‘A dor da gente não sai no jornal’
Início da década de 1970. Cenário: Vale do Cariri. Seca, falta de comida, passado sangrento, violência cotidiana e mortalidade infantil. A triste situação do Sertão Nordestino do Brasil serve de pano de fundo para as aventuras de um menino que percorre as ruas da cidade ao lado do pai na boleia de um caminhão apelidado de Big Jato. O objetivo é esvaziar as fossas das casas sem encanamento. Nesse vaivém diário, é revelado um mundo em transformação. Autobiográfica, a trama descrita acima poderia ter estampado as páginas de um jornal, não fosse Xico Sá, seu criador, ter optado por lançar sobre ela o olhar onírico da ficção.
"Se fizesse uma longa matéria jornalística, iria estragar a história e perder muito da loucura da cabeça dos personagens. Não seria possível entrar na mente daqueles loucos incríveis que me rodeavam na infância e adolescência. Toda arte pode ser uma forma de chamar atenção. Nesse caso, era de mim mesmo, velho cronista e repórter: ‘ei, acorda, você pode escrever sim um romance, como sempre desejou’", justifica o autor que acabou de debutar no ramo com "Big Jato", obra que chegou às livrarias com selo da Companhia das Letras. "Se fosse mais jornalístico, pareceria mais mentiroso. Só assim seria possível contar essa história. A própria memória, com uma certa distância, já nos vem como uma narrativa fictícia." Sá é colunista do jornal "Folha de S Paulo", autor de livros como "Caballeros solitários rumo ao sol poente" e comentarista de programas de TV.
Não são poucos os profissionais, cuja realidade é a matéria-prima de seu trabalho, que se enveredam pelo campo da imaginação. A partir da década de 1960, ocorre "um boom da ficção feita por jornalistas no Brasil", conforme aponta Cristiane Costa, doutora em comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) no livro "Pena de aluguel: escritores jornalistas no Brasil 1904-2004". Ainda nos anos 1950, o repórter, dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues já defendia que a criatividade não deveria curvar-se ao fato, como lamentou em uma de suas máximas: "O repórter mente pouco, mente cada vez menos". Antigo, porém recorrente, o duelo entre ficção e jornalismo volta e meia está nas rodas de discussões. O que impele profissionais consagrados do jornalismo brasileiro a se aventurarem na ficção? Resta saber se nesse confronto secular há vencidos e vencedores.
Sofrimento que só a literatura suporta
A morte, "não a que em geral a imprensa cobre, que é a violenta, mas a que chega por doença ou velhice", foi a responsável por levar a premiada jornalista e colunista da revista "Época" Eliane Brum para as páginas de "Uma duas", seu romance de estreia, publicado pela Leya. Sua primeira pauta, enquanto trabalhava na reportagem entre 2008 e 2010, foi acompanhar os últimos 115 dias da vida de uma mulher com um câncer incurável. Já a última consistiu em cobrir a rotina de uma UTI de bebês com pouca ou nenhuma chance de viver.
Desse duro embate com a realidade nua e crua, nasceu a relação entre uma mãe, Maria Lúcia, e a filha, Laura. A convivência das duas, abalada pela saída de casa do pai, é forçosamente reatada devido a um sério problema de saúde da matriarca da família. "A partir desse confronto, percebi que há certas realidades que só a ficção suporta e que precisam ser inventadas para ser contadas. Precisei, então, criar uma voz na ficção, para poder seguir vivendo", reflete, apontando para mais um conflito. "O jornalismo, assim como a ficção, não dá conta de todas as realidades. A palavra escrita é sempre insuficiente para dar conta da vida. Nesse sentido, escrever é sempre um fracasso. Mas esta, que é a nossa tragédia, é também o que nos mantém vivos. A falta é que nos mantém em movimento", constata Eliane, que não concorda com quem vê o texto do romance como mais atraente que o jornalístico.
"Nenhum prêmio Nobel de literatura escreverá uma boa reportagem se não tiver ralado muito na apuração, se não tiver averiguado exaustivamente e, com precisão, cada detalhe da história que se pretende narrar. Mas, tendo apurado com muito rigor, um repórter é capaz de contar uma história real com tanta riqueza que dará ao leitor o prazer de uma ficção."
Apesar de mais de 50 anos separarem a frase dita por Nelson Rodrigues do mais novo lançamento do também "rato de redação" Zuenir Ventura, "Sagrada família", da editora Alfaguara, é, segundo seu próprio autor, uma forma de se esquivar do compromisso com a verdade. Já no prólogo, o poeta Manoel de Barros antecipa: "Só dez por cento é mentira. O resto é invenção". "Fiquei muito feliz por ter podido mentir à vontade", comenta o estreante nos romances, enquanto passava por Juiz de Fora, no início deste mês, para um bate-papo que integra a agenda de lançamento da publicação.
O assunto também foi tema do artigo "Minas e livros", publicado por Miriam Leitão na edição do jornal "O Globo" do dia 7 de abril. Ela diz não conhecer o caminho que vai do jornalismo à literatura, porém guarda a certeza de que não sabe respirar sem o primeiro. A comentarista de economia da TV Globo está prestes a engrossar a lista de jornalistas a explorarem os campos da ficção. Três livros infantis de sua autoria já estão em posse da editora Rocco.
"Jornalismo é o que tenho feito há 40 anos. Mas, às vezes, fujo para um quarto secreto e escrevo, escondido, entrando em outras veredas", escreve, para logo completar: "Acho que jornalismo e livros não estão em conflito. São companheiros, desde o início. Muita gente vai para o jornalismo por amar os livros e depois, em algum momento, encontra um veio que a leva ao livro. E eles são bem diferentes. Livro é lapidação. Difícil de fazer que assombra e intimida. Exige tudo o que se aprendeu no jornalismo e mais alguma coisa que talvez se tenha."
Fuga da realidade
Na visão de Xico Sá, escrever ficção é uma fuga da realidade. É se distanciar da dureza que norteia sua carreira iniciada há décadas. "É um escape se desgrudar dos fatos. O bom foi poder mentir para se tornar mais real, mais afeito à realidade quase sempre fantástica", defende ele, acrescentando que, contraditoriamente, a inverdade o aproxima de uma verdade ainda mais sofrida. "Você vai lá na infância em 15 minutos, e nem sempre a gente se encontra preparado para aguentar o solavanco na cabeça. Você recria tudo, idealiza e também quebra a cara por não ter sido como você guardou e imaginava."
Mesmo discordando de que recorrer à sedução do mundo literário está relacionado a qualquer tipo de escapismo, Eliane comunga com Xico ao afirmar que ficcionalizar a escrita foi a maneira encontrada para se chegar mais perto de todas as verdades. "É enfiar a cara no abismo sem saber se teremos como voltar lá", diz. "Para mim a ficção é uma realidade profunda. Tão verdadeira e tão profunda que só pode ser dita como mentira. Vivi a ficção como uma experiência de possessão. Enquanto na reportagem é preciso se esvaziar de si para alcançar o mundo do outro, e então ser preenchido pelo mundo que é do outro, na ficção há que se ter a enorme coragem de arriscar a se deixar possuir pelos outros de si, por aqueles que habitam nossos abismos. Aprendi, fazendo ficção, que não há nada mais aterrorizante do que ser possuída por mim mesma."
Foi recorrendo a um velho samba de Haroldo Barbosa e Luiz Reis, "Notícia de jornal", gravado por Chico Buarque, que Fernando Molica, atualmente colunista do jornal "O Dia" e ex-diretor da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), define sua proximidade com a literatura. Além do premiado romance-reportagem "O homem que morreu três vezes", da Record, ele é autor de obras como "Notícias do Mirandão" e "O inventário de Júlio Reis", também da Record, e o infanto-juvenil "O misterioso craque da Vila Belmira", lançado pela Rocco. "A dor da gente não sai no jornal", dispara ele, que não programou uma ida para o campo do fingimento. "Talvez estivesse com saudades da palavra escrita, já que trabalhava em TV. Tive uma ideia, e pronto. Não vejo como fuga e nem como complemento. Procuro escrever da mesma forma que um médico ou um advogado escreveria."
Para explicar a constatação de que "a vida é mais rica e contraditória que a ficção" e que esta, por sua vez, é "ainda a melhor alternativa para ao menos se buscar tatear contradições, angústias e possibilidades humanas", conforme registrou em seu blog há quatro anos, ele observa que a lógica conservadora inerente a sua profissão prejudica o aprofundamento em certas questões. "No jornalismo, vamos atrás do que a lei diz. Estamos sempre do lado da ordem, em busca dos grandes fatos. Já a ficção não tem compromisso com nada. A cabeça de um cracudo ou de um presidente da República tem a mesma importância. Peguemos, como exemplo, o atentado em Boston. Como ficcionista, posso me interessar pela cabeça de quem jogou aquela bomba. Tentar entender o que se passa lá dentro. O mesmo que Truman Capote faz em "Sangue frio’, em que ele trabalha a lógica dos criminosos."
Conflito ou conluio?
"Não conseguiria ter uma só voz para me expressar. Todos estes ofícios (repórter, ficcionista e documentarista) podem ser resumidos em um: sou uma contadora de histórias – sejam histórias reais ou de ficção", diz Eliane Brum. Programada ou não, a entrada para o universo sedutor da ficção não tem volta, de acordo com os profissionais ouvidos pela Tribuna. Contudo, o cenário não aponta para o fim da polêmica em torno do assunto, também levantado na palestra de Zuenir. "No livro, você tem mais tempo e espaço para ter um olhar subjetivo. Tom Wolf achava que o jornalismo atrapalhava a ficção dele. Acho que dá para viver com os dois suportes. Só não pode misturar", comenta o autor.
Na opinião de Molica não dá para viver de literatura no Brasil, o que, conforme ele, é o maior obstáculo para se deixar as redações. "Não conseguiria me sustentar como escritor, ao menos que projetasse minha carreira para isso. Teria que ganhar dinheiro. O Ubaldo (João) faz crônica semanal, o Cony (Carlos Heitor) escreve para a ‘Folha’. É difícil categorizar, porque essa reflexão é mais recente, não a tinha há 12 anos, quando escrevi meu primeiro livro de ficção. Gosto de ser jornalista, tenho prazer, mas se tivesse oportunidade de viver exclusivamente de literatura, ficaria muito feliz", afirma.
"Quando saí do Cariri, inocente, puro e besta, só pensava em ser escritor. Havia gastado pestanas na Biblioteca Municipal e queria ser aqueles caras, como o Graciliano Ramos, por exemplo, meu maior xodó na época. A realidade mostrou que não dava para viver disso tão cedo. Daí caí na redação de jornal, o que é uma trajetória comum no Brasil. Vivi por muito tempo a frustração de não poder conciliar jornalismo e literatura. Somente de uns dez anos para cá isso foi possível. Então, em vez de um sofrimento só, agora tenho dois: o jornalístico e o literário. Sem falar do terceiro e óbvio: o sofrimento por amar demais as moças", conclui Xico Sá com seu peculiar bom-humor.









