidados de amor”, seguida de “Gritos dissonantes”.

Convidado para a abertura do Festival Nacional de Teatro, “O tempo e os Conways” trouxe para Juiz de Fora a atriz Julia Fajardo, filha de José Mayer, sob a direção da mãe Vera Fajardo. Contudo, o que viria a ser uma das maiores surpresas do evento ficou reservado para o segundo dia. Filha da terra, Suzana Nascimento fez uma plateia inteira verter lágrimas e sorrir por quase duas horas com “Calango deu! Os causos da Dona Zaninha” – um dos maiores acertos da edição de 2014. Para 2015, ela planeja retomar “A menina Edith e a velha sentada”, do ator Lázaro Ramos. No último dia, o grupo Lume, de Campinas, cerrou as cortinas com “Shi-Zen, 7 cuias”. Para alguns espectadores, a montagem pesou um pouco a mão na proposta contemporânea.