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Passe o chapéu


Por BRUNO CALIXTO

20/11/2011 às 07h00

Mais do que simplesmente uma ferramenta para empreendedores, o crowdfunding – financiamento coletivo – começa a revolucionar o modo de transformar ideias no papel em negócios reais, que podem ganhar o mundo. Trata-se de um fenômeno global, que mobiliza e engaja pessoas movidas pelo desejo de realizar projetos que, de outra forma, dificilmente seriam concretizados.

O mecanismo é simples: você pede uma quantidade de dinheiro que irá possibilitar a realização do seu projeto, espalha a sua ideia e depois recompensa a "multidão" que te apoiou. No começo de 2009, por exemplo, a diretora de cinema Emily James começou a filmar as manifestações realizadas por ativistas ambientais ao redor do Reino Unido. Com mais de 300 horas gravadas, Emily precisava financiar a pós-produção de "Just do it", filme de 75 minutos, mas para isso seriam necessárias 20 mil libras. Para levantar esse dinheiro, a idealizadora resolveu contar com o público. O objetivo era arrecadar, em 20 dias, as 20 mil libras, e para isso criou diferentes faixas de incentivo. Por exemplo, quem investisse 10 libras receberia um link para download do filme antes de esse ser lançado, quem contribuísse com 75 libras ganharia uma cópia do DVD e dois ingressos para ver o filme no cinema e assim por diante. Deu certo, e a diretora captou pouco mais que 21 mil libras.

O site Ativa aí (www.ativaai.com.br) foi a primeira plataforma de crowdfunding voltada aos brasileiros. O grupo, agora, pretende bancar apresentações de "álbuns clássicos". A primeira banda escolhida é o Raimundos, que apresentaria em um show o repertório dos discos "Raimundos", "Lavô tá novo" e "Só no forevis". Conforme nota publicada no site, quase metade das cotas já foi vendida. Para o show, marcado para 10 de dezembro em São Paulo, os 200 primeiros "ativadores" serão totalmente reembolsados. Todas as pessoas que compraram as cotas terão direito a regalias na performance, como área vip com acesso aos membros da banda. As cotas iniciais custam R$ 60 – estão disponíveis inicialmente 400 delas. Depois, os ingressos do show custariam R$ 120.

"É uma forma muito legal você entrar no evento já garantido", destaca o produtor local Serjão Evangelista, com ressalvas. "Por aqui, para reservar a data com um grande artista, você precisa ter a confiança da produção ou mandar dinheiro antes, por isso acho difícil viabilizar (com financiamento coletivo) shows de nomes consagrados. Ainda não vi situações como um Paul McCartney virem ao Brasil assim, mas é possível, sim, com artistas mais alternativos que, de alguma forma, estejam na mídia."

A jornalista juiz-forana Vanessa Oliveira, atualmente no Rio, trocou a empresa de tecnologia para a qual atuava pelo Movere.me (www.movere.me), grupo de financiamento coletivo que possibilitou ao grupo Sururu Na Roda tirar do forno seu disco em homenagem a Nelson Cavaquinho. "Eles conseguiram 35 mil através do site e lançaram esse mês, oferecendo inúmeras recompensas, desde o CD e um jantar com os músicos até possibilidade de assistir a gravação ou passear pelos pontos tradicionais da Lapa", enumera Vanessa, afirmando que anda sondando projetos de Juiz de Fora, como fez quando esteve na cidade há um mês.

Os fãs de Raul Seixas também aderiram. No documentário "Raul: o início, o fim e o meio", do diretor Walter Carvalho, qualquer pessoa poderia contribuir com uma quantia em dinheiro em troca de ter seu depoimento incluído no final do filme, enquanto subiam os créditos. Outras puderam ter apenas seu nome nos agradecimentos, além de ingressos para uma pré-estreia fechada. O mecanismo vem ganhando força em pelo menos outros cinco sites: Incentivador (www.incentivador.com.br), Embolacha (www.embolacha.com.br), MobSocial (www.mobsocial.com.br), Catarse.me (http://catarse.me/pt) e Queremos (www.queremos.com.br).

"O grande ponto do crowdfunding é que existe uma troca de valor, não é simplesmente uma doação", define Diego Reeberg, um dos criadores do Catarse.me. "Além disso, são as próprias redes sociais de um autor que apoiam seus projetos. Cerca de 80% dos valores arrecadados pelo crowdfunding vêm de pessoas que, de alguma forma, já tinham familiaridade com os autores."

Na prática, como afirma Micael Langer, à frente do Incentivador, isso já ocorre há décadas, principalmente em projetos de cunho social. "Mas a diferença agora é que a mobilização tem sido usada para que pessoas físicas possam proporcionar a criação artística." Um dos diretores de "Simonal – Ninguém sabe o duro que dei", Langer teve a ideia de criar o mecanismo para que pessoas pudessem investir em projetos culturais há quatro anos, durante a produção do filme. Dali, seu documentário ficou pronto, sem leis de incentivo e/ou patrocínio institucional.

Esse processo é similar ao do Queremos, com a diferença de que, neste, os contribuintes podem ter o dinheiro de volta mesmo se a meta for alcançada. O Queremos já produziu cinco shows internacionais no Rio, sendo o último do Vampire Weekend. "Fiquei sabendo do Queremos por meio de uns amigos e acabei seduzido pela possível vinda da (banda inglesa) Two Door Cinema Club ao Rio. Imediatamente, comprei uma cota de R$ 200 e fui reembolsado com o valor total, pois o show (no Circo Voador, em janeiro) foi um sucesso", lembra o designer de moda Thiago Larangeira, 28 anos, comemorando o fato de ter estado, pela primeira vez, tão perto de uma de suas atrações preferidas.

"A gente pensa muito em levar o modelo para mais cidades do Brasil e da América do Sul. E também sentimos falta de certas exposições, palestras ou mostras de cinema no Rio", garante Pedro Seiler, um dos criadores do Queremos. "É muito bom poder juntar pessoas para conseguir um bem comum."

 

Como uma casa na planta

Uma das últimas investidas do crowdfunding resultou na apresentação, dupla, da banda Beady Eye, do ex-Oasis Liam Gallagher, no Rio, no início desse mês, graças à iniciativa do grupo Cariocas Empolgados. Para Pedro Seiler, bandas como Belle and Sebastian, LCD Soundsystem e Vampire Weekend têm muitos fãs no Brasil, mas não são suficientemente conhecidas para despertar o interesse de produtores culturais dispostos a bancar sua vinda ao país. Seiler explica que o financiamento coletivo, no entanto, não funciona para bandas como Foo Fighters. "Muitas pessoas querem esses shows grandes. Mas não vejo sentido em fazer um financiamento coletivo de bandas com cachês milionários, que fecham estádios", diz. "Eles virão ao Brasil, mais cedo ou mais tarde."

O Embolacha está no ar desde maio de 2011. Por meio dele, já foram financiados três projetos, entre eles o festival Móveis Coloniais de Acaju Convida, em Brasília, no início desse mês. "Não conseguimos patrocinador da iniciativa privada", informa, por e-mail, o tecladista Eduardo Borem. "Foi o público quem patrocinou os R$ 30 mil necessários", diz o músico, adiantando que já pensa numa próxima edição, da mesma forma, para 2012.

Contudo, as recompensas a quem investir numa iniciativa que, muitas vezes, não é encampada por um produtor podem revirar o mercado fonográfico. A banda carioca Autoramas, por exemplo, precisa de R$ 14 mil para gravar seu novo disco, batizado de "Música crocante". Por meio do Embolacha, até o momento, eles já arrecadaram R$ 4.751. Se em 20 dias não conseguirem levantar todo o montante, as pessoas que colaboraram com a ideia receberão o dinheiro de volta. "É tudo ou nada", avisa, por e-mail, o vocalista Gabriel Thomaz. Os fãs podem investir de meros R$ 20 a significativos R$10 mil. Quem ajudar com R$ 60 receberá em casa o disco antes de ele ir para as lojas, além de ter o nome incluído nos agradecimentos do encarte e ganhar um kit com pôster e postal do grupo. Quem financiar R$ 5 mil ganhará a guitarra de Gabriel, usada nas gravações.

A Banda Mais Bonita da Cidade também pediu ajuda aos fãs para gravar seu primeiro CD, utilizando a plataforma do site Catarse.me. A estratégia, no entanto, foi diferente. Eles tinham 12 composições, e cada uma delas custava R$ 4 mil para ser produzida. Se somente uma dessas músicas atingisse o valor no prazo de um mês, lançariam o álbum com uma só canção. "Felizmente, os fãs financiaram 11 músicas (‘Lobotomia’ é a única de fora). Lançamos (no início desse mês) o disco com elas", anuncia Walquiria Raizer, produtora da trupe que, após ganhar o Brasil através da web, ingressou no mercado fonográfico pela porta mais democrática.