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Tranquilidade marca 9ª Parada do Orgulho Gay


Por Fabiola Costa e Táscia Souza

20/08/2011 às 13h52

Três trios elétricos animaram a festa que se estendeu por toda a tarde

Três trios elétricos animaram a festa que se estendeu por toda a tarde

Entre 40 e 60 mil pessoas prestigiaram ontem a Parada da Cidadania e do Orgulho Gay de Juiz de Fora, conforme estimativa da Polícia Militar (PM). Para os organizadores, mais de cem mil cantaram, dançaram e protestaram contra a homofobia, animados pelo som de três trios elétricos. A 9ª edição do movimento foi marcada por forte esquema de segurança. O evento transcorreu com tranquilidade, segundo a PM, com pequenos focos de tumulto, rapidamente controlados. Já no final da parada, por volta das 17h, na Avenida Independência, duas brigas de galera começaram, mas foram desmobilizadas pelos policiais, uma delas com a utilização de cassetetes. A parada integra a programação do 14º Rainbow Fest, promovido pelo Movimento Gay Minas (MGM).

Depois de mais de duas horas de concentração no Parque Halfeld, às 14h30, o tradicional beijo gay entre o presidente do MGM, Marcos Trajano, e seu companheiro, Oswaldo Braga, com direito a chuva de papel picado cor de rosa, marcou o início oficial da parada. Emocionado, Trajano chamou Juiz de Fora de cidade da diversidade e disse estar realizado. "Há nove anos estamos aqui para brindar e saldar o orgulho LGBT." Oswaldo considerou o evento nota dez. Destacou a eficiência da segurança e disse que os turistas elogiaram o acolhimento da população juiz-forana.

Para a rainha da Parada Gay, a dançarina, coreógrafa e atriz Fernanda Müller, a parada é uma forma de reivindicar direitos e deveres. "Só queremos igualdade." O deputado federal Jean Wyllys (PSOL), também no trio elétrico do MGM, considerou a cidade um exemplo para o país, destacando a convivência harmoniosa e respeitosa. Para ele, construir uma cultura de respeito é o caminho mais curto para se adquirir direitos (leia mais na página 7).

A adesão ficou abaixo das expectativas, tanto da PM quanto da organização do evento. A 4ª Região da PM (RPM) havia estimado 80 mil pessoas. Já o MGM esperava 120 mil. No total, 500 policiais a pé, montados em cavalos e motorizados acompanharam todo o movimento. Grades de segurança foram instaladas nas vias de acesso. O fluxo do Calçadão da Rua Halfeld chegou a ser dividido, entre os que desciam e subiam a via. Buscas foram feitas a veículos e pessoas nas imediações.

Segundo o comandante da 30ª Companhia do 2º Batalhão da PM, capitão Yoshio Yamaguchi, houve ocorrências relacionadas a consumo de drogas nas ruas Marechal Deodoro e São João. Já o comandante da 3ª Companhia de Missões Especiais (CME), major Paulo Henrique da Silva, disse que foi apreendida um revólver calibre 32, com um menor no Jardim Natal. O major destacou a preocupação em realizar buscas também em bairros e não apenas no local do evento.

Antes da chegada dos trios à Rio Branco, por volta das 13h, drags fizeram a festa no Calçadão, distribuindo sorrisos, abanando leques, equilibrando-se em saltos plataforma e posando para fotos. Pela primeira vez na cidade, Minatosca e Milena vieram de São Paulo e se surpreenderam com a organização. "Aqui não temos quantidade, temos qualidade". Com esposa, sogra e dois filhos, o vendedor de peças Osmar Nazário, 36 anos, prestigiou a concentração da parada e elogiou a segurança. Para ele, a família não foi apenas participar da festa. A meta é mostrar aos filhos a importância do respeito à diversidade.

 

Viés político reforçado por presenças

O beijo oficial que marcou o início da 9ª Parada da Cidadania e do Orgulho Gay foi antecedido pelo Hino Nacional e pelos versos "viver e não ter a vergonha de ser feliz", de Gonzaguinha, entoados por Sandra Portella. O caráter cívico das duas músicas deu a tônica do evento, que, em comparação ao ano passado, recebeu um reforço em seu viés político, de conscientização não só contra a homofobia, mas contra todo tipo de preconceito. Esse marco foi destacado pela secretária-geral da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (Contee), heterosexual, que marcou presença na festa defendendo uma educação antissexista e anti-homofóbica. "Chico Xavier tem uma frase que diz que a gente não pode voltar ao passado para fazer um novo começo, mas pode começar de novo para fazer um final diferente. Eu distingo muito homofobia de preconceito e acho que temos que combater também o preconceito. Todos aqueles que têm comportamento preconceituoso podem refletir e ver que a construção da sociedade e da humanidade se faz a cada dia. Ser uma metamorfose ambulante é bem melhor do que manter uma visão arraigada sobre as coisas."

Cidadania

Foi o que defenderam as professoras da UFJF Cláudia Lahni e Daniela Auad, casadas há um ano. Daniela trocou a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) por Juiz de Fora e se mudou para a cidade com a filha Leila, de 3 anos – fruto de um casamento heterossexual de mais de uma década – por amor a Cláudia. "Como tinha um casamento hétero, percebo o quanto a gente ainda é discriminada. Até mesmo frases como ‘eu aceito’ ou ‘não me importo’ são falas carregadas de preconceito", criticou Daniela, cuja filha, hoje, tem "duas mamães e um papai". "Nós andamos de mãos dadas, trocamos carinho em público como qualquer casal hétero, e já há quem nos veja como cidadãs, contribuintes, condôminas que pagam seu condomínio, mães que participam das reuniões pedagógicas na escola. Mas ainda é uma coisa em construção." Para Cláudia, o que deve existir, acima de tudo, é o respeito. "A gente precisa ser respeitada. Afinal de contas, é o amor. E o amor é a coisa mais linda e mais certa do mundo."

Igualdade

O assessor técnico do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, Gil Casimiro, também enfatizou esse enfoque mais cidadão da parada, sem perder o clima de alegria e descontração. "É uma festa, mas é principalmente um ato político pelo direito à liberdade, pelo direito à diversidade, pelo direito de ir e vir."O mesmo foi dito pelo professor Rafael Reis, de 30 anos, que estava acompanhado do companheiro Thiago Silva, de 23, com quem namora há oito meses. "É uma oportunidade de congregar a sociedade. Se sou um cidadão como qualquer outro, por que não mostrar meu modo de viver?" Também acompanhado do namorado Gilberto da Silva Júnior, de 21 anos, com quem está há mais de três anos, o estudante Davi Campos Ribeiro, 19, ressaltou a igualdade. "Não importa língua, sexo, religião… Todos somos iguais. O que importa é a felicidade."