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Mamm inaugura mostra de Yara Tupynambá hoje


Por RAPHAELA RAMOS

22/03/2012 às 06h00

Os 19 painéis que compõem a série "A mesa", de Yara Tupynambá, deixaram Itabira e vieram visitar as paredes da Galeria Retratos-Relâmpago do Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm). No início da tarde de quarta, as obras, ainda apoiadas no chão, concediam ao saguão do espaço um cheiro forte de mineiridade. Era como se Carlos Drummond de Andrade, autor do poema que inspirou os trabalhos, caminhasse por ali, prestes a convidar o espectador para um longo jantar em família. Os quadros foram concebidos entre 1981 e 1987 a partir de fotografias antigas do poeta e hoje pertencem à Fundação Cultural de Itabira, cidade onde nasceu Drummond. A abertura da mostra está marcada para hoje, às 20h. Pouco antes, às 19h, a professora Márcia Marques de Morais, da PUC Minas, fará uma palestra sobre o escritor mineiro.

Yara não virá ao evento por questões de saúde. Pelo telefone, já de saída para o médico na terça, ela afirmou à Tribuna estar feliz em expor na cidade. A entrevista, que estava agendada no Mamm, acabou não acontecendo. Em "A mesa", Yara, natural de Montes Claros, estabelece um diálogo íntimo entre literatura e artes visuais. Como destaca a assessoria da mostra, Drummond elogia a proeza da mineira em carta enviada no dia 4 de dezembro de 1982: "Esplêndido, cheio de finas percepções, assimilando o espírito de tempos passados, tão fundamente mineiro, tão integrado no mistério das famílias e das almas!" O itabirano morreu sem ver o mural finalizado, mas deixou sua aprovação à artista, a quem já havia lançado elogios em 1976 por conta de obras anteriores exibidas no Rio. A experiência, aliás, o fez publicar uma poesia sobre o assunto no "Jornal do Brasil".

 

Família e tradição

A série de Yara reúne painéis de 1,5m x 1m, produzidos em carvão sobre papel preparado e colado no eucatex. Com cores que ressaltam a terra, o minério e o ouro, os quadros concretizam as imagens cantadas por Drummond nos 340 versos de "A mesa". O pai na cabeceira do móvel de madeira, o retrato da mãe sobre a cômoda, a criança perdida em seu mundo: inúmeras estações do poema de Drummond ganham vida em uma viagem que narra sua família. A obra, de 1951, foi escrita quando o pai do autor, na época já falecido, completaria 90 anos. Como descreve Drummond, a imaginária reunião de parentes vindos de todos os lados faria os convidados largarem as dietas tristes e se lançarem às confissões, entre taças de vinho, pedaços de frango, religiosidade e tradição.

Segundo o poeta Ozório Couto, coautor do livro "A mesa de Carlos Drummond de Andrade", os painéis de Yara são sua obra-prima. "Ao descobri-los, sugeri à artista a junção das imagens e do poema em uma publicação, com ensaios sobre os dois trabalhos", comenta. Pequenas poesias de Ozório, uma cronologia da vida de Drummond e seis correspondências trocadas entre o itabirano e Yara também estão no livro, que será lançado em Juiz de Fora hoje durante a abertura da exposição. "Pena que Yara não vai estar presente", lamenta Ozório.

 

A Espanha de Merij

Também hoje, a exposição "Del clásico gusto español", do mineiro Frederico Merij, entra em cartaz no Mamm, na Galeria Poliedro. O autor, que revisita a obra de Diego Velázquez utilizando novas e antigas técnicas, propõe um debate entre os trabalhos do espanhol e a história da arte. As intervenções, com ares de pop art, dadaísmo e arte conceitual, acontecem em objetos, cartões postais e álbuns e são definidas por Merij como um "deslocamento". "Além das obras do artista, uso referências da história para dar forma a meu próprio trabalho", diz ele. Velázquez foi pintor oficial da corte espanhola e importante retratista do período barroco. Entre suas obras mais conhecidas, está "As meninas".

Programação

Lançamento hoje, às 20h. Visitação de terça a sexta, das 10h às 18h, sábados e domingos, das 13h às 18h.