Tão perto e tão longe

Deborah Curtis conta, do seu ponto de vista, a vida, a obra e a morte de um dos maiores nomes do rock inglês
Muitos já conhecem a história: Ian Curtis entrou para o panteão dos artistas sofredores e atormentados que se foram cedo no dia 18 de maio de 1980, aos 23 anos, quando se enforcou na casa em que vivia, em Macclesfield, nas cercanias de Manchester. Ele deveria viajar em turnê para os Estados Unidos no dia seguinte com os seus companheiros de Joy Division (que depois mudaram o nome da banda para New Order), mas os sofrimentos físicos, neurológicos (a epilepsia) e psicológicos que carregava desde a adolescência se tornaram pesados demais, e ele resolveu cumprir sua promessa de ir embora por conta própria poucas horas depois de assistir ao filme “Stroszek”, de Werner Herzog. O suicídio, diz a lenda, teria ocorrido ao som de “The idiot”, álbum de Iggy Pop, e transformou Curtis num exemplo de martírio artístico a ser seguido por muitos fãs e artistas desde então. A ideia de que o inglês era uma alma atormentada e incompreendida foi ainda mais reforçada com as audições contínuas de músicas clássicas como “Love will tear us apart”, “She’s lost control”, “Atmosphere”, entre tantas outras.
Mas, como convém a todos os ídolos, a história não é bem assim. Pelo menos, é o que conta a viúva do cantor, Deborah Curtis, no livro “Tocando a distância”, lançado no Brasil quase 20 anós após sair na Inglaterra – com direito a todas as letras do Joy Division (inéditas ou não), escritos inacabados, relação de álbuns e compactos e todos os shows da banda. Ela, que acompanhou Ian desde a adolescência, quando começaram a namorar, relata sem meias palavras como viver com um sujeito tão complicado poderia ser uma experiência extremamente dolorosa. Em pouco mais de 170 páginas (de um total de 324), ela relembra a primeira tentativa de suicídio do marido, ainda antes de se conhecerem, e sua fixação com a morte, incluindo aí a convicção e o desejo de morrer antes de atingir a maturidade.
Deborah conta no livro – que serviu de inspiração, ainda, para a cinebiografia “Closer”, de Anton Corbjin – que eles começaram a namorar no final de 1972, poucos meses depois de se conhecerem. Durante os sete anos em que estiveram juntos, ela conheceu um Ian Curtis apaixonado por música e que decide, ainda na adolescência, se tornar um astro do rock; um sujeito que poderia ser extremamente leal aos amigos e, inesperadamente, se tornar uma figura absurdamente mesquinha e centrada apenas na satisfação pessoal; um homem carinhoso, gentil, apaixonado e, ao mesmo tempo, uma máquina de ciúmes – e, igualmente contraditório, manter um caso extraconjugal com a jornalista belga Annik Honoré, a ponto de proibir a própria mulher de ir a shows e gravações do grupo para ficar com a amante.
Com tristeza e alguma dose de rancor, ela descreve como Ian vai se distanciando lentamente, destruindo a relação do casal, e os conflitos do homem que começava a criar um séquito de fãs ao mesmo tempo em que trabalhava como funcionário público, que paulatinamente foi deixando de estar presente em casa. Sem contar a epilepsia, da qual evitava falar e que o torturava de forma profunda.
Nem tudo, porém, é um poço de mágoas no livro. Deborah também acompanhou – muitas vezes de forma distante, é preciso dizer – o processo que tornou o marido um dos mais promissores nomes do rock inglês na década de 1970. Estão lá a devoção de Ian Curtis por David Bowie, Lou Reed e Iggy Pop; a formação do Warsaw, que viria a se tornar o Joy Division; a dificuldade em se encontrar locais de shows; o processo de criação das músicas; o primeiro contrato, o álbum de estreia; e a trilha tortuosa que levou o Joy Division a se tornar muito maior após a morte de Ian Curtis – a lenda, o mito, um dos mártires do rock and roll que, como todo ser humano que se preze, foi mais uma criatura imperfeita a deixar seu legado neste mundo.








