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Outras ideias com Fátima e Lena de Oliveira


Por MAURO MORAIS

21/12/2014 às 07h00

Fátima e Lena desenvolvem projeto exclusivo a cada ano para a decoração da casa

Fátima e Lena desenvolvem projeto exclusivo a cada ano para a decoração da casa

Bastam alguns segundos, e a casa das irmãs Maria Helena (Lena) e Fátima de Oliveira está completamente iluminada. Sinos, estrelas, renas, bonecos de neve e um Papai Noel entrando e saindo da chaminé. Volto-me para o rosto das duas, e seus olhos brilham, fascinadas. Enquanto isso, carros param diante do imóvel, e câmeras de celulares, muitas delas, registram a decoração mais complexa feita em uma residência da cidade. Orgulhosas, ambas me transmitem a certeza de que são elas quem mais se divertem e se encantam com o lugar. Afinal, tudo não passa de uma ode à própria família, que se formou em Lima Duarte. O pai, um agricultor, adoeceu e foi fazer tratamento em Poços de Caldas, para onde levou a esposa e os nove filhos. Na década de 1970, todos desembarcaram em Juiz de Fora para estudar e escolheram morar em uma casa no bairro Manoel Honório.

Na década de 1980, Fátima, de 50 anos, já formada em química, casou-se e comprou o segundo andar de um sobrado no Bairu. Anos depois, o primeiro andar foi colocado à venda, e ela contou à irmã, que morava em Governador Valadares. Casada com um auditor fiscal e graduada em psicologia, Lena, 54, resolveu retornar à Juiz de Fora e morar no tal sobrado. “Tenho um temperamento mais forte, e ela é mais apaziguadora. Nos damos muito bem”, conta Lena, que, ao lado da irmã, junta dinheiro o ano todo a fim de decorar a casa para o Natal. “Para nós, é um grande feito, um prazer muito grande, que brota do coração. Antes fazíamos internamente. Uma irmã gêmea univitelina da Lena, a Graça, que faleceu de câncer, quando começou a ficar doente, nos pediu que levasse toda a decoração natalina para fora de casa”, recorda-se Fátima, que desde o início dos anos 2000 seguiu o conselho, homenageando a gêmea que se foi.

Inaugurada, este ano, no dia 25 de outubro (e a cada ano elas se adiantam mais), a decoração na casa das irmãs exige um complexo processo de criação. Lena faz os croquis, Fátima sugere ajustes, e, faltando 15 dias, contratam cinco homens, que trabalham das 8h às 17h moldando as ideias. Os canos com luzes natalinas são presos a desenhos feitos em um espesso arame, o que exige uma redobrada força física. Esse ano, eles também tiveram que erguer uma árvore gigante, com mais de três metros, toda feita com lâmpadas. Nada é reaproveitado, já que tudo é muito frágil e acaba se deteriorando ao longo do ano. “Comprar no exterior fica mais barato que o material daqui”, observa Fátima, confirmando o esforço. Há três anos, o marido de Fátima presenteou a esposa com um projeto elétrico especial para a fachada, que agora é trifásica, diferente da casa, cuja potência é bifásica. “Foi feito uma grande obra. Queremos o máximo de segurança, para nós e para os vizinhos. São muitas mil microlâmpadas. Fora que, antigamente, eu precisava acender um monte de tomadas, agora é só uma, no padrão”, conta.

“Não falamos números, mas digo que essa decoração daria para ir à Europa, nós duas”, comenta a empresária Fátima. “Fora a conta de luz, não é, Fátima?”, completa Lena, referindo-se à correspondência enviada para a irmã mais nova, que diz pagar com prazer. Além de ligar as luzes e os enfeites todos os dias, logo que escurece, as irmãs também precisam manter os carros fora das duas garagens até meia-noite. O local também é enfeitado, e um carro descaracterizaria por completo o projeto. Por falar nisso, em 2007, a residência ganhou um carro como prêmio num concurso. Mas o automóvel foi vendido, o dinheiro, dividido, e uma parte doada para instituições filantrópicas. Para as duas, há algo muito mais importante, que não passa pelo dinheiro. “A decoração representa essa nossa história de união e alegrias em família”, emociona-se Lena. “O mais importante é resgatar o espírito natalino, alegrar”, completa.

E essa tal atmosfera faz com que as duas peguem seus banquinhos e assentem-se na frente da casa, para conversar com quem passa pelo endereço. Diferentemente do resto do ano, todos os dias, até 6 de janeiro, quando as luzes se apagam, elas saem para conversar. Apenas uma vez, ao longo da última década, a residência se apagou no dia 24 de dezembro. Em 2012, a mãe das duas faleceu justamente no dia da ceia. Mesmo assim, elas fixaram um recado na grade, justificando o silêncio das luzes. E a matriarca é uma das inspirações para que a iluminação esteja a cada ano mais bela. “Na nossa infância, os parentes todos vinham para a nossa casa. Foi muito marcante. Era um festa”, recorda-se Lena. “Segundo Freud, nosso cérebro registra e decodifica a infância bem vivida, para fazer adultos sadios”, reflete a psicóloga. E como é a ceia dessas irmãs, nessa casa tão enfeitada? Surpresa: Elas não passam juntas. Fátima passa a meia-noite com um irmão que mora no Centro, e Lena ceia com os dois filhos e o marido. “O seio da família são os pais. Quando eles se vão, cada um vai para um lado”, sugere a mais velha. O Natal das duas, na verdade, começa em outubro e termina em janeiro. Muito mais do que apenas um dia, uma ceia.