A voz do íntimo
Quando Yoná Mandresa Ribeiro, 21 anos, foi diagnosticada com esquizofrenia, há três anos, sua vida profissional começava a despontar. De repente, o transtorno lhe surgiu como uma bomba, e muita coisa começou a mudar. Ao frequentar, desde o ano passado, o hospital-dia Bromélias, pertencente à rede suplementar de saúde de Juiz de Fora, Yoná descobriu nas cores da pintura uma nova paleta para sua própria vida. "Gosto de retratar paisagens campestres e animais, porque tudo isso tem muitas cores. A pintura acaba melhorando meu humor, e as cores me dão autoestima", comentou, na última quarta, diante dos preparativos da exposição "Arte e conquistas", que reúne diversos trabalhos de usuários do sistema médico do complexo Clínica Psiquiátrica Villa Verde e segue em cartaz até domingo.
Com um amarelo vibrante e olhar penetrante, a onça retratada em acrílica por Yoná tem a mesma exuberância da paisagem com uma ponte, bem como os retratos de Yemanjá, de um papagaio azul e de dois cachorros. Consciente de que a técnica não está em primeiro plano, mas uma paixão por se expressar no silêncio dos pincéis, a jovem diz ter vontade de, um dia, montar uma mostra individual. "Primeiro tenho que me aperfeiçoar. Ainda não tenho técnica, mas quero aprender", diz, preparando-se para lançar um blog – já tem o nome: esquizofrenéticas – contando suas experiências e mostrando seus trabalhos. "Estou pesquisando para fazer uma coisa diferente."
Fotógrafo profissional desde o fim dos anos 1990, Rodrigo Rabelo, 37, descobriu algo diferente ao deixar um pouco de lado a câmera e se lançar à tinta. A experiência, aprendida na clínica, não apenas lhe impulsionou a continuar a atividade em sua casa (ele já pintou 28 quadros), mas deu a ele a energia necessária para voltar à rotina de trabalhos com a lente. "Vendo as telas, eu ia me articulando e reconstruindo minha vida", relata. Agora ele também ocupa o outro lado ministrando uma oficina de fotografia para os colegas. Em quatro módulos, Rabelo perpassa história, técnica e prática da expressão, além de incentivar a criação de uma câmara escura. "Isso aguça a criatividade e a percepção artística", avalia.
Ronaldo Quetz Garcia, 30, também é um dos muitos expositores entusiasmados por levar à público exercícios que lhe serviram como eficiente terapia. Da pequena tela feita com um mosaico de cascas de ovos coloridas, formando uma simpática dupla de cachorros, à paisagem campestre confeccionada por minúsculas miçangas, Garcia, hoje voluntário no hospital-dia, diz que o trabalho meticuloso amenizou as saudades que sente da filha distante. "Às vezes o que não é dito em uma sessão de análise pura surge em uma oficina, que também são espaços para esvaziar angústias", comenta a técnica em saúde mental Lyliane Lanza, responsável pela oficina de saberes matemáticos e literários do Bromélias, cujo leque de atividades engloba desde oficinas de rádio até nutrição, passando por esportes e trabalhos manuais.
Segundo a psicóloga Denise Guedes, além de proporcionar autonomia e reinserção social dos portadores de transtornos mentais, o contato com a arte serve como uma voz muita íntima deles. Assim, saltam aos olhos obras que, a despeito da ausência de domínio pleno da técnica, possuem um discurso original e sensível. "Acredito que a terapia está no campo do intuitivo, muitas vezes sem o compromisso com a história da arte. É uma vazante interna", pondera Ronaldo Couri, artista juiz-forano homenageado pela mostra, que reúne três objetos escuros, segundo ele, como forma de questionar os estranhamentos. "Me faz bem ter consciência do meu olhar", completa Couri, confirmando o aspecto visceral que permeia a arte tanto no campo da terapia quanto na área acadêmica.
‘Eu queria brilhar’
Não fosse o relato da irmã que sofria de transtorno bipolar e dizia ouvir o "grito infinito da natureza", o expressionista Edvard Munch não teria realizado a clássica obra "O grito", ícone dramático das discussões existenciais. O transtorno mental há muito transita nas artes. Mas com a reforma psiquiátrica, iniciada na década de 1970 e fortalecida no Brasil por profissionais como a psiquiatra Nise da Silveira, a relevância dos pincéis ou das canetas ganhou outra forma. Vitimados pelo preconceito, grandes nomes que hoje ganharam o cânone na arte brasileira não desfrutaram de muito sucesso em vida.
Morto em 1989, Arthur Bispo do Rosário, diagnosticado esquizofrênico, foi o grande homenageado da última Bienal de São Paulo, de 2012, chamando atenção por seu universo lúdico de bordados, assemblages, estandartes e objetos. Internado na Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, o artista reproduziu seu mundo e hoje ganha destaque em todo o globo.
Da mesma instituição, Stela do Patrocínio gravou seu nome na literatura com seus discursos de extrema lucidez travestidos por alegorias fantásticas. "A palavra de Stela é capaz de se manter sem se sustentar, necessariamente, nos limites subjetivos, gramaticais e lógicos", aponta Viviane Mosé em apresentação do livro "Reino dos bichos e dos animais é o meu nome", reunindo relatos da mulher que em entrevista presente na obra diz: "Eu queria brilhar ser limpinha gostar de limpeza. Gostar do que é bom gostar da vida. Saber ser mulher da vida. Dar a vida por alguém que tivesse morrendo. Que tivesse doente. Fazer meu papel de doutora".
"A incorporação das manifestações artísticas aos discursos e projetos da reforma psiquiátrica nos permite perceber como a ideia de criação artística, marca da relação entre sensibilidade e realidade, ou realidade interior e exterior, é capaz de produzir identidades sociais, além de objetos de artesanato", analisa a professora da Universidade Rural do Rio de Janeiro Patricia Reinheimer em artigo publicado no livro "Sociologia das artes visuais no Brasil" (Editora Senac). Com a adesão da saúde suplementar, com o crescimento e fortalecimento da saúde pública e com a atenção da academia, a humanização no tratamento psiquiátrico revela a urgência em encarar a arte como universo expandido, passível de expressões despretensiosas, mas, certamente, extremamente ricas em oratória.









