Ela chegou ao topo
Sheila é personagem, não tem CPF, é minha ego trip. Se por telefone não é possível ver a imagem para saber se atende aos requisitos de beleza e elegância (isso para quem não esteve no Cine-Theatro Central no último sábado), a voz denuncia o carisma: Sheila Veríssimo, representante do Espírito Santo, faz jus ao título de campeã do Miss Brasil Gay 2013. A constatação é atingida não somente pela simpatia que apresenta, mas também pela habilidade em lidar com as palavras. Vou confessar que passei por muitas provações e sofri descrédito de alguns. Mas se você tiver esse sonho como projeto de vida, você batalha e não mede esforços para alcançá-lo. É preciso ter muita força de vontade e idealismo, destaca a artista, que ganhou com grande apoio da plateia.
Logo no primeiro instante de conversa, a transformista, que, na certidão de nascimento, é chamada de Jorge Augusto, entrega o que a instigou a se inscrever no concurso, já que o prêmio de R$ 2 mil, entre outros mimos, está longe de chegar aos cerca de R$ 50 mil gastos com o aluguel do traje típico (R$ 20 mil) e a aquisição da roupa de gala (R$ 30 mil). Se for pensar no financeiro, não há retorno algum. A gratificação pessoal é a nossa grande motivação. É impossível mensurar valores, acredita ela que, afirmando ter chegado no topo como miss, sabe que a oportunidade abre portas. Toda miss faz show. Sou um artista, faço performances e dublagens, e isso traz visibilidade. O cachê pode se elevar, mas essa não é minha expectativa.
Sheila também abocanhou o troféu de melhor traje de gala, com longo confeccionado com correntes banhadas a ouro e cristal swarovski, e o segundo lugar em traje típico, vestindo-se como uma guerreira da tribo Aimoré. Ambos os figurinos foram assinados pelo estilista Henrique Filho, famoso por vestir celebridades como Xuxa, Sabrina Sato e Ivete Sangalo.
Formado em comunicação social pela UFRJ, Jorge, 28 anos, optou por não ser jornalista. Natural de Volta Redonda, mas radicado no Rio de Janeiro há dez anos, tem como profissão a de maquiador. Entre suas clientes VIPs está a cantora e apresentadora Priscila Nocetti, da Furacão 2000. Sua mãe é de Santos Dumont (MG), e ele possui alguns parentes próximos em Juiz de Fora, o que nos dá o gostinho de dizer que o título é um pouco nosso. Segundo ele, que já esteve na cidade concorrendo ao Miss Brasil Gay pelo Piauí (2009) e por São Paulo (2011), conquistar o primeiro lugar passou a ser seu interesse profissional há cinco anos, quando foi coroado Miss Volta Redonda.
Foi aí que comecei a investir financeiramente, conta. Sobre o motivo de ter representado o Espírito Santo, apesar de não ter vínculo com a região, ele comenta que se deve ao fato de o estado ter tradição no concurso, contabilizando muitos títulos em 35 anos de realização. Devo muito ao Sérgio Herzog (preparador de misses). Ele tem muita experiência para trabalhar a imagem e a postura da candidata, afirma, destacando o importante apoio recebido do cabeleireiro, Tiago Carvalho, com quem está casado há sete anos, e da família.
Preferindo ser chamado de acordo com a figura que se apresenta – Sheila se estiver de vestido e Jorge se estiver de calças -, o performer comenta que toda a produção demora aproximadamente duas horas. A rotina diária se resume a aula de aeróbica duas vezes por dia, alimentação balanceada, com poucos carboidratos, vegetais e frutas. Como toda miss, também não dispensa o acompanhamento de uma esteticista. Aplica botox periodicamente e faz clareamento dentário. Quanto à cirurgia plástica, já fez uma intervenção no nariz.
‘Sou muito bem resolvido quanto
a minha sexualidade’
Se a carreira de transformista começou aos 18 anos, sua homossexualidade foi assumida aos 15. Sou muito bem resolvido quanto a minha homossexualidade. Na época, meu pai já tinha falecido. Sentei com minha mãe e contei minha condição. Antigamente isso era um tabu. Hoje tudo é mais fácil. Ela entendeu que eu nasci assim e que, desde criança, me interessava pelo universo feminino. Sou um privilegiado porque minha criação foi baseada no amor, diz Jorge, apontando para a pertinência do tema do Miss Brasil Gay 2013: Todos somos iguais em direitos. Esse tema veio a calhar com o momento em que estamos vivendo no país. O projeto de cura gay não existe, porque ser homossexual não é doença. Isso é um crime. Acho que a posição de miss vem justamente para esclarecer essa questão. Nós devemos aproveitar a ocasião para exercer nossa militância com paz, reivindicar nossos direitos e nos conscientizarmos do nosso papel dentro da sociedade.
Como era previsto pela organização do Miss Brasil Gay, o espetáculo de sábado foi realizado dentro de três horas. Vinte e três candidatas (três – Acre, Rio Grande do Norte e Paraíba – não compareceram) desfilaram em trajes típico e de gala. Performances que lembravam as divas da cena mundial e show de humor foram assistidos por um um Cine-Theatro Central lotado (cerca de 1.500 pessoas). O destaque vai para a apresentação da drag queen e humorista Suzy Brasil, que dublou as cantoras Anitta, Joelma, da banda Calypso, e Daniela Mercury. Com microvestido de arco-íris, levantou o público com o som dessa cidade sou eu. O segundo lugar ficou com a candidata da Bahia, Eduarda Brígida, que também levou o prêmio de melhor traje típico com a fantasia de baiana inspirada no Grupo Olodum.









