Conheça Belisa Canutto: no chocalho da Tuiuti, dançando k-pop e ballroom
Na coluna ‘Sem lenço, sem documento’ desta semana, conheça a trajetória da multiartista que ‘nasceu’ na avenida e abre espaços para a diversidade
Quando a mãe de Belisa Canutto, Yara Oliveira, estava grávida dela, desmanchou duas fantasias para se tornarem uma e assim conseguir desfilar na avenida. Desde então o amor pelas escolas de samba foi uma constante na vida das duas: a filha cresceu com a família escutando CDs com sambas enredo do Rio de Janeiro dentro do carro, e tendo sempre como referência esses passos por onde caminhava. Inclusive, juntas, trabalham no coletivo Charmosas do Tamborim, em que ela é diretora de chocalho — instrumento pelo qual tomou gosto desde cedo. A partir do samba, conheceu ainda outras expressões culturais que misturam fantasia e brilho à sua maneira, como é o caso do k-pop e da ballroom – que também tomaram parte importante da sua vida. Aos 21 anos, ela atravessou a Sapucaí pela segunda vez na escola Paraíso do Tuiuti, e segue com projetos como a Legendary International Luxurious Kiki House Of Christian Louboutin e Cherries Dance Group. “Tenho vontade de ser reconhecida e quero fazer história mesmo”, diz ela.

Ao relembrar sua trajetória na dança, Belisa pensa na infância, quando dançava passinhos de funk em festas com seus pais, como com músicas do furacão 2000. “A gente dançava junto e eu me acabava. Mas nunca tive oportunidade de entrar em um grupo e me aperfeiçoar”, conta ela. Desde nova, no entanto, conseguiu acompanhar o ritmo das percussões, aprendendo desde os 4 anos a tocar repique e caixa, e já aos 10 focando no chocalho. Já o gosto pela dança teve vazão quando, em 2021, ela e uma amiga tiveram a ideia de criar um grupo de dance cover de K-pop, no qual ensaiam, gravam vídeos para o YouTube e tiram fotos juntas. “Eu consigo me expressar e ser eu mesma. O K-pop também é uma arte muito diversa”, destaca.
Foi tanto no k-pop quanto no samba e no ballroom que ela também foi se encontrando tanto como artista quanto como mulher. “No meio artístico me sinto mais abraçada como mulher trans, sinto que tenho mais liberdade”, explica. Foi inclusive por meio dessas expressões que foi entendendo mais sobre si mesma e se permitindo crescer. Conheceu a Legendary International Luxurious Kiki House Of Christian Louboutin nesse contexto, já que não faz tantos anos que essa Casa Internacional está no Brasil. “Eu acho que essa mistura de tudo que eu gosto faz quem eu sou, sabe? Porque eu não me vejo sem o samba, não me vejo sem a ballroom, não me vejo sem o K-pop e eu acho que um pouquinho disso tudo me ajudou a me encontrar”, reflete.
Enquanto mantém sua trajetória na dança, na percussão e no canto, ela também faz faculdade de Moda na Uniacademia. Uma vontade que veio também da infância, vendo sua bisavó com a máquina de costura que usava para trabalhar na antiga fábrica Bernardo Mascarenhas. “Eu sinto que tudo que eu faço hoje em dia é um pouquinho de quem já veio antes de mim”, diz. Com essa formação, ela ainda busca contribuir com as suas várias vertentes de trabalho, em adereços, tecidos e montagens. Já tendo crescido imersa nesse ambiente, ela entende que foi mais fácil encarar que era isso mesmo que queria para sua vida e que essa era a profissão que seguiria. Mas reconhece que foram “viradas graduais” que a fizeram ir percebendo isso cada vez mais. Nesse sentido, passar a oferecer oficinas de chocalho no Charmosas do Tamborim foi de igual importância.

Trajetória na Paraíso do Tuiuti
Em 2018, quando a Paraíso do Tuiuti tinha recém voltado para o grupo especial dos desfiles de carnaval após um jejum de 15 anos, Belisa estava assistindo tudo de perto. Foi naquele encontro que ela já se sentiu escolhida pela escola. Mas, em 2024, ela começou a acompanhar a escola de outra maneira: participando dentro da quadra, nas oficinas que a bateria oferecia e já buscando sua vaga para desfilar junto com a agremiação.
Na sua primeira vez desfilando, o enredo que a Tuiuti tinha escolhido era sobre Xica Manicongo, que contava a trajetória da primeira travesti do Brasil. Ela era uma mulher que foi escravizada e resistiu às várias imposições que a sociedade tinha sobre ela: tanto no que dizia respeito ao seu gênero quanto à sua cor, e por isso também foi perseguida e precisou sempre lutar por sua liberdade. “Eu me acabei de chorar quando chegou o desfile. Ver uma escola falando sobre travestis e o povo LGBT, levando a gente para avenida em destaque, foi muito emocionante”, conta. O que faz, agora, é buscar se dividir entre Juiz de Fora e o Rio de Janeiro durante a época de ensaios, para dar conta de todo o preparativo necessário que é preciso para a responsabilidade de atravessar o sambódromo.

Flores na areia
Mesmo tendo apoio dos pais em casa, ela entende que ser uma mulher trans e preta, no Brasil, é estar sempre em posição de risco — seja através de olhares, desconfianças ou comentários. E também sinaliza o risco que existe de sempre estar presa a “caixinhas”: “Eu não sou só uma travesti preta. Eu sou artista, faço muita coisa, canto, danço, costuro”, conta. E nesse contexto, se lembra da música “Blossom”, da cantora Urias, que tem tatuada no peito. E que reflete sobre a sua trajetória com a arte como um todo: “Há força para enraizar/ Brotar, mesmo não havendo água/ E ao acordar, desabrochar/ Sempre tidas como loucas/ Mas florescer é para poucas”.









