Médico juiz-forano lança livro fazendo resgate histórico e afetivo da cidade
É importante preservar a memória da cidade, resgatando o passado e mantendo a cultura em movimento no presente. Foi movido por este impulso que o médico Carlos Adolpho de Carvalho Pereira escreveu Um tempo que nem passou, livro que mescla retratos históricos de uma Juiz de Fora longínqua com lembranças do autor, além de importantes fatos vivenciados por ele. Não falo sobre um tempo específico. Muitos registros vêm da minha infância e juventude, mas trato também de fatos mais recentes. A Juiz de Fora de hoje é a continuação da cidade do passado, diz Carlos Adolpho.
Relatos sobre a Rua Halfeld e vias onde o médico viveu nos anos 1960 misturam-se a capítulos sobre a repressão do período ditatorial e registros da evolução da medicina na cidade. Carlos Adolpho relembra as pressões políticas que sofreu durante a ditadura no exercício do seu trabalho, bem como à frente de instituições médicas. Em contraposição a essas lembranças desagradáveis, o autor apresenta alguns momentos de esplendor, como o dia em que conheceu pessoalmente uma das maiores atrizes do mundo, Elizabeth Taylor, conta a jornalista e editora da publicação, Jacyra Sant’Anna.
Jacyra adianta que algumas passagens surpreenderão os leitores, revelando conhecimentos sobre as artes plásticas do autor e mesmo seu talento como pintor, conforme explica o próprio médico. Há uma presença muito forte de aspectos culturais, sempre muito presentes na minha vida. Já fui dono de uma galeria de artes e sempre estive ligado a acontecimentos desta natureza.
Para a escritora Rachel Jardim, que assina o prefácio da edição, narrativas como a de Carlos Adolpho são a melhor maneira de se conhecer a vida de uma cidade em um determinado período. Através de um olhar pessoal, ele consegue inserir no texto fatos da história de Juiz de Fora, com uma escrita livre de didatismo e de preconceitos. É um olhar individual que capta o que acontecia no âmbito público com naturalidade, opina a juiz-forana, que considera o livro, antes de tudo, uma grata surpresa. É admirável que um médico tenha uma ligação tão forte com a cultura e uma vocação para a literatura.
O último capítulo da publicação, que será lançada na próxima quarta-feira, une o profissional da saúde ao escritor, em um depoimento sobre a participação de Carlos Adolpho na equipe que realizou a exumação de Aleijadinho, em 1998, para verificar se o artista mineiro foi vítima de porfiria, uma doença cutânea. Foi um momento muito importante, em que pude unir a medicina à cultura, duas imensas partes da minha vida. Para Rachel, é na junção destes talentos que Carlos Adolpho cativa o leitor. Conseguimos chegar a uma interpretação diferenciada de Juiz de Fora, mais ligada às pessoas. O médico tem uma percepção fora do comum sobre a beleza da natureza humana, e quando isso é traduzido em um texto tão agradável como o de Carlos Adolpho, quem lê é conquistado imediatamente.
Um tempo que nem passou
Lançamento na quarta-feira (27), às 18h, na Sociedade de Medicina e Cirurgia (Rua Braz Bernardino 59, Centro)









