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De volta à Croisette


Por JÚLIO BLACK

23/05/2015 às 04h00

Shayra Monteiro e Mia Mozart integram a Submerso Produções, que conseguiu levar dois curtas a Cannes

Shayra Monteiro e Mia Mozart integram a Submerso Produções, que conseguiu levar dois curtas a Cannes

A França é o país que deu ao mundo alguns dos melhores cineastas do século XX: gente como François Truffaut, Jean-Luc Godard, Alain Resnais e Eric Rohmer, que participaram do movimento Nouvelle Vague. É, ainda, a terra de Alain Delon, Gérard Depardieu, Catherine Deneuve, pátria em que o polonês Krzysztof Kieslowski filmou a célebre “Trilogia das cores” e Quentin Tarantino gravou parte considerável do insano “Bastardos inglórios”. É na França, ainda, que é realizado anualmente o Festival de Cannes, o mais importante evento do gênero para a Sétima Arte.

Além das grandes produções, o festival abre espaço para jovens e promissores cineastas, caso da mostra não competitiva “Short film corner”, apenas com curtas-metragens. Entre as obras selecionadas esse ano, está o curta “Azul”, produzido em Juiz de Fora pela Submerso Produções, associação de quatro jovens (Mia Mozart, Shayra Monteiro, Anna O. e Fernanda Rebelatto) interessadas em fazer arte a partir do cinema e que pelo segundo ano consecutivo tiveram um trabalho selecionado para exibição no festival francês, que tem encerramento neste domingo.

Dirigido por Mia Mozart, 22 anos, “Azul” foi realizado em fevereiro com o mesmo princípio do curta-metragem selecionado em 2014, “2 segundos”: menos (dinheiro) é mais. Foram investidos apenas R$ 150 para a compra de um aquário, peixe ornamental, bolo, material para sangue falso e alimentação da equipe – o que pode ser considerado uma “fortuna” em comparação ao filme anterior, executado com meros R$ 15. Como explicam Mia e Shayra, o “milagre” é possível graças à ajuda de amigos e familiares, que cedem equipamentos (como uma steadycam), locações (a casa do diretor de fotografia, Cassio Tassi), e mobiliário (por parte da mãe da diretora), entre outras ações entre amigos. “Começamos a gravar com uma equipe mínima, e, de repente, foi chegando um monte de gente para ajudar”, conta Mia Mozart.

Com as filmagens realizadas em praticamente um dia, foi a vez de correr contra o tempo para conseguir entregar o curta até o encerramento das inscrições para o festival, em março, contando com a ajuda de Tadeu Carneiro para a pós-produção.

“A gente sabia que queria participar novamente do festival, então em janeiro eu e a Mia nos reunimos com a Anna e começamos a discutir um roteiro. Cada uma expôs o que queria, e as ideias foram convergindo no ‘Azul’, que resultou nas nossas visões sobre os personagens e que esperamos que possam ser percebidas pelo espectador”, conta Shayra Monteiro, 24 anos. O curta-metragem de dez minutos, sem falas, é centrado nos personagens sem nome interpretados pela própria diretora e o ator Samir Hauaji. Eles mostram a relação de um casal, com enredo aberto à interpretação do público.

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O filme tenta, na opinião de Mia e Shayra, deixar que a audiência preencha todos os “espaços” da história do casal a partir de suas próprias experiências. “São duas pessoas, uma casa, uma história de vida, uma rotina que você, de acordo com suas referências, vai encaixando suas peças”, resume Shayra. “É uma história que se pode contar sem diálogos, é quase como um livro para colorir”, emenda a diretora. Para contrabalançar os silêncios, “Azul” teve trilha sonora assinada por Jorge Almeida e William Moreno.

Conhecendo o cinema enquanto indústria

As quatro integrantes da Submerso preferiram abrir mão de ir até a França este ano para guardar o dinheiro para o próximo projeto, que deve ser um longa idealizado por Mia após a experiência em Cannes. As duas semanas passadas na Croisette em 2014, aliás, serviram de aprendizado para elas não apenas no que diz respeito à arte, mas também em relação a tudo o que envolve a indústria cinematográfica.

“A primeira coisa que vimos em Cannes é que precisávamos ter um nome”, diz Mia. “Não dá para responder ‘esse é um filme de fulano de tal’, porque ninguém nos conhecia. Resolvemos então criar a Submerso Produções para atrelar o que fizermos a uma marca. Aprendemos também que precisamos ter um cartão de visitas, flyer divulgando o filme. Vimos que é um nível profissional muito alto, o pessoal de Hollywood estava lá, aprendemos que deveríamos conversar com as pessoas, nos comunicar, explicar a proposta do curta, e conhecer o inglês era essencial. Para nós, a princípio, a missão era apenas estar lá, essa outra etapa era inimaginável”, continua Mia.

Além de conhecer os meandros da indústria da Sétima Arte, Mia, Shayra, Fernanda e Anna tiveram a oportunidade de acompanhar sessões e topar pelas ruas com alguns dos principais astros do cinema, como Quentin Tarantino, Julianne Moore, Adrian Brody, Sofia Coppola e Catherine Deneuve.

Novo projeto

Com exibições diárias em Cannes, “Azul” poderá ser assistido por meio do site oficial do festival por cerca de 90 dias a partir desta segunda-feira, segundo o quarteto. Durante esse tempo, a Submerso vai continuar a trabalhar em seu primeiro longa-metragem. “Já vai ser um salto, mas ainda não o suficiente, então vamos tentar apoio público e privado para realizá-lo”, diz Mia.

“Preferimos fazer os dois curtas sem apoio, mas depois de Cannes estamos mais seguras, provamos que estamos fazendo um trabalho sério.” Shayra também reconhece a importância de ter dois curtas no festival francês. “Depois que voltamos, as pessoas sabiam quem era a gente e estão dispostas a ajudar.”

Autodidatas no ofício cinematográfico (nenhuma delas fez faculdade de cinema, e Mia trabalhou em uma produtora apenas ao regressar da França), elas não têm medo em reconhecer que o caminho do aperfeiçoamento mal começou. Mas o que ainda cria um frio na barriga do quarteto é apresentar seu trabalho “em casa”. “Não nos inscrevemos até hoje no Festival Primeiro Plano pela ansiedade de ter pessoas próximas assistindo aos filmes, ter a crítica ‘na cara’, receio de ouvirmos ‘nossa, vocês conseguiram ir para Cannes com isso?’. Mas isso pode mudar”, encerra a diretora.

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