A cultura russa além do cancelamento
Sob risco de boicote diante da guerra na Ucrânia, artistas e obras da Rússia têm lugar de destaque na história universal da cultura e das artes
Desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, uma onda de “cancelamentos” assolou a cultura russa. É como se, por causa da guerra, nenhum tipo de arte vinda de lá, seja clássica ou contemporânea, pudesse ser consumida, porque esse ato seria uma forma de apoiar as ações do presidente Vladimir Putin. Excluir o todo pelo ato de um. A Orquestra Filarmônica de Cardiff, no País de Gales, por exemplo, decidiu tirar do repertório as composições de Piotr Ilitch Tchaikovsky, um dos principais nomes da música erudita dos séculos 19 e 20. Na Itália, uma universidade tentou deixar de estudar textos do escritor Fiódor Dostoiévski – o que não aconteceu por pressão dos alunos. O Festival de Cannes anunciou boicote às delegações russas. A Netflix, por sua vez, interrompeu as produções e compras de obras no país. Anna Netrebko, soprano russa, retirou algumas de suas apresentações pelo mundo. Mas qual é o preço que se paga por isso?
A lista de artistas e obras russas que influenciaram a cultura do mundo é extensa. O balé russo, por exemplo, ganhou forças já no século 18. O Balé Bolshoi, criado em 1776, é ainda hoje um dos maiores do mundo. Tchaikovsky, que foi cancelado, rodou o mundo com suas sinfonias e, até hoje, tem suas obras revisitadas. Na pintura, no século 20, surgiu, na Rússia, o abstracionismo, a partir de “Primeira aquarela abstrata”, do pintor moscovita Wassily Kandinsky. A pintura sacra “Teótoco de Vladimir”, de autoria desconhecida, é um ícone que representa a protetora da Rússia. Na gastronomia, o tão popular estrogonofe é filho da Rússia: acredita-se que o prato, apesar de ter sido criado por um chef francês, surgiu para facilitar a ingestão de carne de uma família russa. Mas, para além disso, há uma série de livros, filmes e pinturas que não podem ser esquecidos, porque são universais: dizem sobre a Rússia e sobre o mundo. Há mais homens que mulheres nesta lista, reflexo de uma sociedade ainda fortemente machista.


Na literatura
Nikolai Gógol nasceu em uma cidade que, hoje, faz parte da Ucrânia, mas, na sua época, pertencia ao Império Russo. Seu livro “Almas mortas”, de 1842, apesar de não conter a parte final, que ele rasgou pouco antes de morrer, é considerado um marco da literatura russa, responsável por ajudar a definir o que viria depois. Fiódor Dostoiévski e Lev Tolstói talvez sejam os autores mais conhecidos e lidos até hoje de maneira contínua no mundo todo. Em 1866, Dostoiévski lançou “Crime e castigo”: livro escrito enquanto o autor estava exilado na Sibéria, com traços autobiográficos, sobre religião, crime, culpa e sofrimento. Já Tolstói, com “Guerra e paz”, contou, em um calhamaço, a história da Rússia quando invadida por Napoleão, a partir das vivências de algumas famílias da época. Mais contemporâneo, “O mestre e margarida”, de Mikhail Bulgákov, de 1967, cria um cenário em que um diabo invade Moscou na década de 1920, quando o país vivia a era de Stálin. Svetlana Aleksiévitch, vencedora do Prêmio Nobel, é bielorrussa. Hoje, não pode voltar à Rússia porque, caso o faça, sabe que será presa. O motivo é sua escrita: ela relata o sofrimento de várias pessoas no mundo todo, incluindo na Rússia. “O fim do homem soviético”, de 2013, escrito originalmente em russo, conta como ficou a sociedade após o fim da União Soviética.


No cinema
“O encouraçado Potemkin”, dirigido por Sergueï Eisenstein, de 1925, talvez seja o mais influente dos filmes russos. Em um navio, começa a surgir uma mobilização dos trabalhadores que não aguentavam mais ser explorados. O filme é considerado como um dos definidores da montagem cinematográfica ainda em voga. “Quando voam as cegonhas”, de 1957, dirigido por Mikhail Kalatozov, apresenta a versão russa da Segunda Guerra Mundial, a partir da perspectiva de um casal de Moscou. “Eu sou Cuba”, do mesmo diretor, foi uma produção entre Rússia e Cuba, que mostra como era o país latino antes da revolução comunista. Na época de lançamento, em 1964, a produção não foi bem recebida. Mas, anos mais tarde, alguns cineastas a recuperaram e passaram a exibir em festivais. Era, sim, um filme que tinha intenções de ser propaganda, mas também com aspectos técnicos bem definidos. “Uma mulher alta”, de Kantemir Balagov, é contemporâneo, foi lançado em 2019, baseado no livro “A guerra não tem rosto de mulher”, de Svetlana Aleksiévitch. Nele, o diretor apresenta duas mulheres que voltam a sua cidade, devastada pela guerra, e, juntas, tentam reconstruir o que foi arruinado.













