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Do outro lado dos muros


Por JÚLIO BLACK

21/03/2015 às 06h00

Dezenove detentos participaram do projeto, retratando o cotidiano dentro do presídio

Dezenove detentos participaram do projeto, retratando o cotidiano dentro do presídio

Uma das primeiras associações que o ser humano “comum”, “de bem”, faz ao pensar em presídios é que lá está confinado o que de pior a humanidade pode oferecer, sem nada de positivo para contribuir para a comunidade – como se do lado de cá também não houvesse maldade (real) suficiente para ser, muitas vezes, pior do que aquilo que se confinou entre os muros da prisão. Pois é para mostrar que os isolados do convívio social também podem criar arte, contribuir para a reflexão da sociedade, que a jornalista Natália Martino, o fotógrafo Leo Drumond e o designer Gabriel Reis desenvolveram o projeto que resultou na revista “A estrela”, produzida quase que inteiramente por 19 detentos e um funcionário da Associação de Proteção ao Condenado (Apac) de Itaúna (MG). A publicação terá lançamento neste sábado, às 16h, no Espaço Nikon, integrando a programação do 5º Festival de Fotografia de Tiradentes.

Em entrevista para a Tribuna, Natália conta que o grupo já desenvolvia workshops em festivais de fotografia que consistiam na produção pelos participantes de uma revista e que essa iniciativa foi passada então para o projeto que queriam desenvolver com a população carcerária. “A gente via que isso produzia um resultado interessante nas pessoas, de ver o trabalho realizado. E nessa mesma época estávamos começando um trabalho com a população carcerária, chamado ‘A voz’, que engloba várias iniciativas, e resolvemos colocar a revista como parte das ações”, conta ela. “Idealizamos um workshop maior, com aulas sobre as técnicas de foto, texto, vídeo.” Já o nome escolhido para a publicação é uma homenagem ao periódico de mesmo nome que circulava na década de 1940 na Penitenciária Geral do antigo Distrito Federal, a cidade do Rio de Janeiro.

Para executar o projeto de “A estrela”, era preciso de apoio. Segundo ela, a fabricante de câmeras Nikon se interessou e emprestou as máquinas fotográficas. Para o restante da iniciativa, que inclui a impressão da revista, foram obtidos alguns apoiadores, mas insuficientes para cobrir todos os custos. “Foram impressas mil cópias da revista. Parte delas foi distribuída em tribunais de Justiça, Ministério Público e instituições ligadas à população carcerária. O restante será vendido a R$ 25, com metade do valor destinada à Apac e a outra para cobrir os custos de produção. É difícil conseguir apoio, muito disso devido ao preconceito contra a população carcerária”, destaca Natália.

Dificuldade não houve, pelo menos, para conseguir o apoio da Apac para a realização da iniciativa. “Ela é uma unidade prisional modelo, com zero de rebelião, sem policiais, administrada apenas por civis. Já havíamos feito outros trabalhos por lá, conhecíamos os diretores, que gostaram muito do projeto. Foi preciso apenas agendar uma data, saber com quem iríamos trabalhar”, explica a jornalista. “Optamos por trabalhar com os presos do regime fechado, pois achamos que eles poderiam se beneficiar com o projeto.” A diretoria da unidade explicou a eles sobre a iniciativa, e 19 detentos mostraram-se interessados em participar.

“Ficamos uma semana, em novembro, nessa unidade. Todos eles trabalharam no projeto, mostraram real interesse, fizeram os cursos, envolveram-se com a iniciativa. Cada um demonstrou aptidão para áreas específicas. Deixamos com eles todo o equipamento fotográfico, as tarefas que deveriam desenvolver, e depois voltamos para pegar as máquinas, o texto, e editamos o material. Eles não fizeram apenas o editorial e os bastidores. Ficamos positivamente surpresos com o resultado do trabalho deles”, afirma Natália, lembrando que, mesmo não entendendo inicialmente a proposta, eles se sentiram muito valorizados pela confiança depositada ao grupo.

Após editar e imprimir a revista, a equipe do projeto retornou à Apac para entregar aos detentos a revista, com direito à presença de seus familiares. “Eles pediam mais exemplares para mandar para outros parentes. Conseguimos imprimir as fotos em formato grande para expor em painéis no próprio presídio, que estão lá até hoje. Isso ajudou muito na autoestima deles, que querem continuar a fazer fotos”, conta Natália. Ela diz, ainda, que as fotos também foram impressas para serem vendidas em Belo Horizonte, com o valor sendo revertido para os próprios fotógrafos. “Uma delas, a da capa da revista, foi vendida por R$ 800. E isso foi antes do Natal, então ajudou as próprias famílias.”

A intenção da equipe é continuar com “A estrela” em outros presídios, e eles já estão negociando a próxima edição, que esperam começar a produzir até maio. É esperar e torcer pela oportunidade de conferir, mais uma vez, a arte e a vida que ficam do outro lado dos muros e longe dos olhos da gente “de bem”.