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Dores de crescimento


Por MAURO MORAIS

22/01/2015 às 07h00- Atualizada 22/01/2015 às 14h48

No último ano, a Banda Daki sofreu uma redução de público, caindo pela metade, mas ganhou em organização, com poucas ocorrências policiais

No último ano, a Banda Daki sofreu uma redução de público, caindo pela metade, mas ganhou em organização, com poucas ocorrências policiais

Nos últimos anos, não apenas a quantidade de blocos aumentou na cidade, como também o público. Não bastassem os dilemas provocados pela estrutura da Passarela do Samba, que, com a antecipação, prejudica ainda mais a rotina nada carnavalesca do juiz-forano, os grupos que saem às ruas nas semanas anteriores ao feriado também alteram o trânsito e causam outros transtornos aos moradores dos arredores de onde essas aglomerações se formam. O crescimento, então, tornou-se um dos mais urgentes problemas a ser resolvido no carnaval de Juiz de Fora. Dos mais antigos aos mais recentes, os blocos têm se consolidado como a principal opção de festa na cidade, arrastando uma multidão pelas ruas do Centro e de bairros. O mesmo fenômeno ocorre no Rio de Janeiro, Belo Horizonte e em outras capitais, onde os blocos precisam ser suspensos por conta da superlotação.

Com o intuito de organizar os grupos, a Funalfa lançou este ano um edital para que os blocos solicitassem apoio, a ser julgado por uma comissão mista formada pela Polícia Militar, Secretaria de Governo, Secretaria de Atividades Urbanas e Secretaria de Transporte e Trânsito, além da própria fundação. Não foi preciso, então, que organizadores batessem de porta em porta pedindo documentos e assistência. “Foram analisados os seguintes aspectos: concentração de eventos e atividades no mesmo dia, local ou horário; pedidos de fechamento de ruas consideradas essenciais para o funcionamento do trânsito e para o acesso às vias principais; dinâmica de funcionamento do município; capacidade de suporte e infraestrutura para realização do evento; histórico do bloco ou entidade promotora em outras realizações; aval da comunidade local; e localização do evento”, aponta o documento produzido pela comissão, que “considerou também o convívio pouco amistoso entre grupos de bairros vizinhos em algumas regiões da cidade e ocorrências registradas em eventos recentes”.

Das propostas feitas por 70 blocos, apenas cinco foram indeferidas. “Na maioria dos casos, o apoio não poderá ser concedido integralmente, considerando o grande volume de solicitações e a capacidade financeira do órgão gestor da cultura na cidade”, pontua a comissão, fazendo referência aos pouco mais de R$ 200 mil destinados a patrocinar tais eventos. Um dos grupos que corre o risco de não sair este ano é o Realce, no Alto dos Passos. Há dois anos na folia juiz-forana, o bloco não pôde sequer ensaiar na Rua Luís de Camões na última segunda para não interromper o trânsito na via. Com a aprovação da associação de moradores em mãos, Flávio Abreu, um dos organizadores, conta que, no primeiro ano, a concentração foi feita na Rua Morais e Castro e, ano passado, para não prejudicar o trânsito, mudou-se para a rua ao lado. “Nossa proposta, então, é ocupar a Praça do São Mateus”, diz.

Para os muitos blocos que surgiram da reunião de amigos, espontaneamente e sem grandes pretensões, o apoio da Prefeitura contribui para que não aconteçam surpresas desagradáveis. Como o Parangolé Valvulado, um dos que mais cresceram na cidade em seus sete anos. “O objetivo do bloco não era ficar deste tamanho. Só queríamos brincar. Como existem muitos músicos, alguns que trabalham durante o carnaval, queríamos montar esse bloco para juntar o pessoal no domingo anterior. Na casa da Valéria (Faria, artista e professora do IAD/UFJF) começamos a bater, literalmente, em panelas e a formar uma turma”, conta o guitarrista e um dos compositores do bloco Danniel Goulart.

“Foi tudo muito natural. Era um domingo chuvoso e nos reunimos em frente ao Mezcla e demos uma volta. Foi ótimo”, recorda-se ele sobre o primeiro desfile, em 2008, quando uma Saveiro com uma caixa de som partiu, com pouco mais de 200 pessoas, da frente do saudoso Espaço Mezcla, na Rua Benjamin Constant, e deu a volta no quarteirão. “Quando acordamos tinham dez mil pessoas”, brinca Danniel em relação ao número de foliões de 2014. Foi então que surgiu a necessidade de encarar o grupo para além do encontro de músicos e amigos. “A filosofia do bloco era não ordenar. Se pegar a origem da festa do carnaval, o principal de tudo é a inversão de valores. O que é sagrado fica profano, e o que é profano fica sagrado. Dada essa desorganização, organizar é muito complicado, embora não dê para fugir dela”, comenta o artista.

‘A verdade do carnaval é a rua’

Este ano, o Parangolé Valvulado ocupará, no próximo dia 8, a Praça da Estação, já que o grande número de pessoas no Largo do Riachuelo resvalava para a pista da Avenida Rio Branco, comprometendo o trânsito e colocando em risco os foliões. No novo endereço, muito mais amplo, haverá a possibilidade de ampliar a festa para a Rua Dr. Paulo Frontim e até mesmo esticar pela parte baixa da Rua Halfeld. Outro resultado de uma organização maior é o disco que o bloco prepara para o primeiro semestre deste ano, com os enredos de todos os anos. “Está havendo renovação nos blocos, o que não aconteceu com as escolas de samba. Elas não têm muita promoção. Acredito que a tendência dos desfiles é acabar, porque os blocos estão chamando muito mais atenção. As escolas são um complemento, mas a verdade do carnaval é a rua”, sugere Zé Kodak, o “general” da Banda Daki, que há 43 anos se apresenta na cidade e é tombada pela Prefeitura como patrimônio imaterial de Juiz de Fora.

“Os blocos sentiram necessidade de melhorar. Não digo que acabam as escolas, mas os blocos são o futuro e o presente de nosso carnaval”, destaca Marcelo Barra, presidente da Associação de Entidades Carnavalescas de Juiz de Fora, que reúne apenas nove dos grupos locais. Fundado em 1958 e paralisado entre os anos 2000 e 2008, o Domésticas de Luxo ainda não tem sede, nem a sonhada bateria mirim, mas recentemente tem buscado a todo custo a profissionalização. “Depois que retornou, o bloco tomou um formato mais inovador, cada vez mais caricato e irreverente. Brincamos com a atualidade a cada desfile. Hoje temos um site para que as pessoas localizem os amigos, e assumimos um papel social, com campanhas como a chamada para doação de sangue no Hemominas, que acontece no próximo dia 31. Nosso trabalho não se restringe ao carnaval”, conta Odério Filho, conselheiro do bloco e um dos organizadores. “Temos o projeto de aumentar, mas temos todo o cuidado de não perder a essência”, completa.

Questionado sobre a redução de foliões nos últimos desfiles da Banda Daki, que em 2014 reuniu cerca de 10 mil pessoas, Zé Kodak é direto: “É preferível sair com menor número e não ter brigas”. Segundo ele, a ampliação desordenada trouxe a violência, o que tem sido combatido na última década. Com o apoio da Polícia Militar, o bloco acessa a Rio Branco com todas as transversais fechadas, obrigando, assim, que o público passe pela polícia.

Um dos maiores incentivadores da criação do Paixão Sertanejo, Bloco do Batom e da revigorada do Domésticas de Luxo, Zé Kodak credita o sucesso do carnaval de rua à questão orçamentária. “Colocar um bloco na rua não é caro”, comenta. Ao contrário, fazer bailes tem um custo alto. “O problema é que o Ecad cobra muito. Quando houver uma composição dos clubes com a instituição, reduzindo esse custo, os bailes voltarão a ter muita força”, aposta. Essa folia que não engloba alas fantasiadas, muito menos carros alegóricos, combina com o baixo orçamento municipal, bastante alto para a Prefeitura. A rua, em sua democracia, tem se mostrado como caminho, ainda que tortuoso.