Museu pode ter parceria com Inhotim
Diante da plateia local – interessada em ouvir discussões na mesa-redonda "O papel dos museus na sociedade", promovida pelo Museu Mariano Procópio na última quarta -, o curador Rodrigo Moura pergunta quem já esteve no Inhotim – Instituto de Arte Contemporânea e Jardim Botânico, onde ele atua desde 2004. Poucas pessoas levantam a mão. Rodrigo se mostra disposto a intensificar a relação entre a instituição localizada em Brumadinho (MG) e o museu local. Essa é a segunda vez que o curador e crítico de arte vem à cidade. A visita de estreia se deu em 2002, por conta de uma pesquisa com arquivos de Pedro Nava, uma espécie de herói para Moura. "Tenho grande admiração por ele como escritor e figura pública."
Na quinta, percorrendo os prédios que guardam a coleção de Alfredo Ferreira Lage, o curador ouve atentamente informações sobre os itens de fotografia. Entre quadros escondidos por tecidos negros e peças à espera de tratamento, ele visualiza possíveis intercâmbios para os territórios. "O Mariano Procópio é uma espécie de Inhotim do século XIX ou do começo do XX", compara. Rodrigo – que, como ele mesmo brinca, possui escritório nos aviões – já trabalhou no Museu de Arte da Pampulha, em Belo Horizonte. Em 2008, foi curador da mostra "Paralela – de perto e de longe", no Liceu de Artes e Ofícios, em São Paulo, e, no ano seguinte, da exposição "Mirante", individual de Mauro Restiffe no PhotoEspaña, em Madri. Pouco antes de retornar ao seu "escritório", ele conversou com a Tribuna.
Tribuna – Em entrevista à Tribuna, o dramaturgo e curador Antônio Cava afirmou que, em nenhuma situação, a tecnologia deve relegar a obra a segundo plano. De que forma você procura lidar com a tecnologia atrelada à arte?
Rodrigo Moura – É um pouco perigoso querer atualizar as exposições com a tecnologia só porque as pessoas estão acostumadas a lidar com ela. Acho sim que o campo da arte tem a possibilidade de encontro de vários tempos. A pintura a óleo, um advento do final da Idade Média, convive tranquilamente com a animação digital, um advento dos anos 1980. Mas não podemos esquecer que existem muitas passagens, que uma coisa não substitui a outra. Elas convivem no tempo histórico. Tenho a desconfiança de que se trata de uma solução fácil trazer a tecnologia para as mostras, dizendo que ela oferece mais facilidade aos fruidores. Muitas vezes, o público interage com a tecnologia de uma maneira estéril e não permite que aquilo frutifique como mediação qualificada. Mas há outro aspecto. Realmente, a tecnologia nos ajuda a ter acesso à informação de maneira rápida e direta, sem precisar de movimentações físicas. É uma facilidade. Ela só não pode competir com o objeto em exposição. Muitas vezes, porém, ela se sobrepõe.
– Segundo a arte-educadora do Inhotim, Maria Eugênia Salcedo, a instituição, muito mais que atrair espectadores, lança convites de deslocamento. Como isso acontece?
– Nosso objetivo, claro, é sempre atrair pessoas. Uma coisa não exclui a outra. Mas a gente também trabalha fora da instituição, buscando uma interação com a comunidade. O museu vai à comunidade. Lança convites e não apenas cede aos desejos do público para atraí-lo.
– De que maneira você compreende a relação entre espectador e arte contemporânea?
– Às vezes, tem-se a noção de que a arte contemporânea é difícil, hermética, misteriosa. Na verdade, ela oferece uma série de facilidades para o indivíduo. Existe ali uma desnaturalização do cotidiano que age como portas de entrada. O que fazemos no Inhotim em termos de conceito de mediação é procurar não criar uma estrutura autoritária de conhecimento. Consideramos que a porta está sempre aberta para o espectador. Ele pode entrar, trazendo bagagens, referências e repertórios e ter um encontro individual com a aquilo que está vendo, do ponto de vista de criação de significado. Não precisamos ensinar como ele vai gostar daquilo, basta dar a ele a possibilidade de gostar daquilo. Explicamos, mas a pessoa pode entender como quiser. Não existe um jeito só, não há bula. E isso é próprio da arte, não é algo que estamos inventando. A arte é assim, aberta por natureza. Não é nunca um conteúdo imposto de cima para baixo.
– Durante a mesa-redonda proposta pelo Museu Mariano Procópio na última quarta, você disse ficar preocupado com a proliferação de instituições pelo país. Por que esta questão pode ser um problema?
– Abrir um museu novo, em certa medida, é matar um museu velho. Não falo apenas de museus, mas também de centros culturais. É preciso que haja um respeito pelas missões que já existem. Difícil na sociedade é ter uma missão clara. Essa lógica muito acelerada do capital e das instâncias governamentais próximas das empresas possibilita a criação de equipamentos culturais sem uma missão muito clara. Não estou dizendo que é regra, mas digo que acontece. E isso me preocupa, pois, às vezes, tira-se luz de uma instituição com história e corpo de acervo maravilhoso simplesmente porque o fato novo atrai atenção. Para a mídia, um espaço de muitos anos não tem tanto interesse.
– Essa preferência pelo novo também se dá por facilidades financeiras?
– No Brasil, um país muito jovem, isso realmente acontece. Iniciamos projetos sem nos preocupar com a maneira como vão terminar. Essa é um questão para todos os envolvidos no campo cultural: a sustentabilidade das propostas.
– Você conhecia o acervo do Museu Mariano Procópio? Quais as suas impressões?
– Só conhecia de nome e literatura e sabia da sua importância. Agora, tive a oportunidade de visitar os prédios, as dependências e ver de perto a coleção absolutamente impressionante, que está sendo catalogada, higienizada e tratada. Esse museu é um dos mais impressionantes que já vi na vida. No país, existem poucas instituições com essa história. Possuo grande interesse de pesquisa em fotografia. Tive a chance de ver os álbuns e as pastas da coleção, sobretudo do século XIX, que, pelo que pude ver, merece toda a atenção, assim como o acervo inteiro. Trata-se da história de uma família, de uma frente de desenvolvimento do Brasil tão ligada à mentalidade de uma época, o século XIX. São raríssimas as oportunidades de ver um lugar assim. Isso é um legado importantíssimo para a cidade, o estado e o país.
– Acha que pode haver mais intercâmbio entre os museus de Minas?
– O fato de eu estar aqui pela primeira vez já é um exemplo de intercâmbio. Estamos conversando sobre possibilidades. São acervos e perfis de atuação muito distantes, mas, o Mariano Procópio, com parque e pavilhões, é uma espécie de Inhotim do século XIX ou do começo do XX. Sei que há diferenças, mas também existe uma série de afinidades que devem ser estudadas. Essa ideia de cooperação e intercâmbio passa pela questão de complementaridade. Minas tem o barroco do período colonial; tem o Mariano Procópio, que representa o período do Império de uma maneira muito forte; tem a Pampulha, ligada à modernidade do século XX; e tem o Inhotim, que representa o século XXI, a investigação de ponta. Nessa complementaridade, é muito interessante identificar as vozes do cenário.
– O debate de quarta discutiu o papel dos museus na atualidade. Qual seria a função do curador no mundo em transformação?
– Historicamente, o curador surge com os museus. Na origem, ele não tem esse nome, é chamado de conservador chefe ou comissário, dependendo da língua. Sempre esteve ligado a uma coleção de arte, sendo o principal profissional responsável por cuidar, organizar, guardar, interpretar, estudar e mostrar. Essa é a origem histórica da profissão. Nos últimos 50 anos, porém, isso se diversificou e se complicou, por conta da emergência de uma série de novos formatos de exposição que transcendem o museu – o mais conhecido deles é a bienal. Assim, o curador acabou ficando muito associado a essa ideia de organizador de mostras temporárias. Principalmente na Europa, mas também na América Latina, isso vem ganhando mais importância. É a ideia de uma espécie de intelectual no campo, uma pessoa que organiza, promove e tem atividades que não são exclusivamente do campo do pensamento, pertencem ao mundo da ação.
– E quais as especificidades desse trabalho no Inhotim?
– Uma delas é o fato de Inhotim ser um museu de arte contemporânea, outra é ser um museu sem um único prédio. A formação de seu território corresponde à formação da coleção.









