Professora da UFJF apresenta CD ‘Traversée entre margens’

Canções gravadas por Enilce eram para monólogo francês nunca apresentado
Os anos vividos em uma terra estrangeira ainda rendem frutos para a professora da UFJF Enilce Albergaria. Ela mostra, nesta sexta-feira, no Museu de Artes Murilo Mendes (Mamm), o show de lançamento de seu primeiro CD, “Traversée entre margens”, com letras em francês e melodias integralmente nacionais. O projeto, iniciado há cerca de cinco anos, já foi apresentado este ano em Tolouse (França), cidade em que viveu durante muitos anos antes de regressar ao Brasil.
Enilce explica que as canções faziam parte de um monólogo escrito para ela no final da década de 1980 e nunca encenado, pois logo depois ela regressou a sua terra natal. “A peça é sobre uma personagem que vivia entre duas culturas, sobre o que é ser estrangeiro e se adaptar a outra cultura e língua, das perdas das referências culturais e afetivas, da reconstrução que o estrangeiro vive. E hoje é um tema atual, vemos pessoas que precisam mudar de país por diversos motivos. Eu solicitei às autoras (Jackie Schön e Anita Nadal) para gravar um álbum com as músicas da peça, pois acho que devia isso a elas”, conta, ressaltando que as duas assistiram às apresentações em Tolouse e que ambas ficaram felizes com o resultado.
A partir daí, ela – que já estudava canto – teve a ajuda de Estevão Teixeira para fazer os arranjos e melodias para “Tranversée…”, que passaram a ter uma roupagem brasileira em contraponto ao original francês, na união de dois universos inicialmente distantes. “É uma musicalidade que remete a Tom Jobim, o chorinho de Minas Gerais, a bossa nova. Ficou muito sofisticado. O disco retoma um trabalho que já foi feito, por exemplo, por Henri Salvador, que morou no Brasil e trabalhou com Jobim e fazia bossa nova em francês. Tentamos mostrar a riqueza do encontro das culturas. As letras falam de forma muito poética sobre ser estrangeiro, as canções falam do ponto de vista dele, dessa dor, essa sobrevivência, ter que se adaptar no novo país.”, diz Enilce.
O escritos franco-argelino Albert Camus, em seu clássico “O estrangeiro”, dizia que um homem poderia se sentir um estrangeiro mesmo em sua terra, na própria casa, até mesmo dentro de si, se um dia acordasse sem entender o sentido das coisas. Enilce passou por essa situação de “não pertencimento” em terras francesas? “Eu me sentia diferente quando não me adaptava, ou dava uma resposta que não era a apropriada, quando não entendia ou respeitava o código deles, era olhada com estranheza. Os brasileiros são bem aceitos de forma geral na Europa, mas você tem esse estranhamento do comportamento. Aos poucos, porém, vamos aprendendo os códigos sociais. Lembro uma vez, logo no início, de uma crise de identidade, de não pertencer a nenhum dos países, e que falava muito de mim nessas horas. Uma amiga chegou, então, e me disse: ‘não fale de você quando não está bem, porque vão achar que você tem um ‘eu’ que invade o outro. Não falamos de nossas intimidades na França’. É uma sociedade em que se discute muito o abstrato, só se fala de intimidades com os amigos. Mas quando se faz amigos por lá, é para a vida toda”, encerra a cantora, que retorna todos os anos à França para rever os amigos que deixou por lá e manter vivos os laços culturais que até os estrangeiros podem criar em uma terra diferente.
ENILCE ALBERGARIA
Nesta sexta-feira, às 19h30
Mamm (Rua Benjamin Constant 790)








