Sobre o tempo e as pedras
Despido de qualquer dramatização e com sua peculiar lucidez, José Saramago proferiu em certo momento do filme José e Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes: Sentir como uma perda irreparável o acabar de cada dia. Provavelmente, é isto a velhice. O tempo em sua preciosidade também foi fundamental para o trabalho da pesquisadora Eula Pinheiro, graduada em Letras pela UFJF e mestre em literatura pela UFRJ. Após 27 anos dedicados à literatura de Saramago, Eula lança hoje, às 20h, no Mamm, o livro José Saramago: Tudo, provavelmente, são ficções; mas a literatura é vida(Musa Editora), no qual reúne um caderno de fotografias feitas ao longo de toda a sua pesquisa, documentos e um estudo sobre a primeira fase do escritor, além de um prefácio escrito pela viúva de Saramago, Pilar Del Río, e um posfácio feito pelo escritor português Domingos Lobo.
O livro chega às prateleiras em comemoração aos 90 anos que o escritor nascido em Azinhaga faria esse ano no dia 16 de novembro. Agora era o momento certo. Era o momento de desassossego, explica a autora, fazendo referência à nomeação dada por Pilar à data de nascimento de Saramago, que anualmente envolve diversos eventos em homenagem à vida e à obra do escritor. Concluída em 1993, a dissertação de mestrado de Eula é o norte da publicação, mas foi lapidada ao longo do tempo. Esse trabalho foi aperfeiçoado por eu estar em Portugal esse tempo e por ter convivido e estar convivendo com quem esteve muito próximo dele, relata a pesquisadora, ou investigadora, termo utilizado em Portugal.
Partindo da compreensão de José Saramago acerca da própria obra literária, o livro de Eula investiga a fase estátua da literatura saramaguiana, isto é, os sete primeiros romances publicados pelo português. De acordo com o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1998, seus trabalhos iniciais enfocavam questões tipicamente portuguesas, diferentemente da fase pedra, que trafega por reflexões universais, indo ao cerne do ser humano. Em Manual de pintura e caligrafia, de 1976, o autor reflete sobre a ficção em forte tom autobiográfico; posteriormente, em Levantado do chão, de 1980, aborda os dilemas do camponês durante o regime ditatorial; em Memorial do convento, de 1982, narra a história da construção do Convento Palácio de Mafra, no século XVIII; em O ano da morte de Ricardo Reis, de 1984, Saramago retoma o tema do fascismo através do heterônimo de Fernando Pessoa; já A jangada de pedra, de 1986, enfoca a questão do iberismo; e História do cerco de Lisboa, de 1989, utiliza-se do romance histórico para tratar dos mundos islâmico e cristão. Apesar de não integrar as análises de Eula, O evangelho segundo Jesus Cristo, de 1991, também compõe a fase estátua e conta, de forma humanizada, a história de Cristo. Segundo a estudiosa, essas obras são pedra e estátua.
Polêmico e inquieto, José Saramago faleceu em 2010, deixando um legado inestimável para a literatura mundial, entre romances, contos, peças teatrais, poesias, crônicas, e, até mesmo, um livro infantil. O meu compromisso é mostrar a coerência de José, aponta Eula, demonstrando, de maneira sensível, a intimidade que mantém com seu objeto de pesquisa, e por consequência, o grande envolvimento afetivo com o mesmo. Parte desses laços, que não haviam quando cursava o mestrado, se devem à aproximação que teve com figuras relevantes na vida de Saramago. Além de Pilar Del Río, jornalista espanhola que se casou com o escritor em 1988, Eula conheceu a filha de seu pesquisado, Violante Saramago, e os netos, Ana e Tiago Matos.
Da ficção para a vida
Após a morte de José Saramago, Eula Pinheiro refez alguns dos passos do escritor, e os registros estão no caderno de fotos presente no livro. Minha ida à Portugal, à Lanzarote, entrar e ver a cadeira em que ele escreveu ‘Ensaio sobre a cegueira’, ver os objetos dele, encontrar o Camões, que era o cãozinho dele. Isso tudo despertou meu desejo por conhecer a parte não-ficcional dele, revela a pesquisadora, que em 2010 aproximou-se da Fundação José Saramago, instituição criada por ele e guiada por Pilar, a fim de divulgar e preservar sua obra. Sediada na Casa dos Bicos, região central de Lisboa, a fundação preserva um espaço para Eula, única no lugar a pesquisar de forma voluntária, contínua e ininterrupta o acervo de Saramago. Fui muito bem acolhida, não impus nada, as portas da fundação se abriram para mim, comenta. Para Eula, Lisboa lhe ofereceu um espaço intelectual o qual não conseguiu desfrutar em Juiz de Fora. Me sinto exilada intelectualmente, emociona-se.
Dividindo-se entre Portugal e Brasil, Eula faz doutorado na Universidade Nova de Lisboa, dando prosseguimento às suas investigações acerca da trajetória saramaguiana. Dona de um sotaque que alterna Minas Gerais, Rio de Janeiro (estado onde nasceu) e Portugal, a pesquisadora se comove ao lembrar o falecimento de Saramago. Naquele momento, eu senti ausências futuras de textos futuros, lamenta, na crença de que muitas outras grandes obras poderiam surgir. O encantamento, que transborda os olhos da estudiosa, é, também, responsável pela continuidade de todos os seus projetos, seja dando relevo à biografia, seja priorizando a ficção.
Nesse enlace emocional, Eula reservou para a capa do livro a obra O dia seguinte, do artista plástico português Júlio César, fã de Saramago e amigo da pesquisadora. A imagem, produzida digitalmente, retrata o escritor e foi feita no dia posterior de sua morte. Da mesma forma, o título do livro também transita pelos sentimentos. Tudo, provavelmente, são ficções foi retirado de Manual de pintura e caligrafia. O provavelmente atenua o tudo. Não gosto de palavras generalizadoras e totalizadoras, defende Eula, comentando o fato de José Saramago não gostar das palavras nunca, jamais e sempre. Do ‘não’ ele gostava. Dizia que era preciso dizer não à fome, não à corrupção, recorda. Já o termo mas a literatura é vida é uma formulação de Eula em parceria com Pilar e aponta para o grau de importância da literatura saramaguiana na vida da estudiosa. Como defende a viúva do escritor, no prefácio da obra, Saramago é o autor que construiu a realidade à base de ficções que nos fortalecem e dignificam.
JOSÉ SARAMAGO: TUDO, PROVAVELMENTE, SÃO FICÇÕES; MAS A LITERATURA É VIDA
Lançamento hoje, às19h
Mamm
(Rua Benjamin Constant 790)









