Ecos dos porões

Livro narra os passos do militante Milton, cujos restos se encontram em cova rasa no Cemitério Municipal
Ao saber que um amigo de seu filho havia sido preso na Penitenciária de Linhares, Maria Amélia Lamas Dias resolveu visitá-lo num fim de semana. Viúva, a dona do antigo Cinema São Luiz em seus tempos áureos, sem autorização para tal, enfrentou o Exército e encontrou Marco Antônio Azevedo Meyer. A ele, entregou 20 frangos assados e farofa, para que dividisse entre os amigos. Dona Quituta, como era conhecida, não ocupa mais de duas páginas de “Cova 312” (Geração Editorial, 344 páginas, R$ 39,90), mas marca o leitor com seu gesto de extrema generosidade e coragem.
A refinada personagem da vida real emociona ao expor as flores que insistiram em brotar no solo estéril da ditadura militar. Assim como Maria Amélia, o novo livro da repórter especial da Tribuna Daniela Arbex, cujo lançamento acontece hoje, às 19h, na Livraria Saraiva do Independência Shopping, joga luzes sobre figuras de força incomum que o tempo silenciou.
“Todo mundo tem uma história para contar. Essas pessoas me surpreenderam pela grandiosidade de suas ações. Os anônimos têm espaço privilegiado no livro, porque são pessoas que, apesar de desconhecidas, têm riqueza de informações. Alguns ficaram nos bastidores, outros participaram ativamente”, conta Daniela. Com um capítulo integralmente dedicado a ela, Ângela Pezzuti é outra dessas mulheres e homens que enfrentaram os militares sem pegar em armas e sem hastear bandeiras. Aos 36 anos, a irmã de Carmela e tia de Ângelo e Murilo, três militantes presos em Linhares, se envolveu por inteiro numa causa que não era dela.
Com os parentes confinados, a jovem abriu mão de tudo e de todos para lutar por eles. “Ela é uma mulher cuja história é completamente desconhecida. Só se fala da Carmela, do Murilo e do Ângelo. Acho que a História não fez justiça a ela, porque, não fosse sua atuação, talvez nenhum deles tivesse sobrevivido ao cárcere”, comenta Daniela, que a certa altura do livro descreve com precisão a garra daquela mulher: “Precisava resistir a seu modo. Com um metro e meio de altura, a chefe de importação do departamento de administração da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) foi uma gigante na mobilização das famílias que tiveram filhos desaparecidos e mortos sob a guarda do Estado”.
A humanidade presente em pessoas, como um pai que abriu seu restaurante para receber familiares vindos de outras cidades para visitas em Linhares, confere outra dimensão a um momento sempre visto do ângulo dos militantes ou dos militares. A pena de Daniela dá aos anos de chumbo a leveza e a densidade própria dos seres. “Esses personagens reais me colocaram dentro de Linhares e da ditadura”, emociona-se a autora, que também apresenta momentos desconhecidos de figuras conhecidas, como Fernando Gabeira, Fernando Pimentel, Márcio Lacerda, entre outros.
Linguagem à flor da pele
São muitos os detalhes presentes no “Cova 312” de Daniela Arbex. Da marca do som na Sala Ernesto (quarto de um militante) – “pequena vitrola Philco” – ao nome do gato de uma professora de russo – “era Maliú, o gato dela” -, a autora recria o ambiente para que o leitor acesse com intimidade. Ao longo das páginas, a Penitenciária de Linhares, um dos mais importantes presídios políticos do país, torna-se espaço familiar. Cada canto é frequentado pelo leitor. Cada preso é reconhecido. Concluída a leitura, resta o vazio de uma companhia tão intensa, fruto de uma escrita absolutamente sensível a tudo. Repleto de metáforas, o livro da autora do best-seller “Holocausto brasileiro” (Geração Editorial) traz uma grande história numa escrita igualmente vultosa.
Em seu segundo trabalho literário, Daniela oferece ao leitor a maturidade dos veteranos e a sensibilidade de alguém que não se bastou com a superfície e sempre quis mergulhos profundos. Ao “desenterrar” o militante político Milton Soares de Castro, guerrilheiro do Caparaó e único preso político morto dentro de uma cela em Linhares, a jornalista encontra o fio de uma meada complexa e instigante, cheia de sombras, mas também de luz.
“Não sei dizer como escrevo. Entrego-me ao texto, e muitos já reconhecem o meu estilo. Minha personalidade está ali, meu olhar social e minha vivência. Quando escrevo, me transporto para os lugares que revelo. Primeiro me deixo tocar, para depois tocar o leitor”, resume Daniela, outra resistente que enfrentou o silenciamento até hoje imposto pelo regime, para descortinar porões ainda cheios de vozes potentes.
“COVA 312”
Lançamento do livro de Daniela Arbex
Hoje, às 19h, na Livraria Saraiva
(Independência Shopping)








