Ouça agora

Inesgotáveis leituras


Por Leonardo Toledo

23/10/2011 às 08h00

Um dos parâmetros para se avaliar a qualidade literária de uma obra é sua capacidade de continuar gerando novas leituras apesar do tempo. Cem anos não foram capazes de esgotar as questões presentes no legado de Euclides da Cunha. Apesar de pequena em extensão, a obra do escritor se vale da profundidade de "Os sertões", que desafia classificações ao misturar jornalismo, reflexões sociais e estudos de geografia, história e crítica humana. Dos seis artigos reunidos no livro "Euclides da Cunha, cem anos sem", cinco referem-se à obra-prima. Terceira publicação do selo Mamm, a edição tem como origem o seminário homônimo realizado no Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm), em 2009, ano do centenário de morte do escritor.

Um dos textos mais curiosos da publicação, entretanto, refere-se ao segundo grande projeto de Euclides da Cunha, que não chegou a ser finalizado. Trata-se de ensaios deixados pelo escritor a respeito de sua viagem pela região amazônica, em 1905. O jornalista Daniel Piza refez em 2009 o trajeto percorrido pelo autor, em sua jornada como chefe da Comissão Mista Brasileiro-Peruana de Reconhecimento do Alto Purus. Para Piza, Cunha embarcava novamente em uma tentativa de desvendar o "Brasil profundo", a exemplo do que fez ao registrar a Guerra de Canudos, em "Os sertões".

Organizada por José Alberto Pinho Neves e pela coordenadora do Mestrado em Letras do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CES-JF), Nícea Helena Nogueira, a edição traz, ainda, a palavra de críticos literários de renome, como Luiz Costa Lima, autor do livro "A construção de ‘Os sertões’" (2007).

Professor da Universidade Federal da Paraíba, Rinaldo de Fernandes avalia a repercussão internacional da obra ao traçar uma comparação com "A guerra do Fim do Mundo", do Prêmio Nobel peruano Mário Vargas Llosa. Publicada em 1981, a obra tem como inspiração a Guerra de Canudos e promove um diálogo com os relatos de Euclides da Cunha.

Já os pesquisadores Marcos Rogério Cordeiro, da UFMG, e Flávio Kothe, da Universidade de Brasília, avaliam as contribuições de "Os sertões" para a literatura brasileira, entre a filiação a uma tradição e elementos inovadores, na busca de conciliar ciência e arte.

Segundo o pró-reitor de Cultura da UFJF, José Alberto Pinho Neves, "Euclides da Cunha, cem anos sem" dá início a uma série de publicações baseadas em eventos realizados no museu. "Os livros são espelhos das atividades culturais que estão sendo desenvolvidas no museu. Esta obra, especificamente, é uma extensão dos seminário, uma vez que os artigos publicados são os textos preparados para a ocasião. A intenção é propagar essas ideias, distribuindo as obras em bibliotecas", comenta Pinho Neves.

Entre as próximas novidades da editora, estarão livros sobre os seminários "Rosa, João Guimarães" e "Murilo Mendes: retratos-relâmpago", além de uma edição dedicada à palestra que a escritora Rachel Jardim proferiu na ocasião da exposição "Doce França" (2010), com uma comparação entre as obras de Machado de Assis e Marcel Proust. Sob a chancela do Mamm, também está em fase de finalização um livro que tem o Cine-Theatro Central como tema.