Caetano Brasil e a Big Band do Conservatório de Tatuí lançam álbum ‘Tataporã’

Com quase 40 pessoas envolvidas, projeto artístico chega às plataformas de música nesta sexta-feira


Por Elisabetta Mazocoli

22/05/2026 às 06h15

caetano brasil e big band
(Foto: Divulgação)

Era maio de 2025 quando Caetano Brasil foi a Tatuí, a convite de Diego Garbin, para fazer um concerto junto com a Big Band do Conservatório da cidade. Esse encontro foi o combustível do que, mais tarde, seria o álbum “Tataporã”, que chega às plataformas de música nesta sexta-feira (22). O músico ficou tocado ao ver o fogo com que os estudantes tocavam, e decidiu transformar o trabalho colaborativo em uma gravação. Juntos, meses depois, viraram fogo mais uma vez. É isso que as palavras “tata” e “porã”, do tupi-guarani, significam, formando a expressão “fogo bonito”. A reunião de cerca de 40 profissionais em torno do trabalho artístico, para Caetano, vai na contramão do que costuma ser feito hoje na música com a precarização da profissão. E, ao mesmo tempo, é justamente a partir deste ponto que foi possível explorar as potencialidades de cada um. 

A inspiração do álbum veio desse encontro despretensioso, e do quanto Caetano se viu naqueles jovens aprendendo e no início de suas carreiras. “Quando fui para lá ensaiar o concerto, me impressionei muito com o fogo que eles tinham para tocar. Me vi ali com 16, 17 anos, doido pra fazer música e tocar com todo mundo, doido para ir em todos os lugares. É uma chama que a gente precisa manter viva enquanto artista. Mas que às vezes a lida de fazer disso uma profissão não colabora tanto.”

Para ele, enxergar essa chama novamente foi muito inspirador para que ele se reconectasse com algo nele mesmo, e que o levou a começar a elaborar o álbum, que tem sua direção musical e arranjo ao lado de Diego Garbin. “Cada momento importa e cada oportunidade de fazer música é grandiosa. Quando vi eles tocando em tão alto nível e com tanto tesão, foi muito inspirador”, relembra. O projeto também teve a parceria da Fatec Tatuí. 

A partir da decisão de que o concerto se tornasse um projeto maior, também percebeu que a música precisava ser “intensa e quente como a Big Band toca”. O álbum, então, passou a incorporar composições feitas especialmente para esse trabalho, formando oito faixas que também trazem releituras e músicas contemporâneas, como “Pro Zeca”, de Victor Assis Brasil, “Ternura”, de K-Ximbinho, “Romani”, de Caetano Brasil, “Raízes”, de Diego Garbin e “Vagante” de Caetano Brasil.

Ele conta que também foi importante ao menos tentar trazer uma equiparidade entre compositores homens e mulheres, e trouxe as músicas “Jaboatão”, de Tia Amélia, e “Teimosa” de Anat Cohen e “Mergulho” de Daniela Spielmann. Todo esse trabalho coletivo, como destaca, foi o que permitiu “dar o tom” ao projeto: “Era preciso entender uma música que coubesse nesse lugar, no sentido de que quando a gente escreve arranjos, e eles são grandes, mais do que escrever para os instrumentos, a gente está escrevendo para aquelas pessoas, para o momento de vida e para o momento técnico delas”.

Para ele, também se trata de uma troca que precisa ser horizontal — e que é isso que o agrada tanto na confecção quanto no resultado final do álbum. Nesse processo, é claro, o improviso também precisou ter espaço. “Eu sou um improvisador, antes de ser um improvisador com meu instrumento na boca, eu sou um improvisador na vida. Improvisar é um estado de espírito que a gente leva para dentro da música”, diz.

Extensão desse processo também é identificar esse trabalho dentro de uma expressão da sua subjetividade enquanto pessoa LGBTQIAPN+ e preta. “Não queria passar despercebido ou ficar em um lugar comum dentro do meu nicho, que é a música instrumental. Eu tenho me colocado já há muito tempo na arte e no mercado como um outsider, alguém que quer deixar sua marca criativa por ser distinto e que vem unindo o trabalho com a moda e a militância”, destaca. Para ele, cada detalhe do álbum também precisava se relacionar com isso, ou não seria ele.

caetano brasil e big band
(Foto: Divulgação)

Brasa múltipla

Ao partir do choro para dialogar com o jazz, a música brasileira e diferentes tradições sonoras contemporâneas, Caetano Brasil entende que é justamente essa multiplicidade que dá tom ao álbum. É uma brasa múltipla, afinal, que surgiu desse encontro. “Esse Brasil do qual a gente fala é um Brasil de múltiplas caras. Às vezes a gente fica, aqui no sudeste, reduzindo uma cara de Brasil a um eixo RJ e SP. Mas o Brasil é muito mais que isso. Qualquer oportunidade de criar um retrato dessa nação precisa contemplar essa multiplicidade.” Na sua perspectiva, nada mais justo e natural do que pensar nessa construção de uma unidade e uma identidade por meio do múltiplo e dessas muitas caras que o Brasil tem.

Nesse processo, a ideia era criar uma unidade em torno do conceito de “um Brasil cosmopolita e contemporâneo” e que soasse como algo fresco para quem estivesse escutando. “Apesar da gente ter escolhido as músicas que a gente queria e escrito como a gente queria, sem fazer concessões, porque não acho que é o papel do artista mastigar tudo pro público ou dar tudo que eles já conhecem, acho que fizemos uma música muito gostável. Conecta a gente com essa ideia de um Brasil essencial.” Mas, para ele, também foi justamente isso que fez com que fosse fácil se relacionar com essa música.

Para contagiar

caetano brasil e big band
(Foto: Divulgação)

A capa do álbum é um veado-sem-cabeça, reconstrução da “mula-sem-cabeça”, que aparece atingido por uma flecha, como uma referência às pinturas de Frida Kahlo. O artista explica que a elaboração de Renan Torres foi no sentido de buscar representar como foi que ele “pegou fogo” quando foi atingido pelo trabalho da Big Band.

Inclusive, foi assim que também o nome do álbum nasceu: ele foi pesquisando a etimologia da palavra Tatuí, e algo que também exprimisse a ligação que tiveram. Como descobriu que o nome da cidade vinha do tupi guarani, encontrou “tata” e “porã” da mesma língua para exprimir a ideia que sentiu. “Depois, ainda descobri que uma das possíveis etimologias para a palavra catapora é ‘tatapora’, que também viria do tupi, como algo que queima e é contagioso. Ou contagiante. Então acho que é algo que casa perfeitamente”, reflete.

Apesar de não saber ao certo o que acontece quando um trabalho é colocado ao mundo, e parte do fascínio do trabalho para ele ser justamente esse, Caetano Brasil tem clareza de que possui um desejo: “Quero que esse fogo que a gente colocou na música inspire as pessoas, inspire músicos a tocar esse tipo de repertório e as pessoas a estarem juntas, apesar da tendência de reduzir tudo e fazer tudo no digital. É possível e é importante criar pretexto para os encontros e trocas que podem surgir quando a gente se movimenta”.