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Uma luz no fim do túnel


Por ADEMIR FERNANDES, COLABORADOR

23/09/2011 às 07h00

Num tempo em que sensualidade e violência estão entre os elementos apelativos mais usados, inclusive por autores consagrados, considerando-os atrativos maiores para os telespectadores, achamos que estão equivocados e acomodados. Embora tais aspectos também façam parte da vida, há muitos outros que falam à mente e ao coração dos amantes da telinha: criatividade inteligente, comicidade natural, estilo reformulado, ação, aventura, direção, texto, produção e elenco equilibrados. Encontramos tudo isso na belíssima, humorada e inteligente Cordel encantado, de Thelma Guedes e Duca Rachid, com direção de Amora Mautner.

Quando a teledramaturgia brasileira comemora 60 anos, penso que a citada novela é o seu verdadeiro marco. Se estivesse no horário classificado como nobre, sua audiência seria ainda maior. Usando um formato diversificado e agradável a todas as idades, resgata uma linguagem estilizada de cordel, mistura de modo simples, mas muito elegante, os elementos de seu enredo, falando de política, religião e sociedade com realismo atualizado, mas também com um humor ímpar que dispensa apelações. O fictício Reino de Seráfia do Norte, o vilarejo Brogodó e o sertão brasileiro são os ambientes para as situações mais sérias ou muito divertidas.

Com muita propriedade, os autores souberam misturar os ingredientes e ofereceram aos telespectadores o digerível e fabuloso manjar. Produção e direção apresentam de maneira atraente a fotografia, cenários e figurinos bonitos, além do trabalho primoroso de atores e atrizes excelentes, tornando até difícil encontrar quem não esteja bem na novela. Todos estão ótimos, mas é claro que há os destaques inquestionáveis, tanto entre os atores mais novos quanto no meio dos veteranos. Bruno Gagliasso, Débora Bloch, Zezé Polessa, Mateus Nachtergaele, Ilva Niño, Mouhamed Harfouch, Osmar Prado e Marcos Caruso mostram seu talento e dão um show de interpretação, aliás, como em tudo que fazem. Mas vale ainda destacar três nomes que fazem grande diferença positiva, acrescentando potencial à trama: João Miguel e seus excelentes disfarces, Domingos Montagner (o capitão Herculano) – que nem parece um iniciante em novelas, pois, sempre que está em cena, torna-se dono dela -, e, para nossa alegria, temos a juizforana (do bairro São Judas Tadeu, Zona Norte) Andréia Horta (a Bartira) também mostrando mais uma vez os seus grandes dotes artísticos.

Na escolha do elenco, buscaram artistas de circo, televisão e teatro, em especial que sabem fazer humor ou drama, fortalecendo ainda mais o propósito da novela. Tudo isso, claro, levou ao resultado maravilhoso que constatamos e nos deliciamos. Princesa, reis, cangaceiros e outros tipos muito interessantes provam que, para escrever, dirigir, produzir e atuar em uma novela que faz bem à saúde física, moral e psicológica do telespectador, não precisam estereótipos exagerados ou apelações de sexo e matança. Não desmerecendo outros autores que também considero excelentes, apesar de estilos diferentes, reitero que é necessário apenas mente limpa e empenhada em desenvolver obras bonitas e simples, renovando sempre o estilo para fugir das mesmices previsíveis.