Eletrônico artesanal
O computador é como uma bebida forte, e as pessoas passaram os anos 1990 de porre, acordando nos anos 2000 de ressaca, sem saber o que fazer direito. É desta divertida e inusitada metáfora que o norte-americano Nicolas Collins parte para explicar sua abordagem da música eletrônica. Convidado do Encontro Internacional de Música e Artes Sonoras (Eimas), Collins encerra hoje uma oficina iniciada ontem, em que trabalha com sintetizadores, buscando uma relação mais táctil do compositor com a música eletrônica. Hoje em dia, tudo é eletrônico, e as pessoas adoram fazer música com mouses e teclados. O que faço é mostrar que existe música eletrônica além do computador.
Para o professor do Departamento de Música da UFJF, Daniel Quaranta, um dos organizadores do evento, o trabalho de Collins é importante para repensar o papel dos aparatos tecnológicos da composição. Mostra que é possível fazer um trabalho de qualidade mesmo utilizando-se de tecnologias inferiores ou ultrapassadas, sobretudo a partir de uma releitura do uso destes aparatos. É como um artista plástico que utiliza lixo como matéria-prima e faz obras lindíssimas.
Também à frente do evento, o professor Alexandre Fenerich destaca que a música eletrônica não é um gênero ou um estilo. É uma maneira de se pensar o uso da tecnologia em função da música, que possui diversas vertentes. No caso de Collins, este pensamento passa por uma relação em que a distância entre o compositor e o suporte é reduzida, ao contrário da música composta integralmente em computador, destaca ele, que trabalha com experimentações audiovisuais. Costumo recriar sons para filmes ou criar filmes a partir de sons. Recentemente realizei um concerto usando o Skype como plataforma, ilustra o docente.
Segundo Fenerich, a música eletrônica é abordada em suas diferentes vertentes no encontro. O professor Marcio Mary, por exemplo, trabalha com uma tradição europeia, produzindo música de concerto feita com recursos eletrônicos, assim como João Pedro Oliveira, outro de nossos convidados, exemplifica. As diferentes concepções se encontram porque todas trabalham a partir do experimentalismo. Suas peculiaridades não contradizem uma à outra, mas alimentam-se.
Daniel Quaranta destaca que o evento não é voltado para a tecnologia, mas sim para a música e a arte sonora da contemporaneidade. Algumas usam a tecnologia intensamente e como condição, outras, menos, e outras precedem dela. Alexandre Fenerich reitera a afirmação, destacando que o Eimas não só extrapola as discussões tecnológicas, mas também as estritamente musicais. Grandes composições da contemporaneidade são feitas para instrumentos tradicionais. É claro que a tecnologia modifica partes do processo, como um escritor usa hoje um computador para redigir, mas os recursos tecnológicos não são parte, necessariamente, do processo criativo. Assim como ele não precisa estar relacionado com a música em si. O ruído também pode ser trabalhado como recurso artístico experimental, como propõe outra convidada do evento, Lilian Campesato, completa Alexandre.









