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Moda engajada


Por Tribuna

23/08/2011 às 07h00

Tribuna – Você parece lançar sempre um olhar apaixonado sobre a moda, quando fala do assunto. Como foi abrir mão de sua grife?

Carlos Tufvesson – Sou um profissional de moda e sempre serei. Mas é muito difícil manter uma empresa no Brasil, onde não há a figura do empresário de moda. É uma questão que surgiu na Europa, nos anos 1980, e ainda não discutimos. Por aqui, sua vida vira uma coisa muito mais administrativa no final das contas. E isso não é a coisa que sei fazer melhor. Não estava feliz. Acho isso uma discussão que vamos ter que enfrentar no país. Principalmente agora, com essa questão do dólar, com o mercado sofrendo uma concorrência pavorosa. Temos que entender a moda como business.

– O que dificulta essas mudanças no Brasil?

– A gente vem de um modelo em que o estilista tinha que arcar com toda a produção. Na Europa e nos Estados Unidos, por exemplo, não é assim. Sempre são empresas que produzem. O calendário de moda do Brasil desconsidera o comércio. Por exemplo, hoje em dia, lança-se a coleção de inverno em pleno fevereiro, quando, no Rio de Janeiro, faz 45 graus. Uma vez, vi uma cena em que uma loja exibia um casaco de lã na vitrine, e uma menina, que saía da praia de biquíni, estava olhando e dando gargalhada. A brasileira não compra uma roupa para usar daqui a três meses, mas para vestir no dia seguinte. Tanto que eu tinha sempre duas costureiras de plantão para servir minhas clientes. Enquanto isso não for considerado, a gente vai enfrentar questões como os clientes de liquidação, que têm sido um grande problema para as lojas. Para que você vai comprar um casaco a preço cheio, se só irá usá-lo em junho, quando estará pela metade do preço? E aí entra o problema da concorrência externa.

– Os calendários de desfiles brasileiros são pensados conforme as semanas de moda internacionais. Isso é reflexo de uma produção nacional pautada no que acontece no exterior?

– Vamos às realidades: então, a semana de moda vai ser em fevereiro, quando ainda não estão acontecendo as semanas de Milão e Paris. Mas, quanto é que a gente exporta para a Europa e para os Estados Unidos? Vamos ver se vale a pena? Porque, na verdade, 98% do consumo da moda brasileira é estabelecido no mercado interno. Temos que pensar primeiro nesse mercado. Essa conformidade com as semanas internacionais só traz realmente uma mídia. Muitos jornalistas de fora vêm para cobrir, mas, depois, acabam dando meia página para a semana inteira. Isso me incomodava bastante. Via clientes lojistas com dificuldade em se adaptar a essa situação. Lá fora, a gente tem seis meses para a primeira entrega. Aqui você tem que entregar as vendas em até 15 dias depois da compra.

– Como está sua relação com a moda hoje, em termos de produção?

– Faço todo ano uma campanha chamada Moda na luta contra o HIV. No ano passado, o lançamento foi no Palácio da Cidade (Rio de Janeiro), e o prefeito (Eduardo Paes), na ocasião, na frente de toda a imprensa, disse que estava abrindo a Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual e estava publicamente me convocando para ser titular da pasta. Não tive como recusar. Não achei que fosse me adaptar, mas pensei que seria importante estruturar aquilo. Passados seis meses à frente do órgão, estou apaixonado. Trabalho até as 21h. Não dá para conciliar. De vez em quando, faço um vestido de noiva para uma cliente, por carinho. Mas não dá para fazer uma coleção nesse momento. Estou muito entusiasmado e focado nesse trabalho. Tem muita coisa a ser feita. Ainda quero contribuir para a moda, para gerar emprego e alinhar a cadeia de produção. Não preciso estar como estilista para exercer essa profissão, de maneira a ter resultados para o país.

– A criação de um órgão oficial relacionado à moda seria interessante para o mercado?

– A moda é tão desprestigia que não existe um conselho regional ou nacional. É um setor que gera tanto emprego, que deveria ter uma atenção maior do Governo federal. Não adianta as atenções estarem voltadas apenas para exportação ou favorecer empresas que são muito grandes. A beleza do setor de moda se dá pela junção de pequenas empresas.

– Você costuma destacar a importância de estudar a história da moda. Acha que já deixou sua marca na história da moda brasileira?

– É horrível responder essa pergunta, porque sou eu que estou falando. Preferia que perguntasse a uma editora especializada. Mas, como profissional, não poso deixar de dizer que, se a gente está falando de moda hoje é porque meu nome está em sua história.

– Quando ingressou na militância pelos direitos dos homossexuais?

– Quando morava na Itália, percebi que, se construísse uma vida lá, meus direitos seriam diferenciados por eu ser um homem casado com outro homem. Ali comecei a entender que a lei não pode ser desigual para todos. A nossa constituição também diz isso. Foi quando a então deputada Marta Suplicy lançou o projeto de união civil, em 1995. Tem toda uma geração de militantes que foi muito embalada por essa onda, em que, pela primeira vez, se discutia a questão na América do Sul. É uma lástima que hoje em dia, passados 16 anos, nós que, como diz a Marta, éramos a vanguarda dos direitos civis estamos nos tornando a vanguarda do atraso. A Argentina aprovou a união civil entre pessoas do mesmo sexo, e nós estamos ainda com o projeto da Marta parado e já defasado. É importante população saber que não há nada que proíba a união entre pessoas do mesmo sexo. É uma relação de amor, e a gente precisa deixar isso claro. Se aceitasse o fato de que sou um cidadão de segunda categoria, largaria a militância.

– Quais os motivos para esse atraso mencionado por você?

– Houve um aumento da interferência fundamentalista religiosa na política nacional. No país, a quarta maior causa de mortes para mulheres é o aborto, e a gente fica discutindo ainda se deve o SUS dar o direito a uma cidadã – que vai abortar de qualquer jeito – de fazer isso de maneira que resguarde a vida dela. Isso é papel do gestor, não existe razão técnica para que isso não seja discutido, a não ser a interferência religiosa. Sou super religioso. Todas as religiões devem ser respeitadas. O que não pode é o legislador agir em função da sua crença. Se não, qual livro sagrado seria escolhido para ser o código civil? Estamos em um país plurirreligioso. É óbvio que as igrejas não serão obrigadas a casar ninguém. É o Estado que tem que fazer isso.