Em JF, escritora sul-africana lança livro escrito em flotilha rumo a Gaza e após prisão em Israel

Zukiswa Wanner conversa sobre ‘Diário de uma flotilha por Gaza’ no Auditório da Faculdade de Letras da UFJF, nesta quinta-feira


Por Elisabetta Mazocoli

21/05/2026 às 06h00

A escritora sul-africana Zukiswa Wanner foi de Joanesburgo em direção a Túnis, capital da Tunísia, para embarcar junto com centenas de pessoas na Flotilha da Liberdade, em mais uma missão que tentava romper o cerco de 18 anos e criar um corredor humanitário de ajuda para Gaza, uma das áreas mais críticas da Palestina. Ela fez o trajeto registrando no celular os preparativos, os dias no barco e as conversas que teve com os moradores ao longo da travessia. Mais tarde, quando a embarcação foi interceptada pela Marinha de Israel em águas internacionais, ela também incorporou isso à narrativa.

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Temos religiões, raças e gêneros diferentes, mas estávamos unidos por um único propósito’ (Foto: Divulgação)

Esse relato, que mistura testemunho com reflexão política, era usado a princípio para dar notícias à família sobre como ela estava, mas depois virou literatura, no livro “Diário de uma flotilha por Gaza”, da Periferias Editora. É esse trabalho que será lançado em Juiz de Fora nesta quinta-feira (21), às 19h, durante sua temporada no Brasil, quando fará parte do evento da Semana de Apoio à Luta do Povo Palestino, com o encontro que leva o nome de “78 Anos da Nakba: catástrofe e resistência”, no Auditório da Faculdade de Letras, na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). 

A decisão de encarar essa jornada veio de acompanhar a situação se agravando durante todo o ano de 2025, com mais de 75 mil vítimas no território naquele ano, de acordo com relatórios do Ministério da Saúde de Gaza. “Eu estava me sentindo impotente. Participei de marchas, protestos, escrevi cartas, mas vi que as pessoas estavam sendo mortas e passando fome, então precisava fazer mais”, conta ela, em conversa com a Tribuna, que teve tradução de Beatriz Oscar. A escritora pegou a embarcação em agosto e começou a escrever de maneira natural, até que alguns jornais e revistas acadêmicas pediram para acessar o que ela estava documentando durante a viagem.

Essa experiência, para ela, que escreve desde 2006 e é autora de obras como “Homens do sul” e “Madames”, teve como maior impacto estar junto de outras pessoas de diferentes nacionalidades tanto no barco como na prisão. “No barco, nós éramos 15 pessoas de oito países diferentes. E na minha cela, éramos dez pessoas de nove países diferentes. Isso me mostrou que não estou sozinha em sentir esse horror. Temos religiões, raças e gêneros diferentes, mas estávamos unidos por um único propósito”, relembra.

Apesar de entender que isso não foi a intenção de Israel, ela sente que a experiência a ensinou que são muitas as pessoas que estão compartilhando a mesma indignação pelo mundo e querendo reagir, apesar do sistema procurar coibir isso. “Percebi que, enquanto sul-africana, se algo acontecesse comigo, teria muitas pessoas para lutar por mim, como aconteceu no apartheid sul-africano”, disse. A comparação usada não vem por acaso: para ela, esse período da história está próximo do que a Palestina vivencia atualmente, e é causado também pelo colonialismo.

Forma de encarar o mundo

Ao longo da obra, a autora tece diversos paralelos com os movimentos de libertação mundo afora — assim como as ações massivas de opressão que, em sua visão, partem da mesma lógica capitalista que mantém as amarras na sociedade. “Essa experiência fez eu me sentir mais forte. Nós, o Sul Global, temos um inimigo em comum: a minoria global e o capital”, diz ela. Apesar de notar as diferenças particulares de cada local, em suas viagens pelo mundo também percebeu que os problemas se repetem com frequência. Para ela, no entanto, falta direcionar o olhar para a raiz dessas questões.

Ela percebe, ainda, que essas problemáticas vêm se agravando, como é o caso da desigualdade social e da exploração. “Quando estava crescendo, trabalhei em um supermercado, e esse era um emprego típico para pessoas que estavam saindo do ensino médio. E agora é o tipo de trabalho que se vê pessoas de 50 e 60 anos fazendo, porque precisam dar suporte à família”, diz.

Apesar de todo o grave cenário global que enxerga pela frente, também há avanços que partem justamente dessa outra forma de encarar o mundo. É o caso do que vem acontecendo com a literatura africana, que está ganhando mais espaço pelo mundo e sendo traduzida com maior frequência, abrindo também oportunidades para mais escritoras como ela. “Existem três mil línguas no continente africano e muitos livros sendo escritos — muitos dos quais não vou ter acesso porque não falo essas línguas e eles não vão ser traduzidos. Mas é muito empolgante o que está acontecendo na literatura e nas artes, de forma geral”, afirma.