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Um poeta e dois lugares


Por MAURO MORAIS

20/09/2013 às 07h00

Após pouco mais de dez anos da passagem do Cometa Halley, Murilo Mendes transferiu-se para o Rio de Janeiro. Aos 56 anos, já maduro e desfrutando de reconhecimento no meio literário brasileiro, o poeta, nascido em Juiz de Fora, decidiu recomeçar. Casado com a poeta Maria da Saudade Cortesão Mendes, e somando mais de dez títulos na carreira, Murilo mudou-se para a Itália, como professor de cultura brasileira na Universidade de Roma. Instalou-se em um apartamento na Viale del Castro Pretorio, na capital, e pouco tempo depois foi, por definitivo, morar no lendário apartamento da Via del Consolato nº 6, no centro da cidade. Mas o que fez o intelectual respeitado em sua terra natal entregar-se ao desconhecido? Essa e muitas outras perguntas serviram de ponto de partida para a pesquisa de mais de uma década desenvolvida por Maria Betânia Amoroso e, agora, disponível no livro Murilo Mendes: o poeta brasileiro de Roma (MammEditora Unesp), que tem lançamento hoje, às 19h, no Museu de Arte Murilo Mendes.

Professora do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade de Campinas, Maria Betânia iniciou sua pesquisa em 2001, recorrendo a recortes de jornais, críticas, entrevistas e artigos sobre a estadia do poeta brasileiro em terras europeias. Mesmo já tendo viajado para o Ocidente em outras oportunidades, a partir de 1952, o escritor estreitou seus laços com a Europa no período em que residiu em Roma, de 1957 a 1975. Quando ele chegou, era um ilustre desconhecido, comenta Maria Betânia, acrescentando que as pautas, inicialmente, eram sugeridas pelo próprio escritor. O fato de ele ser um poeta muito familiar com a cultura ocidental, de ter esse traço internacional, acabou gerando muita simpatia.

O crítico e professor de literatura hispano-americana Dario Puccini foi o primeiro a escrever sobre Murilo, logo após sua chegada. Publicado na revista Il contemporaneo, o texto apresentava a biografia do juiz-forano e já tentava desmitificar a imagem de poeta católico e escritor irônico. Murilo desejava ser reconhecido como escritor múltiplo, adjetivo que ficou para a posteridade. Em um determinado momento, a Itália se apropria dele. No final acabamos encontrando quem diga que ele se tornou um poeta italiano, acentua Maria Betânia, para logo afirmar: Essa é uma preocupação externa à obra dele. É uma questão interessante para compreender a inserção do Murilo nessa outra cultura.

Ainda restam sombras

À medida em que Murilo Mendes ia ganhando notoriedade em Roma, seu nome ia se perdendo na terra natal. Ele encontrou um lugar, mas isso não quer dizer que só houve facilidades. Teve um período em que ele tinha oito livros na gaveta e não tinha editor disposto a publicar, lamenta Maria Betânia Amoroso. Segundo ela, muito se deve ao círculo no qual o escritor estava inserido, que embora rico de intelectuais, era restrito. Murilo foi reconhecido, sim, mas por um grupo pequeno. Tenho a impressão de que houve uma luta muito grande para ele conseguir construir seu espaço nessa outra cultura.

Amigo de artistas plásticos do modernismo italiano, o poeta foi convidado por diversas vezes a escrever sobre exposições, o que acabou por configurar uma faceta ainda pouco explorada, a de crítico de arte, ofício já desenvolvido na década de 1920, quando residia na então capital do país. Contudo é no intercâmbio que o escritor alcança seu maior êxito. A figura dele lá acabou despertando atenção para a cultura brasileira. Várias pessoas, ao escrever sobre ele, tinha que conhecer a nossa cultura, afirma Maria Betânia.

Todo o material coletado pela professora ao longo de sua duradoura pesquisa será doado ao Mamm, espaço ao qual recorreu por muitas vezes para compreender um pouco mais do autoexílio de Murilo. Segundo ela, o poeta merece maior reconhecimento tanto no Brasil quanto no país onde escolheu viver seus anos finais (Murilo morreu em viagem à Lisboa, terra de sua esposa). Hoje ele não é mais conhecido na Itália. Para manter um poeta vivo, é necessário que se continue publicando, defende. Para Maria Betânia, é imprescindível que todo o material acerca da vida e obra do poeta esteja no museu que leva seu nome. É urgente saber onde estão os manuscritos do Murilo Mendes. Isso deveria estar no Mamm, reclama a pesquisadora, certa de que o escritor poderia e deveria circular mais pelo país. O Murilo, de qualquer modo, está ao lado de João Cabral de Mello Neto e Carlos Drummond de Andrade. Ele é um dos grandes.

MURILO MENDES:

O POETA BRASILEIRO DE ROMA

Lançamento do livro

Hoje, às 19h

Museu de Arte

Murilo Mendes

(Rua Benjamin Constant 790)