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Sem resvalar em silêncio


Por MAURO MORAIS

21/04/2013 às 07h00

"escrevo por ter gritado pouco quando criança", diz o eu do poema "(18 seconds before sunrise)", que, a enumerar, também fala: "escrevo feito um carteiro sempre atrasado para entregar cartas de amor e suicídio. que são, as cartas, perceba: sempre de amor e sempre de suicídio". Segundo o poeta Danilo Lovisi, não há nada de autobiográfico nos versos, e sim o resultado de inquietações íntimas do autor. Quieto, mas articulado e coerente, Lovisi escreve como a investigar tanto os limites do poema quanto os espaços do que existe em dúvida. Estudante da Faculdade de Letras da UFJF e coeditor do zine e blog "Um conto", o jovem é um dos dez finalistas no concurso "Ediht só para poetas". Produzida pela editora paulista Edith, a seleção, que recebeu 140 inscrições de todo o Brasil, chega ao fim hoje, no espaço Intermeios – Casa de Artes e Livros, quando os concorrentes irão defender seus projetos literários e ler algumas de suas criações.

Iniciada há cerca de um ano, a escrita do livro "(quando silêncio)", enviado ao concurso, partiu da constatação de Lovisi de que atualmente o silêncio incomoda. Daí o poeta criou um estudo sensível feito em quatro partes: na primeira, "( )", o escritor se debruça sobre diálogos internos, num espaço de intimidade; na segunda, "Urbe", persegue a frieza das cidades; na terceira, "quando fala", retrata a face mais orgânica dos encontros urbanos, fazendo uma poesia muito mais oral; na última, "quando silêncio", trabalha o tema como matéria poética, num exercício que beira o metalinguístico, como se silenciar fosse a forja dos versos.

"Acredito que a parte ‘quando fala’ tem mais a cara da editora", aposta Danilo Lovisi, referindo-se ao selo criado como iniciativa autônoma de artistas que se reuniram para publicar os próprios trabalhos. Entre os nomes que figuram no catálogo da Edith, estão grandes escritores da literatura contemporânea brasileira, como Marcelino Freire (um dos sócios na empreitada), Joca Reiners Terron, Ivana Arruda Leite e Juliana Amato. "Embora a venda de poesia ainda seja pequena, ela é feita para um público fiel", expõe o poeta, comentando sobre o que se configura como um nicho editorial, no qual o selo paulista decide apostar realizando a estreia de um escritor.

Expoente de uma geração prolífica e bastante atuante no cenário juiz-forano, como apontado pela Tribuna em matéria publicada na última terça-feira, Lovisi defende que os versos alcançam lugares ainda pouco explorados pela prosa. "Eles propõem uma relação mais forte que a prosa. Às vezes um poema contém um romance inteiro", comenta, compartilhando dos discursos que justificam a crescente atenção do mercado editorial para com os versos. De acordo com o poeta, o gênero permite outros (e mais sutis) gritos. Em concordância, o eu do poema (como prefere Lovisi) "veja só" brada: "liberdade é o meu silêncio / e você vai ter que escutar".